O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dia-a-dia #224





Viva o cante alentejano património imaterial da humanidade

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Qué ruido tan triste

Qué ruido tan triste el que hacen dos cuerpos
cuando se aman,
parece como el viento que se mece en otoño
sobre adolescentes mutilados,
mientras las manos llueven,
manos ligeras, manos egoístas, manos obscenas,
cataratas de manos que fueron un día
flores en el jardín de un diminuto bolsillo.

Las flores son arena y los niños son hojas,
y su leve ruido es amable al oído
cuando ríen, cuando aman, cuando besan,
cuando besan el fondo
de un hombre joven y cansado
porque antaño soñó mucho día y noche.

Mas los niños no saben,
 ni tampoco las manos llueven como dicen;
así el hombre, cansado de estar solo con sus sueños,
invoca los bolsillos que abandonan arena,
rena de las flores,
para que un día decoren su semblante de muerto.

Luis Cernuda (Sevilha, 21 de setembro de 1902, Cidade do México, 5 de Novembro de 1963)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Dia-a-dia #223

«Acabo de ouvir o necrófilo e insensato grito de "Viva a morte!". Isto parece-me o mesmo que "Morte à Vida". E eu, que passei a minha vida compondo frases paradoxais que despertavam a ira dos que não as compreendiam, devo dizer, como especialista na matéria, que esta me parece ridícula e repelente.» Miguel de Unamuno no discurso proferido a 12 de outubro de 1936, durante a abertura do ano lectivo na Universidade Salamanca.

domingo, 27 de julho de 2014

Dia-a-dia #222

Tomar banho na praia da Adraga este ano é diferente: para além da areia há muitas pedras a rolarem com o mar. Mergulhei e senti-as em constante movimento debaixo dos pés. E o som das ondas é também acompanhado pela voz das pedras.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Dia-a-dia #221

E passei pela Praia Grande hoje de manhã e agora tem rochas no meio do areal, que foi muito desbastado no Inverno. O mar ao longe estava lindo de bravo, mete mesmo respeitinho.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Dia-a-dia #220

E levei a gata Lua hoje de manhã ao hospital veterinário, por causa da ferida que tem no nariz, não é grave, levou as vacinas mais cedo e vai andar de capeline durante uma semana. Ela detesta. Na saída do hospital encontrei duas idosas excêntricas, cada uma com o seu gato em malas confortáveis e chiques para felinos, que de imediato meteram conversa. A Lua respondeu-lhes e uma das senhoras disse logo que sabia falar siamês, persa etc... era a que trazia um gato jeitoso dentro de uma mala com rodinhas, com uma rede por onde o podíamos ver bem instalado. Perguntei-lhe quantos gatos tem, ela respondeu-me que só se confessava ao padre, mas que aquele era o mais velho, e o mais novo estava ali com a amiga. Era um pequeno rabino dentro de uma mala cor-de-rosa do seu tamanho, e se podia ver através da rede preta. E tinha-o encontrado há 15 dias, olharam um para o outro e apaixonaram-se. Depois lá entraram para o veterinário. Eu e a gata Lua saímos de lá muito bem dispostas.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

terça-feira, 17 de junho de 2014

Dia-adia #219

Vou perguntar à Lua onde anda o gato pingado, porque já Baudelaire considerava os poetas modernos como cangalheiros da cidade.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

segunda-feira, 19 de maio de 2014

poema #122

Perguntaram-me porque não escreves.

Não sei.
Fiquei assim desde que cheguei da guerra.
Prefiro estar no cemitério, por entre as campas de familiares
E amigos.
Assim, estou verdadeiramente só.
E, se não escrevo,
É porque à minha volta tudo morreu

Menos essa flor, aí em baixo, que parece despontar na solidão.

Estranho, nem tinha reparado.

Rui Pedro Gonçalves - "Um rapaz à procura da sua idade". Coimbra: do lado esquerdo, 2014

quinta-feira, 15 de maio de 2014

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Dia-a-dia #218

Hoje senti-me uma cobaia na secção de oftalmologia do Hospital de Sta Maria: isto de ter um olho ligeiramente virado para o infinito e o outro para a merda tem que se lhe diga. Estiveram de volta de mim dois médicos a fazerem exames e divertiam-se bastante, eu não percebia nada dos termos técnicos, mas achei uma delícia o entusiasmo deles a classificarem as coisas. Da próxima vez aponto os termos, porque eram mesmo fofinhos. Seguem-se sessões de fisioterapia e deram-me exercícios para fazer em casa. A única coisa que entendi é que o olho direito é preguiçoso, valha-me o esquerdo então.

Natureza-Morta Social #98


quarta-feira, 7 de maio de 2014

terça-feira, 6 de maio de 2014

Dia-a-dia #217

Love is the message: estava escrito nas costas da camisola da rapariga que agora trabalha no café. Sentei-me com o Nuno na esplanada como é habitual, antes de irmos para a biblioteca da Gulbenkian. Ela tratou-nos por meninos, que querida. Comentei que seria por sermos habitués, mas afinal, foi à mesa do lado e tratou toda a gente por "meninos". Lá dentro, quando estávamos a pagar, as moedas saltaram-lhe das mãos, pareciam ter vida. Disse-lhe logo que alguém lhe queria falar. Ela a sorrir respondeu: mais ainda do que falam aqui na esplanada a toda a hora? Disse-lhe que ia receber uma mensagem importante. Ela não estava convencida, achou que só se fosse de muito longe. Acho que hoje vai receber uma mensagem de amor.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Dia-a-dia #216

Não estava bem a entender as intenções da gata Lua em relação ao cravo vermelho, que me ofereceram no dia 25, porque só andava a morder o caule. Entretanto, conseguiu derrubar a jarra onde ele habitava, que se estatelou no chão. O cravo sobreviveu, afinal ela não gostava era da jarra em forma de estrela azul.

domingo, 27 de abril de 2014

Dia-a-dia #215





LIBERTAD = memórias de infância em terras de Espanha

Dia-a-dia #214

Apanhei a gata Lua a morder o único cravo que me ofereceram nos 40 anos do 25 de Abril. Definitivamente, é uma gata iconoclasta.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dia-a-dia# 213




Este retrato é de 1974. Quando conheço um compatriota que nasceu depois do 25 de Abril costumo dizer: tens a sorte de ser filho da liberdade. Eu sou de uma geração de transição, que viveu e assistiu a muitas transformações sociais neste país e no mundo. Porque ser português é ser do mundo também. O meu primeiro partido foi o da pata da galinha. O meu irmão arranjou-me depois um cartaz do MDP-CDE, que um primo rasgou. Só mais tarde percebi que a pata da galinha era o símbolo dos pacifistas. Também só nesta altura é que tive partido, porque não me dei bem com essas coisas, nem com os padres e nunca me interessei por clubes de futebol ou outros clubes. Passaram 40 anos, o presente está agreste desde que começou a crise, sobretudo porque sinto que o futuro, agora e mais do que nunca é uma incógnita. Mas se calhar o meu rumo foi traçado quando escolhi o partido da pata da galinha: o pacifismo. Viver em estado contemplativo tem sido importante. Nunca perdi a curiosidade de ver e conhecer o mundo.

Natureza-Morta Social #96


domingo, 20 de abril de 2014

Dia-a-dia #211

Que sorte, cheguei a Lisboa antes de estar tudo histérico com o futebol ou benfica ou rapazes atrás de uma bola que podiam ter outros cortes de cabelo, ou seja lá o que aconteceu!

terça-feira, 15 de abril de 2014

Natureza-Morta Social #95


Dia-a-dia #210

Aconteceu já alguns anos: tive o azar de apanhar um táxi e era Abril, tal como agora. Entrei e lá dentro o homem máquina já tinha uma certa idade, estava de poucas falas e ouvia a rádio renascença. Nisto passamos por um edifício que tinha a bandeira do arco-íris à porta e começou a cassete: a menina sabe que bandeira é aquela? Fiz-me de parva. O homem máquina desatou aos berros: aquilo é a bandeira dos degenerados, o Salazar é que fazia bem, mandava-os matar a todos! Na rádio orações. Mandei-o parar, paguei, saí e desejei-lhe uma santa Páscoa.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

terça-feira, 1 de abril de 2014

Dia-a-dia #209

Óculos novos comprados na farmácia, a médica do Hospital Sta Maria disse que não precisava de fazer novos, é muito mais barato. Vejo pior ao perto o que é normal, mas esta coisa de desfocar e ficar com um olho virado para a merda e outro para o infinito afinal é ao longe e cansa imenso. Anda tudo ao contrário com os meus olhos, e isto de desfocar é um massacre. Mas vou voltar a fazer fisioterapia para me defender, agora em Sta Maria. Não é peta, com os óculos novos mesmo assim está tudo muito nítido.

sexta-feira, 28 de março de 2014

quinta-feira, 27 de março de 2014

domingo, 23 de março de 2014

Dia-a-Dia #208


 
O 2ºFestival Mal Dito está de parabéns: estive em Coimbra dia 21 e 22, os eventos foram belíssimos e bem organizados. Tudo começou no ano passado com o pequeno grupo de amigos que se juntou em torno da poesia e organizaram o Festival em tempo record, sem apoios institucionais. Este ano manteve-se o espírito, onde a partilha é central e mais uma vez houve público em todos os eventos a que assisti: lançamentos de livros, apresentações e leituras em vários sítios da cidade. Destaco ontem o salão Brasil cheio para o debate com o mote " A música, antes de qualquer coisa", que juntou Adolfo Luxúria Canibal , Bruno Béu e Francisco Amaral em torno da relação entre poesia e música,  moderado pelo professor Osvaldo Silvestre. Um dos mais  belos momento do festival foi dia 21, no café Sta Cruz à noite: Isaque Ferreira não leu apenas, ele respirou, viveu e encarnou POESIA. Momento inesquecível foi sem dúvida também dia 21, na Livraria Miguel de Carvalho, o lançamento de "Ranço" de Jorge Aguiar Oliveira, publicado pela Companhia das Ilhas: o autor referiu que a sua poesia é autobiográfica e não tem rodriguinhos. E leu o poema "O inútil pirilau de Vanetti Greta" em homenagem a um travesti que trabalhou na associação Abraço, onde o conheceu pessoalmente. O poema foi escrito após saber da sua morte com SIDA. A leitura do autor cortou-me a respiração ou deixou-me sem palavras.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Natureza-Morta Social #91


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
O conceito “natureza-morta” existe nas línguas latinas, enquanto nas línguas germânicas e anglo-saxónica, “still-life” se relaciona com vida: a origem de “still” é “stend” que significa estar parado. O poeta Daniel Falb confessou-me recentemente que ao utilizar o conceito “social still-life” na sua poesia, relacionava-se com o facto de não querer escrever poesia narrativa, mas procurar escrever “atemporais naturezas-mortas”, que na sua língua remetem mais para instante vivo. A meu ver, a interpretação que desenvolvi em torno do tema resultou em imagens que se aproximam mais do sentido “ainda vivo social”, porque derivam sobretudo de uma reflexão sobre elementos díspares da actualidade, onde questiono a tradição da cultura erudita ocidental, ao desconstruir o género “natureza-morta” através da colagem e da pintura, confrontando-a com outros elementos de proveniências várias, num processo de metaforização, para interpelar o mundo onde habitamos e questionar o que somos enquanto espécie humana.

 

terça-feira, 11 de março de 2014

Dia-a-Dia #207

Quando o sol atravessa um copo de vinho branco, a sombra reflete-se transparente e luminosa. O branco é a luz do vinho ou o vinho diurno. Conheço brancos secos e florais, de uma juvenil alegria inesperada, mas só os aprecio muito frescos em pleno verão. Os brancos frutados quando são muito bons também refrescam. Dispenso todos os brancos ácidos, nunca tive estômago para o assunto. Aprecio sim a profundidade de uma colheita tardia, com o travo das uvas colhidas quase em passa ou vinho doce do gelo. Numa tarde de verão provei um fresco rosé, com a alegria dum refresco e só depois lhe senti a graduação tinta. Não confio em rosés, também podem ter sombras transparentes e luminosas, mas em corpos crepusculares.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Poema #121


terça-feira, 4 de março de 2014

Dia-a-Dia #206


 
 
As “Vanitas” surgiram como tema do género “natureza-morta” na Europa do Norte e Países Baixos nos séculos XVI e XVII. A palavra em latim significa “vacuidade, futilidade”, sendo utilizada como sinónimo de vaidade; são pinturas que se referem à insignificância da vida terrena e ao carácter efémero da vaidade. As “Vanitas” são compostas geralmente por caveiras que representam a morte, associadas a outros elementos presentes nas “naturezas-mortas”, como instrumentos musicais, frutas, flores e borboletas, simbolizando a natureza efémera da vida. Por vezes também surgem representadas frutas apodrecidas simbolizando a decadência, relógios e ampulhetas representando a brevidade da vida ou um limão descascado que como a vida, pode ser atrativo a quem olha, mas amargo para quem experimenta. Pintura de Pieter Claesz (1590 - 1661) – “Vanitas com violino e bola de vidro”. Germanisches Nationalmuseum, Nuremberg.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Dia-a-dia #205


A “natureza-morta” é um género que surgiu com a invenção da pintura a óleo no século XV. Na idade média não aparecia ainda como género autónomo, apesar de nos manuscritos medievais góticos, surgirem representações de “naturezas-mortas”. O conceito “natureza-morta” existe nas línguas latinas, em quanto nas línguas germânicas e anglo-saxónica, “still-life” se relaciona com vida: a origem de “still” é “stend” que significa estar parado. Em Espanha foi também utilizado o termo “Bodegó” nas representações de alimentos, que vem do espanhol “bodegon”, que significa taberna. “Cesto de Frutas” (1595-96) de Caravaggio foi a primeira pintura autónoma do género “natureza-morta”: trata-se de um “tromp’oil” representando um cesto de frutas, como as que surgiram na época, onde esta técnica é utilizada para criar uma transição entre o espaço do quadro e o observador. Durante o barroco, este género representou objectos preciosos, loiças, frutas descascadas, com o instantâneo, onde uma situação ganha uma dimensão infinita através da pintura. Na Europa do Norte do século XVII, o género desenvolveu-se representando a abundância, apesar de no geral ser visto como menor pelas academias oficiais: surgiram as “naturezas com mesa posta”, representações associadas à situação social da classe média, que estava ligada ao comércio e era mais rica que nos países latinos. Muitas “naturezas-mortas” tinham um sentido moral acentuado, usando as representações dos frutos e flores em termos simbólicos, e os insectos apelando à efemeridade humana. A representação de casulos, lagartas e borboletas simbolizavam o ciclo de vida e de morte. Tema também frequente nas “naturezas-mortas” são as “Vanitas”, que se referem à vaidade, tratando-se de representações onde contrasta o corporal e o espiritual, representações com a presença de uma caveira e outros objectos presentes nas “naturezas-mortas”.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Poema #120

Raio de Luz

Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.

Burgueses somos nós todos
ó literatos.
Burgueses somos nós todos
ratos e gatos.

Burgueses somos nós todos
por nossas mãos.
Burgueses somos nós todos
que horror irmãos.

Burgueses somos nós todos
ou ainda menos.
Burgueses somos nós todos
desde pequenos.

Mário Cesariny – "Nobilíssima Visão "(1945-46)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Poema #119

CRUELDADE BABY DÓ

não esquecer
                     todos
os assassinos
criminosos ladrões traficantes
vigaristas manipuladores
torturadores pederastas
néscios viscosos invasores
e etc e tal foram... crianças
que segundo uns quantos
cruéis trapaceiros
dizem ser
                  o melhor da vida

Jorge Aguiar Oliveira - "Ranço" (Companhia das Ilhas, lda), 2014. p.34.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Dia-a-dia #204

1ª Sinfonia de Mahler: hoje em versão de câmara na reabertura do grande auditório da Gulbenkian. Nada a dizer da interpretação rigorosa, escutei com atenção o depuramento, mas senti falta do corpo sinfónico, sobretudo na última parte. Ia preparada para a versão de câmara, foi novo em relação ao que conheço, mas prefiro os contrastes da bipolaridade ou tripolaridade sonora, que só uma máquina instrumental a trabalhar a todo o vapor pode dar numa sinfonia de Mahler. Por alguma razão ele foi maestro, apesar de também compor outras peças mais intimistas. Limpeza sim, mas sou uma preconceituosa. Prefiro as versões sinfónicas, porque aquilo é bom quando na calma surge a tempestade, quando o lirismo é alternado com o mórbido, quando se sente o cómico-trágico. Assim sem contrastes foi higiénico e soube-me a pouco.
 
 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Dia-a-dia #203

E hoje sonhei que estava a visitar o atelier de um escultor e quem me guiava por lá era uma rapariga que conheço (que é pianista, não tem nada a ver com as artes visuais). Ora bem, aquilo eram moldes de gesso por todo o lado, estava sujo como são estes espaços, e ela mostrava-me os desenhos do artista, interessantes labirintos, construidos linearmente a preto e branco. O pior era a escultura: estatuária tradicional de gosto duvidoso, mas de repente as peças começaram a mover-se, e a pianista explicou-me que os plintos tinham motores. Escusado será dizer-vos que acordei muito bem disposta com a imagem de uma estátua a mover-se a motor na carola ahahahahahahahahhaha

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

Dia-a-dia #200

E estava aqui tão sossegada depois de massacrar o meu sobrinho Vasco, durante horas com Geometria Descritiva, quando comecei a ouvir uma pandeireta na rua, acompanhando vozes desalinhadas. Pensei: deve andar por ai um bando de pinguins a arrotar. Mas não, abri a janela e deparei-me com um grupo de idosos com guitarras a cantarem as janeiras. Na rua ninguém lhes estava a ligar, mas achei-os amorosos, apesar do som. Traziam as letras escritas em papeis nas mãos, bem que olhavam para lá, mas com tão pouca luz, acho que não se estavam a orientar muito, mas faz parte. Desejei-lhes um bom ano, agradeceram e cantaram um pouquinho mais para a minha janela - que está com o estores avariados. A gata Lua é que não gostou nada, mal abri a janela, pisgou-se. Ainda a tentei apanhar para a levar lá, mas ela estava em estado de choque e fugiu novamente. Continua escondida debaixo do cadeirão, apesar de tudo estar outra vez tranquilo.