Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Diário gráfico #2




Mais páginas de um pequeno diário que fiz em 1992, para ver em promenor clique nas imagens.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Diário gráfico #1





As primeiras páginas de um pequeno diário que fiz em 1992, para ver em promenor clique nas imagens.

Leituras #11


Continuo com as palavras do homem da montanha no seu Portugal, sobre Évora:

“ Aproveitando os incentivos do meio e os recursos do seu génio, o alentejano faz milagres. A própria paisagem sem relevo o estimula. Faltava ali o desenho e a arquitectura, que nas outras províncias existem na própria natureza. Pois bem: concebeu ele o desenho e a arquitectura. E, na mais rasa das planícies, ergueu essa flor de pedra e de luz que é Évora!
Beja tem a sua torre de mármore para ver meio Portugal; Portalegre os seus palácios barrocos, para encher de solidão; Elvas o seu aqueduto de sede arqueada e a sua feiura para meter medo aos Espanhóis; Estremoz a sua praça do tamanho de uma herdade. Mas Évora olha do alto do seu zimbório espelhado, povoa as casas de lembranças vivas e gloriosas, e, sequiosa apenas do eterno, risonha e aconchegada, enfrenta as agressões do transitório com a força da beleza e a amplidão do espírito.
Será talvez alucinação do poeta. Mas porque nela se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de luar. E, sem guia, mandá-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no politico e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.”

In Miguel Torga, Portugal, Edição do autor, Coimbra 1957, p-124-126.

A sugestão da quarentena parece-me bem, para mim não porque nasci e vivi cerca de 16 anos dentro daquelas muralhas, estou como o Obélix em relação à poção mágica, mas experimentem, como diria o Almada “ Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades”.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

No Escara Voltaica

O Pedro S. Martins postou um poema com ilustração aqui da casa. Obrigada.

Dia-a-dia #6

Os quadros para a exposição no dia 8 de Maio já estão prontos desde sexta-feira, agora só resta secarem. Entretanto, estou sem internet em casa, um problema na linha, só devo regressar aqui lá para quarta-feira, a não ser que haja um milagre PT.

domingo, 26 de abril de 2009

No fio de Ariadne #3






Da cidade, aguarela s/papel, 21x30cm, 2008

Postado no Insónia a 24/1/2008 e publicado na Revista Big Ode#4 - Urbe, Março-Junho de 2008, clique na imagem para ler.

sábado, 25 de abril de 2009

Textos Insones #6

25 de Abril

Não tenho nenhuma recordação do dia 25 de Abril de 1974, na altura tinha 4 anos; tenho apenas algumas imagens soltas anteriores a essa data e também posteriores. Sei que estava em Évora com os meus pais e irmãos e a partir do Verão de 1975 não foi fácil, as propriedades dos meus pais foram ocupadas, passamos por dificuldades várias e o que sempre ouvi em minha casa e aprendi com a clivagem que vivemos a partir desse período é que o oportunismo não tem cor, não se pode confiar nos políticos, são poucos os que são decentes e honestos neste país, não se pode ter ilusões – e não é só os políticos, mas os exemplos vêm de cima. Lembro-me de ter partido para Espanha com a minha mãe e cinco dos meus irmãos. O meu pai e irmão mais velho ficaram em Portugal. Lembro-me do inicial apartamento onde vivi em Badajoz, num primeiro andar, eu dormia com a minha irmã Ró num colchão no hall de entrada – uma aventura – os rapazes ficavam na sala numas cadeiras de praia, a minha irmã Ana num pequeno quarto junto à sala e a minha mãe no outro. A minha irmã Xum estava em Mérida e depois juntou-se a nós; via os desenhos animados da Heidi num café ao pé desta casa, onde jogava flipers com os meus irmãos. Depois mudamo-nos para um rés-do-chão maior, uma casa velha, dormia num quarto com a minha irmã Ró, ao lado do quarto da minha mãe. Lembro-me de ouvir a rádio portuguesa, o som da guitarra do Carlos Paredes remete-me sempre para os espaços desta casa; ia à escola, aprendi a escrever e a ler o castelhano, tinha uma cartilha com desenhos e de frases do tipo “ mi mama me mima” ou “mi padre fuma pipa”. Na escola estava sempre a fazer traquinices, tinha uma colega de carteira portuguesa, a Filipa e mais duas espanholas. Estava muitas vezes de castigo – porque seria? – Ia para o fundo da sala virada para a parede. Em casa, depois do jantar ia brincar com uma pandilha na rua, jogar ao elástico, aprendi a cantar e a dançar sevilhanas – a minha irmã Ró diz que fui eu que meti conversa com as miúdas na rua. No primeiro andar dessa casa viviam vários estudantes, era uma diversão. Quando se aproximou o Natal, fiquei cheia de medo de não ter prendas, a casa não tinha chaminé. Depois recebi uma cama de plástico cor-de-rosa para a minha boneca e a minha irmã Xum convenceu-me que ela entrou pelo buraco do vidro da janela da sala. Depois mudamo-nos para um apartamento num prédio moderno, onde também brincava na rua à noite, com outra pandilha. Uma vez cantei as sevilhanas que tenho na memória a uma catalana que se fartou de rir e dizia que só poderia ter aprendido isso na rua. Quando voltei para Évora não havia nada disto, não brincava na rua e compartilhávamos a casa com mais duas famílias de retornados. O meu pai dava aulas de matemática e a minha mãe trabalhava na escola onde eu ia com a Ró. A minha mãe diz que o único ministro da agricultura que houve como deve de ser neste pais foi o António Barreto e que se o encontrasse na rua, ia dar-lhe um aperto de mão e cumprimentá-lo. Apesar de tudo, o sentido de humor foi sempre mantido na minha casa em relação à política: lembro-me de num Carnaval os meus pais mascararem-se de pessoal da reforma agrária para pregarem uma partida a uns amigos; noutro, a minha mãe mascarou-se de Manuela Eanes, estava enlacada, pirosa e extraordinariamente pintada; estas talvez sejam exemplos de boas expressões para ultrapassar o sofrimento, a mágoa que eles sentiam em relação ao que foi destruído, as árvores cortadas que nunca mais se puderam recuperar. O que é para mim o 25 de Abril? O dia em que se comemora a liberdade no meu pais e de imediato associo a data às noites em que brincava na rua em Espanha com as pandilhas, onde cantava e dançava sevilhanas. Esta memória para mim ficou como sinónimo de liberdade.
Postado no Insónia a 25/4/2007

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Leituras #10


E assim escreveu Miguel Torga sobre este país de nada:

“ Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-montes e o Alentejo. Trás-os-montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento”.

“Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito e a realidade de um solo exausto”.

“ Embriago-me na pura charneca rasa, encontrando encantos particulares nessa pseudo-monotonia rica de segredos. Nada me emociona tanto como um oceano de terra estrema, austero e viril. A palmilhar aqueles montados desmedidos, sinto-me mais perto de Portugal do que no castelo de Guimarães. Tenho a sensação de conquistar a pátria de novo e de a merecer…"
"Mas a terra alentejana pode comtemplar-se ainda no estado virginal, virgem, exposta e aberta. E é nela que encho a alma e afundo os pés, num encontro da raiz com o húmus da origem…”

In Portugal, edição do autor, Coimbra 1957. ( não sei as páginas, não encontro o livro, acho que a minha irmã é que o tem, tinha estas frases copiadas num bloco de apontamentos).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Leituras #9


Já que coloquei aqui uma coisa sobre Évora, lembrei-me do que Miguel Torga escreveu sobre esta cidade – tenham atenção, o Alentejo, segundo o José Régio é Trás-os-montes passado a ferro, o Torga é um homem da Montanha:

Évora, 14 de Fevereiro de 1942 – Rendo-me. Diante de uma realidade assim, rendo-me, e digo mais: que vale a pena, afinal, haver história, haver arquitectura, e haver respeito por quantos souberam ser antes de nós bichos e poetas no seu casulo. E por isto: porque até hoje, em Portugal, só esta terra me deu justa medida e a justa prova séria e humana pégada que deixaram no seu caminho nossos pais. Para que me surja vivo e sagrado aos olhos o que os meus antepassados fizeram, é preciso que a lição recebida seja ao mesmo tempo testemunho e destino. Ora nenhuma cidade nossa, salvo Évora, foi capaz de me dizer com pureza que eu sou latino, que eu sou árabe, que eu sou cristão, que eu sou peninsular, que eu sou português, - que eu sou a trágica mistura de sangue místico e pagão que faz de mim o homem desgraçado que sabemos.”

In Diário II, Edição do autor, Coimbra 1960, p-27

terça-feira, 21 de abril de 2009

Textos Insones #5

Nas ruas de Évora

Em Évora existiam ruas proibidas e assustadoras na moraria, onde evitei entrar mesmo de dia, como a Rua do Manuel de Olival, centro da prostituição e marginalidade entre muralhas que desagua no jardim das canas, transformado depois num despidinho, mesmo em frente do Teatro Garcia de Resende; aqui existia uma esplanada felliniana relativamente segura e movimentada, animada também por seres decadentes provenientes do Manuel de Olival, onde uma vez apanhei um dos maiores sustos da minha vida: estava sentada num agradável fim de tarde veranil com umas amigas a conversar, os seres estranhos sentavam-se habitualmente num baixo muro lateral junto ao jardim, por baixo da sombra, como sábios alentejanos; então um miúdo com cerca de seis anos aproximou-se da nossa mesa agarrando-se ao suporte do guarda-sol e olhou-nos com os seus estranhos olhos azuis acinzentados; depois esboçou um sorriso malicioso, que nunca mais esqueci, porque os seus dentes estavam todos cariados, tinham buracos negros. Évora tem destas coisas no seu interior, é uma cidade que sorri sem a ingenuidade infantil, uma cidade que ri com os dentes cariados e podres da história.
Não sei que estranho e potente íman tem a cidade branca das muralhas que é uma constante presença na minha memória e ausência na vida diária – sei apenas que o seu magnetismo é maléfico. Reza a lenda que a cidade foi amaldiçoada por uma bruxa, quando os cristãos a conquistaram aos mouros; não sei se é verdade, mas dizem que foi um acto de vingança, uma bruxa enterrou a cabeça de uma mula numa das portas da cidade. Se calhar foi no Arco da rua D. Isabel, por isso me assustei sempre que tive de passar por baixo das suas pedras. Évora, sempre que posso não vou lá, conheço aquelas calçadas de cor e salteado, quando tenho de lá ir apanho a última camioneta disponível, demoro um tempo infinito a sair da minha casa em Lisboa, arranjo todo o tipo de pretextos para me atrasar. Nem sempre foi assim, a relação com a cidade foi sempre conflitual, mas após a morte de um amigo pintor, o José de Carvalho Guinapo, em Setembro de 1991, passei a odiar aquele branco das paredes, aquelas ruas labirínticas que vão sempre dar ao mesmo sítio. Porque o Zé sabia que ia morrer, estava doente e omitiu-me esse facto, ele voltou para Évora para poder terminar – e morreu sozinho na sua casa, na sua cidade, encontram-no morto com a obra em seu redor, já estava assim há alguns dias. Évora é uma cidade que cheira a morte, eu sei que posso também lá ficar emparedada nalguma parede, mas prefiro viver ao pé do Tejo, ao pé do mar, por enquanto ainda tenho muitas ruas e calçadas novas para percorrer, quero gastar muitas solas de sapatos perdendo-me em cidades por este mundo fora, espreitando discretamente janelas e portas com universos desconhecidos; devo isso também ao Zé de Carvalho, não me esqueço das suas palavras, da sua luta até ao fim, da sua força e fé no trabalho artístico, só a morte o venceu. Évora habita a minha memória numa espécie de sepultura em vida, que me chama, constantemente, mas prefiro olhá-la bela e distante na estrada, sobretudo, quando vou a caminho de Espanha, assemelha-se a um encantamento, assim ao longe até parece ficção.
Postado no Insónia a 25/1/2006

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Dia-a-dia #5

Só me faltam terminar de pintar dois quadros para a exposição no dia 8 de Maio. Estou com uma dor de costas terrível, uma mistura de tensão muscular, stress e más posições a trabalhar ao longo dos anos. O São Pedro parece que, entretanto, resolveu enviar bom tempo, que se mantenha para os quadros secarem até à exposição, como são a óleo vão ter uma vernizage a sério. E uma aluna acabou de me dizer que estou com um ar muito feliz, respondi que é do cansaço, pois, deve-me deixar com cara de tontinha.

sábado, 18 de abril de 2009

Dia-a-dia #4

Estive de manhã nas comemorações da Universidade de Lisboa do dia mundial da voz, onde actuei no Coro de Câmara desta Universidade. Quando cheguei a casa deparei-me com a fantástica surpresa que o Henrique Fialho me enviou num comentário:
Não consigo colocar o vídeo de outro modo nesta casa, mas não deixem de ver.
A Rute Mota elegeu Susan Boyle a heroína do seu blog, em boa hora e dia, o dia da voz deveria ser como o natal, todos os dias, porque a voz humana é uma grande heroína.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Textos Insones #4

Do bom e do burro

Ultimamente tenho reparado que muita gente confunde as pessoas boas com pessoas burras, mas bom e burro não são sinónimos. Se formos verificar, no dicionário a palavra bom quer dizer de boa qualidade, que tem bondade e é sinónimo de virtuoso, vantajoso, próprio, agradável, útil, sadio, nobre, seguro e garantido. É claro que burro também começa por b, mas isso não quer dizer que o b de bom seja igual ao b de burro. Burro, segundo o dicionário é um nome vulgar de uns mamíferos perissodáctilos, da família dos Equídeos, menos corpulentos que os cavalos, mas com orelhas mais compridas; é sinónimo de asno, jumento e cavalgadura; também pode ser um jogo de cartas; e, finalmente, significa indivíduo estúpido e teimoso. Assim, no dicionário verificamos que estas duas palavras não são sinónimas, não surgem associadas, dai se deduz que uma pessoa boa não é burra, ou seja, estúpida e teimosa. Eu acho que por vezes o b de bom pode coincidir com o b de burro, mas isso é uma excepção que confirma a regra. O equívoco existe também porque muita gente confunde as pessoas boas com pessoas fracas. Ora fraco significa não ter força e é sinónimo de débil, frouxo, delgado, cobarde, pusilânime, debilitado, medíocre, brando, mau, reles, defeito, tendência, simpatia, paixão (estes últimos quando se tem um fraco por…), vício, predominante, balda. Assim, ser fraco não é coisa boa de certeza, também não sei se os fracos são burros, ou seja estúpidos e teimosos, não tenho a certeza, um indivíduo pode ser fraco apenas porque está doente, a doença nada tem a ver com a inteligência. Mas penso que a origem deste equívoco está no facto da bondade, o altruísmo, a generosidade, a partilha serem vistas com maus olhos no capitalismo selvático onde vivemos, sobretudo no mundo do trabalho que é uma psicose desenfreada, onde o individualismo, o egocentrismo, o egoísmo é sinónimo de forte no salve-se quem puder. Infelizmente, sinto que o sistema de mercado do salve-se quem puder também contamina e abrange não apenas o mundo do trabalho, mas outras áreas dos humanos. Verifico que essa contaminação está sempre presente na gente que confunde o b de bom com o b de burro. Acho, no entanto, que nunca nos devemos de esquecer que burro em italiano significa manteiga.


A bela fotografia de Miguel Martins em terras de Espanha remeteu-me para o texto postado no Insónia a 3/10/2008.

Leituras #8


O post anterior continua, ou seja, o desenvolvimento do ponto de vista de Shere Hite sobre as causas que levam alguns homens a matarem o amor:

A paixão está condenada ao fracasso?
O amor intenso deve acabar obrigatoriamente? O amor apaixonado cria «uma tensão insuportável» que faz com que muitos homens sintam que não pode durar sempre? Esta tensão aparece porque o homem é falso consigo mesmo ou porque realmente não ama a mulher, ou porque sente que a sua vida se desequilibra ao identificar-se demasiado com uma mulher e com as coisas das mulheres, pelo que será finalmente castigado pelo «pai», ou seja, pela sociedade masculina?
Muitas mulheres dizem que os homens seguem um modelo extremamente confuso e irracional. O homem actua com uma paixão inegavelmente real e intensa perante a mulher (tanto sexual como emocional) para logo sair em plena relação amorosa e esconder os seus sentimentos (quase metade de um orgasmo, segundo a opinião de algumas mulheres em As mulheres e o amor). Posteriormente, esse mesmo homem volta, demonstrando paixão mas ao mesmo tempo murmura cinicamente que «depois deverá pagar por isso». Evidentemente, segue-se depois outra ruptura e um adeus definitivo. Muitas mulheres dizem que se sentem «abandonadas» estando ainda seguras de que esses homens as amam, enquanto que os homens dizem «não sentir-se seguros» e não «querer comprometer-se».

Apaixonar-se implica um conflito de lealdades
Quando um rapaz que viveu uma «infância normal» no sistema familiar patriarcal cresce e apaixona-se a sério pela primeira vez, pode sentir que isso é uma bomba opressiva, e com um poder totalmente inesperado; e negativo. Ao contrário da mulher, o homem costuma considerar que estes sentimentos são demasiado intensos para sentir-se cómodo. Dizem que ao princípio o amor parece «natural» e agradável, mas rapidamente algo no seu interior diz-lhes que não pode ser bom, e deixar que uma mulher domine todos os seus actos e os seus sentimentos não é adequado. Quando «se apaixonam», muitos rapazes sentem instintivamente que estão em perigo e que devem sair de alguma maneira dessa situação, por muito prazenteiros que sejam esses sentimentos.
O facto de terem deixado a mãe paralisa-os, traumatiza-os criando neles um sentimento de culpa que faz com que resulte difícil amar e aceitar mais tarde o amor, e causa-lhes conflitos em quase todas as suas relações posteriores com as mulheres (incluindo as laborais) porque sentem culpa e temor ao verem-se «apanhados» no mundo da mulher e da mãe. Tanto os homens como os rapazes tiveram de aprender e aceitar o sistema de descriminação pelo sexo e o lugar que ocupam nele, o seu «direito» a dominar as mulheres e a competir com os homens.
Estes conhecimentos e a recordação dos sentimentos apagam-se à medida que os anos passam, e a sua origem desaparece da mente consciente. No entanto, se se identificam de forma «demasiado próxima» com uma mulher, reaparecem facilmente os antigos sinais de alarme confundindo os sentimentos e a conduta dos homens apaixonados.

In Shere Hite, Informe Hite sobre la familia, Ed. Paidos, Barcelona y Buenos Aires, 1995, p-250 (tradução caseira)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Música primaveril #9

Para variar, desta vez não se trata de Puccini, não sei de quem é a música, mas este momento do filme "E la nave va" de Fellini é mágico.

Leituras #7


Volto de novo à leitura do “Relatório Hite sobre a família” que me tem elucidado em relação aos estranhos comportamentos dos seres humanos. Nesta fotografia de Shere Hite da autoria de Jean Pierre Masclet é possível verificar que a célebre historiadora é uma mulher muito sexy, para além de ser feminista e inteligente. Aqui fica o seu ponto de vista sobre as razões que levam alguns homens a matar o amor:

“ Muitos homens projectam o fim de uma relação amorosa no momento em que tem inicio: parece que não podem imaginar uma relação afectiva e apaixonada com uma mulher que possa durar. Porquê?
Como já tiveram de matar o amor pela sua mãe (como ela matou anteriormente a intimidade física), o homem aprende que o amor é fatídico e está condenado a terminar. Os rapazes aprendem que o amor intenso tem sempre um final, habitualmente trágico, e que são eles quem lhes deve colocar fim. Como já vimos, os homens não colocam o desfecho na relação com as esposas (são as mulheres que habitualmente solicitam os papeis do divórcio), transferem-nas sim para o papel de mães (tenham ou não filhos), mas pelo contrário colocam fim aos seus amores intensos antes de casarem, enquanto estão a decorrer.
Em consequência, o homem projecta o final do amor «romântico» desde o princípio. A frase «Não podes voltar a casa» mostra a negatividade, o cinismo e o pessimismo de muitos homens perante o amor: «Não podes mudar a tua vida privada, a batalha entre os sexos é inevitável, é impossível conceber outro tipo de casamento ou de família», etc.
A tragédia é que… a felicidade «paga-se». Durante os anos quarenta, quase toda a população masculina dos Estados Unidos na idade de se reproduzir foi militar e perdeu a sua individualidade em massa, os filmes e revistas «demonstram os instintos assassinos» dos homens. Para além disso, o governo investiu dinheiro na industria cinematográfica de Hollywood para a produção de filmes que incentivassem os homens a lutar e a exagerar ainda mais a sua distância das mulheres, implantando em maior escala a imagem de que o dever dos homens está à frente do seu amor e da sua família, fixando com firmeza o argumento de amor-paixão-ruptura. Esta generalização «passou» a prejudicial tradição psicológica para os seus filhos, contra a qual tentaram revoltar-se durante os anos sessenta.
Os pais que partiram para a Segunda Guerra Mundial foram talvez também mais violentos com os seus filhos que a geração anterior. Estes pais disciplinados obrigaram os filhos a «abandonar a mãe de uma forma muito mais traumática que antes». Os filhos dessa geração são os homens que hoje dão a cara pelo fundamentalismo dos anos noventa.
Curiosamente, os rapazes que crescem sem pai escapam muitas vezes a este tipo de fim obrigatório.”

In Shere Hite, "Informe Hite sobre la familia", Ed. Paidos, Barcelona y Buenos Aires, 1995, p-249 (tradução caseira)

O contexto histórico-social do nosso país é diferente, tivemos uma ditadura durante quase meio século, a concordata com a igreja católica, a guerra colonial nos anos 60; a revolução chegou tardiamente em 1974, assim como o divórcio e outras mudanças nos costumes da nossa população, as mulheres conquistaram direitos legais que não tinham anteriormente; o país deixou de estar orgulhosamente só ao entrarmos na Europa e Portugal tem muitos elementos próprios para serem estudados. Será que esta herança cultural ainda tem efeito no modo como os homens e as mulheres se relacionam entre si nos nossos dias?

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Leituras #6


O autor do desenho representando Rilke é Leonid Pasternak, pai do célebre escritor russo Boris Pasternak e data de 1900. Alguém chegou ao Eco procurando no google " Rainer Maria Rilke a casa", é muito bonito. A carta que aqui tenho transcrito é o modo como o poeta habita esta casa no tempo, está presente no meu esforço interior. E assim termina a carta:

“ Este será o amor que, lutando duramente, agora preparamos: duas solidões que se protegem, se completam, se limitam e se inclinam uma para a outra. Isto ainda: Não julgue que o amor que conheceu adolescente se tenha perdido. Não foi ele que fez germinar em si aspirações ricas e fortes, projectos de que ainda hoje vive? Tenho a certeza de que esse amor apenas sobrevive, tão forte, tão poderoso na sua recordação, pelo facto de ter sido a primeira ocasião de estar só no mais profundo de si próprio, o primeiro esforço interior que tentou na sua vida.”
In Cartas a um jovem poeta, ed. Contexto, Lisboa 1994

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ecos de poesia

A página de Euclides Cavaco que também me deixou sem palavras, a não perder, a Lua escondeu-se.

Dia-a-dia #3



Hoje sonhei que alguém se tinha apropriado de um fragmento de um dos meus labirintos e o tinha postado num blog, ficava mais ou menos assim, só que no ecrã se via o papel amachucado, algo que me deixou em pânico. Quando acordei experimentei fazer novos enquadramentos nos desenhos e não ficam assim tão mal.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Textos Insones #3


As Janelas

Nas paredes da casa abrem-se as janelas que construí no tempo, abrem o amarelo contínuo da superfície para outros espaços, para outro tempo suspenso e contínuo, desenvolvendo-se paralelamente ao tempo que está a decorrer. A minha casa descreve-me na escrita invadindo as paredes, em forma de pequenas maquetas de cidades, em hieróglifos perdidos e escavados no barro terra que já foi pedra, o tempo tratou disso em labirintos luminosos sobre um azul nocturno e brilhante, numa via láctea em talha dourada. Olho estas janelas como se fossem árvores na estrada, ainda faltam muitos quilómetros para chegar ao fim e sinto os pés no chão a caminhar onde estou. Sei que sou um quase-nada que vai em direcção à única certeza que é o silêncio absoluto, o nada imperceptível. Estas paredes já foram brancas e vazias, com o tempo preenchias e rasguei-as com estas janelas. O branco é assim, uma página de papel que se preenche com escrita, com gestos, traços, cores, um temido silêncio inicial que sugere introspecção, que apela à concentração. O branco é em simultâneo um vazio que reúne o todo, também é a fusão das cores no espectro. Agora está tudo amarelo. Sou um quase nada rodeado de polimpsestos amarelecidos pelo tempo, uma migalha no universo. Não é mau ter consciência disso, assim posso olhar o mundo de outra forma. As crianças vêem o mundo com um fascínio e admiração que se perde na idade adulta. A natureza é grandiosa, oferece-nos tudo, mas estamos dependentes dela, também nos tira tudo, é a ordem desordem das coisas. Quero continuar, as janelas nestas paredes são o fio de Ariana, não me posso perder, vou juntando-as como se fossem peças coloridas, construindo um puzzle que nunca está completo. A minha casa escreve descrevendo-me nas paredes pinturas que são rastros da minha passagem por aqui, os meus artismos são aberturas para o exterior, são as janelas que me obrigam a sair destas paredes e prosseguir com os pés e as mãos aqui.
Texto postado no Insónia a 28/9/2005, a ilustração foi postada a 13/9/2006.

Uma casa no tempo #6





























 
 
 
 
 
 
 

Publicado a preto e branco na revista Big Ode #5 e postado no Insónia a 29/7/2008, clique na imagem para poder ler o texto.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Labrintos


Maria João Fernandes
LABIRINTOS
PINTURA

EXPOSIÇÃO > 08 a 30 Maio 2009


[esculturar a tela – sobre a pintura de Maria João Lopes Fernandes]

«a origem da beleza está na ferida», assim dizia Jean Genet no Estúdio de Alberto Giacometti.
nesta frase que me corta continuamente desde o momento em que a li, ficou-me uma sede de interior sempre que pintura e escultura e eu nos procurávamos (os quadros são fontes: precisam de seres que os bebam). e sempre mais feriam de sede os quadros que abriam as vísceras da alma: aqueles que compreendiam os sulcos interiores em que o abraço da vida e da morte se grava em corredores secretos sob o peito, em feridas internas onde se rasga o cosmos.
já a escultura de Maria João Lopes Fernandes me trazia há muito estranhos laços entre existências. música de si mesma desconhecida, que nasce da sede, da inquietação das raízes – e se constrói, traço a traço, sobre a realidade. a escultura de Maria João Lopes Fernandes é música. sequência entre a forma de símbolos de sons, de cosmogonias que se descomeçam, montanhas que procuram em sede a chegada, alfabetos de palavras e línguas antes do som e da forma. música, estruturas que pedem um intérprete, que lhes ordene a forma para chegar ao som.
Maria João Lopes Fernandes vai prosseguindo um solitário trabalho, entre a interpretação desconstrutora do Experimentalismo e a busca interior da raiz, natureza e possibilidades da forma, e encontra-se num lugar silencioso nas artes plásticas em Portugal. lugar, montanha, alfabeto que agora se consubstancia nesta exposição de pintura, numa coerência perturbadora e inquieta: a sua escultura, seu trabalho principal, imprime-se nestes gestos pintados, como se rasgasse montanhas no próprio acto do desenho, alargando o sentido dos traços. como se nos revelasse nestas feridas de silêncio que são os seus quadros, que uma arte não pode ser senão consciente da outra: que o seu escriturar a tela é uma busca tridimensional da forma, tal como a vida se grava na morte.
não somos feitos de pele, somos feitos de feridas: nesta exposição de Maria João Lopes Fernandes, na sua representação de feridas da alma, ouvem-se still lifes revisitadas, mas eu vejo também os traços de Adrien Coorte, que passou pela vida pintando naturezas mortas – porque pintar a geografia interna das coisas é salvar o real, é mapear a luz que nasce da dor. É encontrar a origem da beleza.

Pedro Sena-Lino
Porto, Fevereiro de 2009

Já está anunciado aqui

Leituras #5


Esta carta que Rainer Maria Rilke escreveu a 14 de Maio de 1904 continua de um modo surprendente, porque o autor revela que é um feminista, eu arrisco mesmo a afirmar que estava mais à frente, as suas palavras são pós-feministas:

“As raparigas e as mulheres, na sua evolução, só temporariamente imitarão as modas masculinas, só temporariamente exercerão as profissões dos homens. Logo que acabem estes períodos incertos de transição, ver-se-á que as mulheres se prestaram a estas mascaradas, muitas vezes ridículas, apenas para extirpar da sua natureza as influências deformantes do outro sexo. A mulher, que uma vida mais espontânea, mais fecunda, mais confiante habita, está sem dúvida mais perto do humano do que o homem – o macho pretensioso e impaciente que ignora o valor do que julga amar por não estar preso às profundidades da vida, como a mulher, pelo fruto das suas entranhas. Esta humanidade, que na dor e na humilhação amadurece a mulher, virá à superfície quando esta quebrar as cadeias da sua condição social. Um dia (sinais certos o atestam já nos países nórdicos), a rapariga existirá, a mulher existirá. E estas palavras: “rapariga”, “mulher”, não significarão somente o contrário de “homem”, mas qualquer coisa de pessoal, valendo por si mesma; não apenas um complemento, mas uma forma completa de vida: a mulher na sua verdadeira humanidade.”

In Rainer Maria Rilke “ Cartas a um jovem poeta”, Ed. Contexto, Lisboa , 1994, p-73

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uma casa no tempo #5





























Mar

Levaste-me a ver o mar, o areal da praia grande. Disse-te que aquele era o meu mar, que me atormenta os sonhos. Contaste-me que o teu mar estava ali perto, na Ericeira. Eu relatava-te acontecimentos absurdos para te fazer rir. Víamos o mar no grande areal ao longe:
- Só me contas histórias fantásticas, já pensaste em escrevê-las?
Eu não escrevo, pinto, tu é que escreves. As imagens são mais imediatas, elas invadem o interior do cérebro, silenciosamente. Pensa bem: o que é mais rápido, o trovão ou o relâmpago? Um fenómeno apenas, surgindo no mesmo espaço-tempo, a descarga de energia eléctrica na atmosfera terrestre. A ciência descodifica a invisibilidade deste fenómeno, através do cálculo matemático é possível uma aproximação à ordem da natureza. E como é que a natureza nos revela o fenómeno? A luz invade a atmosfera e segue-se o trovão. A velocidade da luz é superior ao som, o som é uma espécie de sombra da imagem. As imagens são velozes e silenciosas, a língua segue-as, fantasmaticamente, de forma ameaçadora. O som estremece o chão dos meus pés nas trovoadas de Sintra.


Texto publicado em "Bicicletas para memórias e Invenções", Ed. criativação, Lisboa, Dezembro 2006 e postado no Insónia a 21/8/2005, a ilustração foi postada a 20/10/2006




Leituras #4


Esta carta foi escrita por Rainer Maria Rilke a 14 de Maio de 1904 e sempre que a leio sinto que poderia ser escrita hoje:

"Nisto consiste o erro tão frequente e tão grave dos novos: precipitam-se quando o amor os atinge, porque faz parte da sua natureza não saberem esperar. Entregam-se quando a sua alma é apenas esboço, inquietação, desordem. Mas quê? Que pode fazer a vida desta confusão de materiais desperdiçados a que chamam «a sua felicidade»? E que futuro podem esperar? Cada um se perde a si próprio por amor do outro, e perde também o outro e todos aqueles que ainda poderiam vir… E cada um perde o «sentido largo» e os meios de o atingir, cada um troca os vaivéns das coisas do silêncio, cheios de promessas, pela confusão estéril, de que só pode sair fastio, indigência e desilusão. Só lhes resta refugiarem-se numa dessas múltiplas convenções que existem em toda a parte como abrigos ao longo de um caminho perigoso. Nenhuma região humana é tão rica em convenções como esta. Lanchas, bóias, cintos de salvação…- a sociedade, neste caso, oferece todos os meios de libertação. Inclinados a ver no amor apenas um prazer, os homens tornam-lhe o acesso fácil, barato, sem riscos, como um divertimento de feira. Quantos seres jovens há que não sabem amar, que se limitam a entregar-se, como acontece correntemente (e decerto a maioria limitar-se-á sempre a isto), e vergam depois sob o peso do seu erro! Pelos seus próprios recursos, procuram tornar possível e fecunda a situação em que caíram. A sua natureza diz-lhes que as coisas do amor, menos ainda do que outras, também importantes, não podem ser resolvidas segundo tais ou tais princípios que servem para todos os casos. Sentem perfeitamente que é um assunto para ser resolvido de ser para ser e que cada caso necessita de uma resposta única, estritamente pessoal. Mas, se já se confundiram na precipitação da posse, se já perderam toda a personalidade, como poderão encontrar em si próprios o caminho para fugir a este abismo em que soçobrou a sua solidão? Um e outro procedem cegamente. Empregam toda a sua boa vontade em dispensar convenções, como o casamento, para cair em convenções, menos vistosas, é certo, mas igualmente mortais. É que, ao seu alcance, só há convenções. Tudo o que resulta destas uniões turvas, cuja confusão vem da precipitação, só pode ser convencional. O próprio rompimento seria um gesto convencional, impessoal, fortuito, débil e ineficaz. Nunca, nem na morte, que é difícil, nem no amor, que também é difícil, aquele para quem a vida é uma coisa grave terá a ajuda de qualquer luz, de qualquer resposta já dada, de qualquer caminho antemão traçado. Não há regras gerais para nenhum destes deveres que trazemos escondidos em nós e que transmitimos àqueles que nos seguem sem jamais os esclarecer. Na medida em que estamos sós, o amor e a morte tocam-se. As exigências dessa terrível empresa que é o amor através da nossa vida não são à medida dessa vida e jamais estaremos à altura de merecer o amor desde os primeiros passos. Mas se, à força de constância, consentirmos em suportá-lo como dura aprendizagem, em vez de nos dispersarmos em brinquedos fáceis e frívolos que permitem que os homens se furtem à gravidade da existência, talvez um progresso insensível, um certo alívio possa então resultar para aqueles que nos seguirem, muito tempo ainda depois da nossa morte. E isto já seria muito. Hoje, mal podemos ainda considerar, sem preconceitos, as relações de dois seres. As nossas tentativas para viver tais recordações carecem de exemplos que as guiem. E, contudo, o passado contém esboços de vida que poderiam ajudar os nossos passos hesitantes."

In Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, (tradução de Fernanda de Castro), Ed. Contexto, Lisboa 1994 , p-70-72

terça-feira, 7 de abril de 2009

No fio de Ariadne #2





A Catedral, aguarela s/papel, 30x21cm, 2008.

Postado no Insónia a 16/2/2008

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Contos da palnície #2

Encontro na charneca

Para o meu irmão Joaquim

Era um dia que já ia longo, onde tive de voltar a pé para casa, caminhando pela estrada de terra batida dentro do montado que me era tão familiar, as árvores repetiam-se espaçadamente, em cada passo ritmado. Reconhecia cada sobreiro em meu redor, sabia em que anos foram despidos e como voltaram a vestir-se com o tempo; desde que me conheço que estou nas tiragens de cortiça destas terras, quando era miúdo davam-me a árdua tarefa de marcar com tinta branca a data da tiragem em cada um deles; os sobreiros aparentemente iguais tornaram-se assim uma sucessão de números, com espaços invisíveis de nove anos em cada tronco, que apenas o meu interior reconhece. Voltava, então, àquele montado para fazer recolhas de cortiça e as analisar no laboratório, fui na minha 4L; estava a viver numa aldeia próxima, era já um especialista na área florestal, todos os que me conheciam de pequeno começaram a tratar por Sr. Engenheiro e achavam estranho não ter comprado ainda um jipe; eu deslocava-me sempre na minha carrinha velhota, que mais uma vez ficou atascada, só no dia seguinte a poderia vir buscar com a ajuda de um vizinho, o material recolhido estava guardado no seu interior.
Ao anoitecer, o verde seco das copas tornou-se mais intenso, deixando a terra e o meu caminho para segundo plano, esfumando-o até desaparecer; continuei, no entanto, a sentir o chão debaixo dos meus pés em movimento, entre duas bermas que se pressentiam no escuro. O céu estrelado já tinha iniciado o seu reinado, como se a terra de noite diminuísse de propósito, só para me dizer que sou um quase-nada, um pequeno ponto que se move no espaço, uma poeira das estrelas que aqui caiu. Os sobreiros tornaram-se silhuetas no azul-escuro, percorria-os ouvindo o movimento das suas copas em diálogo com os grilos no vento, a passagem no tempo tornou-se mais intensa na noite. Tirei então a lanterna do bolso para iluminar o caminho, a sua pequena luz dizia-me onde estava, comprovou que já faltava pouco para chegar, “é já ali agora” como dizem por cá; prossegui, seguindo a lanterna que me indicava as bermas da estrada, assobiando a primeira melodia que me veio à cabeça; depois da curva seguia-se a lomba, comecei a subir em direcção à charneca, quando chegasse ao topo poderia ver ao longe as luzes das casas onde os granitos e os arbustos me iriam levar; avancei, repeti a mesma melodia, a paisagem no escuro também era minimal, o meu assobio apenas servia para me assinalar no vento, acompanhando os grilos e a vegetação, agora sem árvores, as folhas dos arbustos assim sabiam que estava de passagem. Depois da lomba, já dentro da charneca, senti uma presença em movimento no sentido contrário, parecia vir lá debaixo. Um enorme arrepio de frio percorreu o meu corpo e calei-me. O vulto aproximava-se do outro lado da estrada, ainda distante, eu detive-me, não me conseguia mexer. O vulto parecia uma mulher. Há quanto tempo ela estava a ouvir o meu assobio? Retomei o meu passo hesitante, ela não se deteve, resolvi prosseguir assobiando, mas não me saiu nenhum som; olhei o foco de luz no chão em movimento, levantei então os olhos e a lanterna para a desconhecida, vinha de negro no escuro sem hesitar, tinha uma silhueta elegante, saia comprida e larga, um lenço cobria-lhe os cabelos; por fim, olhou-me de lado quando se aproximou, fuzilou-me com um brilho que nunca tinha visto, como se me cortasse em duas metades. Eu parei novamente e disse boa-noite; ela continuou a fixar-me de soslaio, não me respondeu, passou assim por mim, prosseguindo em silêncio o seu caminho na noite.
Postado no Insónia a 1/3/2009

domingo, 5 de abril de 2009

No fio de Ariadne #1




Aguarela s/ papel, 30x21cm, 2008

Postado no Insónia a 18/2/2008, para ler o texto clique na imagem.

sábado, 4 de abril de 2009

Dia-a-dia #2

Esteve um dia tão fantástico lá fora e eu aqui a estudar as malditas fugas da Petite Messe Solennelle de Rossini, é mesmo assim, não se faz nada sem esforço e suor. A primavera nas terras do além está fortíssima, por isso são necessárias precauções, visto que sou alérgica a tudo o que é belo e verde, ando a tomar anti-alergicos que dão moca e fico muito lenta a fazer tudo. Mas tenho de saber as malditas fugas de cor para as poder cantar na próxima semana.

Leituras #3



Rainer Maria Rilke nasceu em Praga a 4 de Dezembro de 1875 e morreu na Suiça a 29 de Dezembro de 1926; foi um dos mais importantes poetas de língua alemã, apesar de também ter escrito em francês e é um dos meus autores favoritos; o excerto desta carta a um jovem poeta data de 14 de Maio de 1904:
"Os homens têm, para todas as coisas, soluções fáceis e convencionais, as mais fáceis das soluções fáceis. Contudo, é evidente que se deve preferir sempre o difícil: tudo o que vive lá cabe. Cada ser se desenvolve e se defende a seu modo e tira de si próprio, a todo o custo e contra todos os obstáculos, essa forma única que é a sua. Sabemos muito poucas coisas, mas a certeza de que devemos sempre preferir o difícil não nos deve nunca abandonar. É bom estar só, porque a solidão é difícil. Se uma coisa é difícil, razão mais forte para a desejar. Amar também é bom porque o amor é difícil. O amor de um ser humano por outro é talvez a experiência mais difícil para cada um de nós, o mais alto testemunho de nós próprios, a obra suprema em face da qual todas as outras são apenas preparações. É por isso que os seres muito novos, novos em tudo, não sabem amar e precisam de aprender. Com todas as forças do seu ser, concentradas no coração que bate ansioso e solitário, aprendem a amar. Toda a aprendizagem é um tempo de clausura. Assim, para o que ama, durante muito tempo e até ao largo da vida, o amor é apenas solidão, solidão cada vez mais intensa e mais profunda. O amor não consiste nisto de um ser se entregar, se unir a outro logo que se dá o encontro. (Que seria a união de dois seres ainda imprecisos, inacabados, dependentes?). O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes. Quando o amor surge, os novos apenas deviam ver nele o dever de se trabalharem a si próprios. A faculdade de nos perdermos noutro ser, de nos darmos a outro ser, todas as formas de união, ainda não são para eles. Primeiro, é preciso amealhar muito tempo, acumular um tesoiro".

in Cartas a um jovem poeta, (tradução de Fernanda de Castro), Ed. Contexto, Lisboa 1994, p-68

Eco #1

Vejam este video intitulado Eco de Vasco Araújo baseado em “ Diálogos com Luéco” de Cesare Pavese.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Dia-a-dia #1

Ontem encontrei um amigo que já não via há uns bons kilos atrás e foi engraçado, deu-me muitos elogios, que eu estava com bom aspecto e etc… entrou mesmo em pormenor, comentando que o meu namorado devia ser óptimo. Eu ainda lhe perguntei, qual namorado? Ele todo simpático argumentou que só podia ser maravilhoso porque eu estava com uma pele lindíssima. Não lhe respondi, porque não queria ser indelicada, mas de facto a minha pele melhorou bastante desde que coloquei os patins no último indivíduo egoísta e perturbado que achava que me podia subjugar. É engraçado observar as projecções que os outros fazem em nós, o amigo de ontem achou que o meu bom aspecto derivava de ser uma bem fodida, engana-se, sou livre, estou muito ocupada a fazer o que acredito e gosto, tenho a sorte de ter outras paixões na vida. Desde pequenas que nos incutem que só somos alguma coisa, enquanto mulheres, com um homem, ou já agora dois, porque temos duas mamas, um homem e um bebé. São histórias muito lindas, não coloco a questão totalmente de parte, mas de facto o romantismo só origina possessão e dependência nas relações humanas, eu tenho mamas, mas não sou estúpida. Há muito que sei que nunca estarei satisfeita, nem completa e não acredito que um homem ou um filho resolvam isso. Acredito sim que ainda encontrarei o guardião da minha solidão, alguém com quem possa relacionar-me de um modo harmonioso e mais maduro, foi o Rilke que me ensinou isso. E quanto a indivíduos egoístas e perturbados que têm a mania de me chatearem em situações de crise, tenho bons amigos que não me deixam cair na esparrela outra vez, é uma sorte.

Cultura Lunar


O sono da Lua, técnica mista s/papel, 21x30cm, 2008

A gata Lua tem imensa cultura artística: ouve em silêncio música que a maior parte dos humanos não aguenta – os cães fazem imenso barulho e as pessoas também. Antigamente, ela atacava e mordia textos filosóficos – são bons para limpar o organismo; agora, se me distraio, vai directa ao que escrevo. A Lua também gosta de pintura sobre madeira – é boa para afiar as unhas; ultimamente, dorme sobre uma escultura que estou a modelar – trata-se de um diálogo com Camões. Ontem encontrei-a lá refastelada, a ouvir o Richter e o Rotropovic a interpretarem as sonatas para piano e violoncelo de Beethoven.

Publicado na antologia Contos de Algibeira (organização de Laís Chaffe), Ed. Casa Verde, Porto Alegre, Brasil 2007 e postado no Insónia a 6/2/2008, a imagem foi postada a 4/3/2008.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Leituras #2


Continuo de volta da investigação da Shere Hite sobre a família:

“Nas discussões sobre homens por vezes usa-se a expressão «identidade afectiva», mas quando se fala das mulheres usa-se constantemente. Por acaso os homens não têm identidade emocional? Sim, mas o espectro de emoções assinalado nos homens difere bastante do espectro assinalado nas mulheres. Por exemplo, incentiva-se os homens a «zangarem-se» e a serem «activos», enquanto que as mulheres devem ser «carinhosas» e «passivas».
O treino que seguem para aprender a identidade «masculina» é bastante duro, como manifestam amplamente neste relatório mais adiante, e apaga-lhes o colorido afectivo «natural», todo o seu espectro de sentimentos. Esta «socialização» que lhes é imposta talvez e inclusive seja mais dura e mais mordaz que nas raparigas, porque retira-lhes todas as emoções e marginaliza-os de metade da humanidade. É pior o que sucede às raparigas, ao proibirem-nas de actuarem e zangarem-se? Ambas as situações são terríveis. Mas «pelo menos» às raparigas não se lhes pedem que «abandonem» o seu pai nem que mostrem hostilidade e desprezo por ele, ainda que as pressionem para que sintam esse desprezo pela sua mãe.
Os rapazes que vivem este processo de privação afectiva consideram-no extremamente doloroso, mas mais tarde “esquecem” e admiram o sistema porque o consideram seu, porque os beneficia. No entanto, beneficia-os realmente ou é o sofrimento que lhes custou submeterem-se a ele que os uniu ao sistema?
Frequentemente diz-se que «é a mulher que cria os filhos e se são demasiado ‘machistas’ é culpa dela», mas não é isso que aparece na minha investigação. São as observações e pressões dos outros rapazes e dos homens, inclusive do próprio pai, que durante esses anos os forçam com dor a que «adoptem uma nova forma».

A maioria dos homens e dos rapazes dizem que gozavam com eles (ou eles faziam caso dos outros) com frases como: «Não sejas maricas» ou «És um filho da mamã, vais fazer queixinhas à tua mãe?», e diziam-lhes: «Comporta-te como um homem», «demonstra que és um homem verdadeiro», «O que se passa? Levanta-te e reage como um homem».


In Shere Hite, Informe Hite sobre la familia, Ed. Paidos, Barcelona y Buenos Aires, 1995, p-215 (tradução caseira)

Aqui podem ler a prespectiva da autora sobre a sexualidade masculina num pequeno artigo intitulado The Uncelebrated Beauty of Men's Sexuality, têm de clicar na secção dos artigos do site.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Textos insones #2




Ruas estreitas

Cidadelas fechadas, impenetráveis, quase assustadoras
Josiane Girou

Sempre gostei de deambular nas ruas das cidades, procurando descobrir os mistérios que guardam as suas casas, os seus habitantes, mesmo quando se trata de cidades que conheço bem. Os espaços de algumas cidades povoam a minha memória em rastros dos meus passos deambulando por ruas impenetráveis, por vezes assustadoras, onde vislumbrei uma janela diferente ou procurei um atalho, através de um mapa na minha mão, quando em viagem à descoberta de novos caminhos. Conheço cidades com ruas secundárias e habitações silenciosas, como as cidades alemãs e as cidades no Canadá; cidades caóticas e agitadas, como o Cairo ou Roma, com trânsito infernal e habitantes desorganizados; cidades que são portos, pontos de passagem junto a um rio ou mar, como Lisboa onde habito há vinte anos, ou Amesterdão com as suas janelas abertas, cidade composta por canais e pontes; ou ainda Halifax no Canadá, situada numa península do outro lado do Atlântico, que se chama Nova Scotia, onde vivi durante seis meses. Halifax é um porto com uma ponte semelhante à ponte vermelha sobre o Tejo, só que pintada de verde. Existem também cidades que não são reais, como Veneza, com ruas de água e pontes magníficas, onde se mergulha numa espécie de sonho acordado, com o perigo de nos envolvermos numa passividade estranha, onde sentimos que podemos ficar ali eternamente num estado contemplativo, numa espécie de purgatório; ou como Évora, bela e amarga em simultâneo, cheirando a terra molhada, o ossuário trágico de Portugal, com paredes brancas na fachada e interiores sombrios. Évora, aparentemente branca, é uma cidade negra e muralhada, onde as pedras funcionam como uma espécie de mortalha para os seus habitantes, almas penadas e em suspensão num centro histórico, deambulando num labirinto formado por ruas concêntricas demasiado estreitas e calcetadas, em torno de um templo romano que já foi um matadouro, junto de um antigo palácio da inquisição, transformado posteriormente num instituto universitário de jesuítas, que originou a actual universidade, situado mesmo ao lado da magnifica Catedral romanico-gótica, com as suas imponentes torres e pináculos, representando o único arcebispado nas terras do além Tejo.A curiosidade em sentir uma cidade, percorrendo as suas ruas com os meus pés ficou-me das calçadas de Évora, que repetidamente me deram cabo das solas dos sapatos, onde o branco impenetrável das paredes nas casas e muros altos me levaram a imaginar o interior escondido e habitado no seu coração, que raramente se prolonga para a rua; por vezes abre-se uma janela e alguém espreita ou as crianças brincam no Verão fora de portas, acompanhando o som dos pássaros ao entardecer, junto às portadas das janelas entreabertas e vigilantes; na moraria de Évora, bairro entre muralhas fernandinas, outrora povoado por mouros, ao fim da tarde na adolescência percorri calçadas labirínticas, para me encontrar e visitar as minhas amigas mais antigas, que habitavam aquelas ruas estreitas da cidade. Eu partia do centro mais inveterado, vivia dentro da muralha romana, descia as arcadas da Rua D. Isabel, passando pela porta da muralha, que sempre me assustou, não sei porquê, ali debaixo ainda existe um pedaço de estrada romana, com pedras mais largas e escorregadias. Fora desta porta descia em direcção à rua de Aviz ou virava à esquerda, para a Rua do Menino Jesus, em direcção à travessa do Harpa, penetrando assim no interior das ruas estreitas do bairro, onde os carros quase não conseguem circular. No verão os miúdos jogavam à bola naquelas calçadas, as janelas mostravam velhos televisores a preto e branco com o telejornal e ao fundo da rua do menino Jesus, na esquina com a Rua das Fontes havia uma casa de prostitutas, alguma delas estavam à janela a ver quem passava. O som dos pássaros ao entardecer provoca-me sempre uma enorme nostalgia, remete-me para aquele labirinto de pedras escorregadias, a cidade onde o tempo foi suspenso em forma de pedra e cal, com morbidez. Os meus passos nas calçadas de Évora é algo que oiço actualmente muito ao longe, a saudade é um sentimento português que se entranha nos ossos e Évora tem lá aquela capela, a dos ossos; certo é que amamos mais quando estamos distantes, aprende-se muito com as saudades; a saudade é um luto, um cortinado roxo que nos cobre o coração, como cantam os açorianos, que vivem rodeados de água; Évora é o esqueleto da cultura portuguesa, um local onde o tempo foi suspenso em ruas estreitas, concêntricas e entre muralhas em forma de ossuário; e na entrada da célebre capela está escrito o seu cartão de visita: nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.
Texto postado no Insónia a 25/1/2006, a ilustração foi postada a 18/7/2006