Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Poema #24

PASTORA DESCRITA

Eu, pastora, que apascento
estrelas da madrugada
pelas campinas do vento,
fui falar ao eco antigo
a cuja voz fui criada,
e que supus meu amigo

“ Sou sempre a de antigamente”,
murmurei-lhe, enternecida.
E ele anunciou longe: “ Mente!”

Mas era a minha verdade
e, vendo-me assim descrita,
padeci com a falsidade.

“ Eco amigo, eu não te iludo:
pastora sou destes prados
onde se confunde tudo;

mas sou de ontem e de agora,
dentro dos despedaçados
instantes de nenhuma hora…

A amargura não me aumentes…
E o eco antigo, infiel e exato,
repetiu-me perto:” Mentes…”

Vergada em móveis espelhos
vi nas águas meu retrato,
chorei sobre mim, de joelhos.

Mas o gado que pascia
pelas colinas da aurora,
mascando as margens do dia,

veio a mim sem que o esperasse
lambeu-lhe os olhos de outrora,
- reconheceu a minha face.

Cecília Meireles

Eco #3


Encontrei um texto meu num blog intitulado ecos do tempo, ironias do destino.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Diário gráfico #34






Últimas páginas do diário que fiz em 1994 durante a minha estadia em Halifax (Canadá), para ver em promenor clique nas imagens.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Poema #23



SEIS POEMAS PARA UMA MORTE


1

Que importa o que não temos
quando a vida leva tudo o que nos dá

e a morte restitui-nos ao silêncio.

2

Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão

e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse.

3

Na noite clara da tua morte Pai
parto de vez para a margem da brandura
Levo nos olhos esta luz de dor
feixes opacos medas de cansaço
(como as que carregavas)
seara que nasce no sonho condenada
quando na alma a chama esmoreceu
Chegou-me a mim: já nada perdura
Querias saber o que era aquele nada
contra o qual lutava – sou eu
vazio de ti. Poupámos o Futuro.

4

Nem umas palavras de despedida
nem “adeus”
Será que depois nos encontramos
na terra linda onde são as coisas que não são
sem medo do fim?
Já moras, Pai, com o teu Cristo
o Cristo que nos salvou a todos
por termos alguém como tu.
Nunca te disse bem quanto te amava
como te amo muito dentro de mim
na terra linda onde são as coisas que não são
com tanto medo de as perder.
Estar a fazer a barba, cair
e partir para o outro lado
sem dizer tudo o que é preciso.
Ou como tu ficar assim à espera
suspenso de nada
à porta de Deus como um pedinte
pedinte de Deus
que só nos pediste que fôssemos melhores
e talvez por isso nos dás ainda mais uns minutos
da tua eternidade.
Vai agora, parte por favor
vai viver com as estrelas e com a alma das flores.
Sei que todos os dias continuarás a madrugar
para colher os odores mais puros.
Já não são precisos sacrifícios
aí é tudo dado num natal perpétuo e permanente.
Até nós te nos vamos dar
como tu te nos deste, como te entregaste cada dia
de manhã à noite

a Mãe
a Paula
o Ricardo
e eu
(por outra ordem espero que não esta
que eu não aguento mais)
vamos voltar a tocar-te o cabelo
o cabelo mais lindo que conheço
e a beijar-te
(como é possível que beijos tão a medo
como os teus quisessem sempre dizer tanto?).

E olha que se eu aí chegar
a essa terra que não mereço
é mesmo só por ti
é para te ver e ficar espantado
como só nos espantamos com os anjos.
Adeus Pai
tem calma.
Eu pensarei em ti todos os dias.

5

Tinhas-nos a nós
como nos querias
não como nós somos

Partiste
olhando o ar
pensando o Vago
escutando o Ser
na boca o Fluido
a essência do Sangue
nós
em tudo isso nós
o imenso Amor

Em que pensaste, Pai, nessa semana
em que soubeste tudo isso
que dizias há tanto
e que os homens procuram?

O teu olhar tão calmo
as tuas mãos
só diziam Amor
e a respiração era a de que ele é feito:
com a Mãe
sabe Deus e o vosso Amor quando
connosco
dia a dia e a desoras
com tanta gente
que eu nem adivinho
na mudez superior de quem é grande

Toda a vida
só fizeste Amor

Perdeste a Palavra e o Movimento
usa o meu corpo se isso for possível
Nunca será a mesma coisa
mas vou portar-me bem
(a gente cá sabe o que isto quer dizer)

Há que roubar as flores ao abandono

6

Guardo o brilho baço dos teus olhos
de seres inteiro em cada coisa
o Ritual dos dias conhecidos
e a alegria desentranhada
do fundo da eternidade
que é a bruma de Deus.

Guardo a entrega funda de saber
que a revolta não tem princípio nem fim
e aquela altivez tão especial inapercebida
que pode haver na submissão
de estarmos à frente dos homens e do tempo
viver como quem morre cada dia

e estarmos mortos como quem está vivo.

MIGUEL MARTINS
in «Seis poemas para uma morte», Fábrica das Letras

Encontrado aqui


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Nova casa #6

Dia-a-dia #15


Necessito com urgência de férias, ir à praia e não me preocupar com nada, sair de onde estou, desligar o canal e ouvir o mar.

domingo, 26 de julho de 2009

No sitemeter #3



Eco
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Alguém veio parar a esta casa no tempo procurando limpar chão de tijoleira vermelha e encontrou eco

sábado, 25 de julho de 2009

Diário gráfico #33






Mais páginas do diário que fiz em 1994 durante a minha estadia em Halifax (Canadá), para ver em promenor clique nas imagens.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Nova casa#4

Sonhei que tinha a tarefa de fazer obras em duas casas junto à praia, que pertenciam a dois conhecidos escritores que são amigos de infância (não digo os nomes, a coisa já é absurda por si só). Nessa tarefa, estava a trabalhar com a Sara Rocio, as casas eram germinadas, iguais e estavam em muito mau estado devido ao abandono. Entro numa delas com a Sara e verificamos que o interior está todo pintado com grafitis, comento que o chão em tijoleira tem de ser tratado com óleo de linhaça e vou verificando outros pormenores. Entretanto, lá fora existe uma piscina que é comum às duas casas, onde encontro a Sara muito atarefada a lavar uma série de esculturas de animais pertencentes às duas casas, muito coloridas e feitas em polyester. Quando acordei telefonei-lhe e fartámo-nos de rir, ela comentou que nem conseguia interpretar.

Diário gráfico #32




Mais páginas do diário que fiz em 1994 durante a minha estadia em Halifax (Canadá), para ver em promenor clique nas imagens.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Portefólio #6

Reparei hoje que desde o final do mês de Maio não acrescento nada à organização do meu portefólio que aqui estava a decorrer – tinha ficado no período que antecedeu a participação no intercâmbio entre o Ar.Co e Nascad, uma escola no Canadá em Halifax, onde estive durante seis meses no ano de 1994. Foi uma experiência enriquecedora em todos os sentidos, as imagens das páginas do diário que lá produzi e aqui tenho colocado comprovam-no. A minha ideia era desenvolver o trabalho de fotografia que estava a fazer por cá, mas com outros meios tecnológicos: e assim foi, deparei-me com uma escola que estava aberta 24h, onde tinha um pequeno espaço para trabalhar e podia fazer fotogramas a cores, nuns laboratórios excelentes, que se requisitavam com alguma antecedência, mas onde existiam técnicos que nos apoiavam. Tive também uma iniciação ao mundo dos computadores, frequentei aulas onde aprendi a funcionar num Machintosh, que me foram muito úteis, apesar de não me ter tornado uma adepta no assunto. Bom, Halifax tem um lado de filme de ficção cientifica na minha biografia, mas também conheci e interagi com pessoas muito interessantes – estudantes, professores da escola e não só, conheci um português nascido no Canadá, casado com uma grega, que tinha um café em frente à escola e com eles fui a uma festa de emigrantes portugueses indescritível: onde assisti a uma banda de Montreal a interpretar a “ Tia Anica do Loulé” em francês autocne; e as minhas colegas logo no início convidaram-me a participar numa exposição colectiva de mulheres na galeria da escola intitulada “ Securing spaces”. A solidariedade feminina, a consciência de que a liberdade de expressão das mulheres é uma conquista recente e que existe muito por fazer nesse sentido, foi algo adquiri por lá. Participei na exposição com um fotograma em cybachrome com 75x160m onde se lia um texto de Rainer Maria Rilke, surpreendentemente feminista datando de 1904, com uma visão optimista em relação ao papel das mulheres no futuro.

Nova casa#3

terça-feira, 21 de julho de 2009

Dia-a-dia #14

A gata Lua deixou de se interessar por jornais ou revistas culturais e já nem liga aos meus escritos ou desenhos, deixou de os morder. Ultimamente, prefere o sabor das facturas da EDP, da água ou do gás, tive de as guardar em local seguro. Junto à mesinha de cabeceira está uma pilha de livros de poesia, nem lhes liga; deixou também de brincar com bolinhas de pano e apenas se diverte com uma tira de plástico que pertencia a uma embalagem de yogurt, corre com ela na boca de um lado para o outro, salta imenso, até parece um macaco. Ou por vezes vem ter comigo com tira na boca, depois larga-a ao pé de mim, fica à espera que eu a atire e vai buscá-la como um cão, entregando-a outra vez. Desconfio que anda com uma crise de identidade, ou então está para aqui a absorver qualquer coisa nova da casa.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Poema #22

ANEL DA PAZ

Passei as portas do frio
Pelas portas da minha amargura
Para vir beijar teus lábios

Cidade reduzida ao nosso quarto
Onde a absurda maré do mal
Deixa uma espuma tranquilizante

Anel de paz só te tenho a ti
Ensinas-me e volto a saber
O que é um ser humano e a desistir

De saber se tenho semelhantes.

Paul Éluard (tradução de Maria Gabriela Llansol)

sábado, 18 de julho de 2009

Artes #5



Évora vista pelo pintor Dórdio Gomes

bom fim de semana

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nova casa#2

Sonhei que regressava à casa da minha avó em Lisboa, o apartamento na Rodrigo da Fonseca onde vivi no primeiro ano em que vim para cá com os meus irmãos e primos. Entrava naquele espaço, a entrada tinha o mesmo armário e ia acompanhada pela minha irmã arquitecta, com ela discutia a hipótese de se rentabilizar os quatro quartos da casa para se fazer obras no futuro. Nisto sigo pelo corredor em direcção à sala e ao entrar vejo alguns dos meus antepassados paternos por lá, estranho de estar também presente o meu bisavô materno que me observa de um modo intenso – o meu sobrinho Vasco de facto é muito parecido com ele fisicamente, só pensei nisso quando acordei; e nisto estou depois na rua, numa feira com imenso movimento de pessoas, sei que vou encontrar-me com um grupo de amigos para jantar, mas numa tenda cruzo-me com uma senhora de idade que está ao lado de um homem numa cadeira de rodas e ele começa a gritar: ela está doente, ela está doente. Acordei em pânico e aponto tudo isto no meu caderno e fiquei a reflectir: o que é que os meus antepassados lá estavam a fazer, naquela casa onde não viveram? Logo naquele apartamento na Rodrigo da Fonseca, onde vivi durante o ano lectivo de 1985-86 e que relação tem com uma feira na rua cheia de gente onde me ia encontrar com amigos para jantar. As imagens do sonho desconcentraram-me das minhas tarefas ao longo do dia, volta e meia lá me invadiam. Mas tenho de andar com os pés no chão, não me posso deixar levar por estas coisas do subconsciente, por mais que me deixem perturbada.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Textos insones #17

Portugal dos pequenitos clandestino

Farol Ilha de raios oblíquos contínuos sequenciais nas estrelas da noite. O barco azul parte de Faro para a Ilha do Farol durante o dia. Ao longe, o farol anuncia com elegância o seu pequeno reino. O barco azul leva-me a caminho de um mistério, quem sabe se um pequeno paraíso perdido no mar. No Farol Ilha tudo gira em torno do mensageiro luminoso no alto, talvez um mensageiro entre dois mundos. De dia, o farol apenas vigia o mar como um deus; de noite, deus transforma-se num silencioso ritmo visual. O farol centra descentrando assim a ilha em feixes luminosos sequenciados. O farol divide a sua ilha em legal e clandestino, na forma de direita e esquerda, pelo menos seguindo as coordenadas da plataforma onde caminho. Em sentido contrário será esquerda e direita, ou seja, clandestino e legal lado a lado. Mas no fundo na ilha do farol, o clandestino e o legal vivem de mãos dadas. O Farol Ilha é o Portugal dos pequenitos estilo clandestino, na continuidade do Raul Lino, em ponto pequeno, português suave marítimo contemporâneo. O outro Portugal dos pequenitos tem muito manuelino. O legal clandestino, ou seja, o clandestino no seu esplendor, tinha que ser uma ilha no mar ao sul, em honra dos estilos importantes da nossa cultura; e tinha de ser uma ilha onde só se pode ir num pequeno barco azul. A diferença entre o legal e clandestino nesta ilha, revela-se apenas na noite, em forma de pequenos candeeiros, ténues globos luminosos, muito baixos, que na rua acompanham os humanos, pontuando apenas, sem competir com deus lá no alto. As ruas são sempre estreitas, escuras e demasiado estreitas na parte clandestina, a areia aperta-as. E deus é muito mais bonito no clandestino, revela-se no azul-escuro estrelado imenso.

O estilo manuelino impera em Tomar, na Batalha ou nos Jerónimos. O Raul Lino povoou especialmente Sintra e está um pouco por todo o país. Quanto ao contemporâneo clandestino, o mais presente no nosso território, nunca o poderia imaginar deste modo, com esta escala demasiado humana, pequenita mesmo, parece a brincar. O estilo clandestino na Ilha do Farol não é um corte com o passado, é uma continuidade do português suave em pequena dimensão, com deus e tudo, vigiando lá no alto. Mas ali não há igreja, só o farol se eleva nos céus em direcção ao sol. De noite, os traços de luz giram em torno de deus dançando, a lua é enorme na praia e o mar prateado.

Postado no Insónia a 29/8/2005

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Artes #4


Sylvia Sleigh nasceu em 1916 em Llandudno no País de Gales, estudou na Brighton School of Art e apesar de na altura um professor lhe ter dito que ela estava ali apenas para se entreter até um dia encontrar marido, fez a sua primeira exposição em 1953 na Kensington Art Gallery . Mais tarde casou com o critico de arte Lawrence Alloway, antes ainda de emigrarem para os Estados Unidos nos anos 60 onde ela se tornou uma artista de renome e ele foi curador do Solomon R. Guggenheim Museum. A forma peculiar como abordou o nu masculino nos anos 70, que a meu ver chega a ser comovente, contribuiu para o reconhecimento da sua obra. Sobre o modo como o feminismo a influenciou e alterou a prática artística contemporânea, encontrei estas palavras da pintora:
 
Love and Joy

Feminism to me is equality to all, as they used to say,
“Equal pay – equal work”. In relation to my paintings. I feel that my paintings stress the equality of men & women (women & men).
To me, women were often portrayed as sex objects in humiliating poses. I wanted to give my perspective. I liked to portray both man and woman as intelligent and thoughtful people with dignity and humanism that emphasized love and joy.

I did this by placing my models in beautiful settings outside or inside against colorful landscapes or pleasing fabrics. To me, it made me think that the model was a jewel, being emphasized by their surrounding or environment. Feminism allowed me to express my thoughts freely. It gave me the freedom to show the beauty of the body – the most luminous parts equally. My style is the way I can best express these ideas.
Feminism gave us this intense freedom of expression thus allowing a change. Anything that helps to express the artist’s ideas, whether it is to surprise, glorify, shock or simply express a philosophy will lead to a change or will simply allow an opportunity for change.

Sylvia Sleigh Monday, April 02, 2007



"Banho Turco" 1973 - o marido é o homem reclinado em 1º plano


"Paul Rosano deitado", 1974 e em baixo
"Retrato Imperial de Paul Rosano", 1977


terça-feira, 14 de julho de 2009

Poema #21

Todas as coisas têm nome.
(Têm nome todas as coisas?)

Todos os verbos são atos
(São atos todos os verbos?)

Com a gramática e o dicionário
faremos nossos pequenos exercidos.

Mas quando lermos em voz alta o que escrevemos
não saberão se era prosa ou verso,
e perguntarão o que se há de fazer com esses escritos:

porque existe um som de voz
e um eco — e um horizonte de pedra
e uma floresta de rumores e água

que modificam os nomes e os verbos
e tudo não é somente léxico e sintaxe.

Assim tenho visto.

Cecília Meireles

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Poema #20

SONATA DE OUTONO

Inverno não ainda Outono
a sonata que bate no meu peito
poeta distraído cão sem dono
até na própria cama em que me deito.

Acordar é a forma de ser sono
o presente o pretérito imperfeito
mesmo eu de mim próprio me abandono
se o rigor que me devo não respeito.

Morro de pé, mas morro devagar.
A vida é afinal o meu lugar
e só acaba quando eu quiser.

Não me deixo ficar. Não pode ser.
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
Pois viver é também acontecer.

José Carlos Ary dos Santos

Eco #2






Orlando di Lasso ( 1532 -1594) - Compositor franco-flamengo, autor desta bela peça para dois coros intitulada O la, o che bon eccho


domingo, 12 de julho de 2009

Poema #19

A VITÓRIA E A PIEDADE
(excerto)


Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
Nos paços dos senhores!
Eu jamais consagrei hino mentido
Da terra aos opressores.
Mal haja o trovador que vai sentar-se
À porta do abastado,
O qual com ouro paga a própria infâmia,
Louvor que foi comprado.
Desonra àquele, que ao poder e ao ouro
Prostitui o alaúde!
Deus à poesia deu por alvo a pátria,
Deu a glória e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
Livre o poeta seja,
E em hino isento a inspiração transforme
Que na sua alma adeja.

Alexandre Herculano

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Poema #18

O GIGANTE DE OLHOS AZUIS

Ele era um gigante de olhos azuis
Amou uma mulher pequenina
Cujo sonho era uma casa pequenina
Que tivesse no jardim
madressilvas a brilhar.

O gigante amava como um gigante
As suas mãos feitas para os trabalhos pesados
Não poderiam erguer os muros ou puxar a sineta
Da casa que teria no jardim
madressilvas a brilhar.

Ele era um gigante de olhos azuis
Amou uma mulher pequenina
Que em breve se cansou dele, a bonequinha.
No caminho largo do seu gigante
Sentia muito a falta de comodidades
Adeus, disse então para os olhos azuis
E pegando no braço de um anão rico
Entrou na casa que tinha no jardim
madressilvas a brilhar.

O gigante sabe agora
Que os amores de gigante
Não podem ser enterrados
Na casa de madressilvas a brilhar.

Nâzim Hikmet (tradução de Rui Caeiro)


Diário gráfico #31




Mais páginas do diário que fiz em 1994 durante a minha estadia em Halifax (Canadá), para ver em promenor clique nas imagens.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Poema #17

ECO
Alta noite, o pobre animal aparece no morro em silêncio.
O capim se inclina entre os errantes vagalumes;
pequenas asas de perfume saem de coisas invisíveis:
no chão, branco de lua, ele prega e desprega as patas , com a sombra.

Prega, desprega e pára.
Deve ser água, o que brilha como estrela, na terra plácida.
Serão jóias perdidas que a lua apanha em sua mão?
Ah!...não é isso…

E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal sozinho.
Em cima, vai ficando o céu. Tão grande. Claro. Liso.
Ao longe, desponta o mar, depois das areias espessas.
As casas fechadas esfriam, esfriam as folhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos: ao lado um do outro, mas estranhos.
E ele pára, e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém…

Alta noite, diante do oceano, senta-se o animal, em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em ténue espuma.
Não é isso! Não é isso!
Não é a água perdida, a lua andante, a areia exposta…
E o animal se levanta e ergue a cabeça e late…late…

E o eco responde.

Sua orelha estremece. Seu coração derrama a noite.
Ah! para aquele lado apressa o passo, em busca do eco.

Cecília Meireles


terça-feira, 7 de julho de 2009

Poema #16

linha por linha falo que me isolo
sons de palavras linhas solidão

volto à vida se volta esta revolta
mas contrafeito à vida volto
contra mim a revolta toda volta
que se volta por si a vida solta

linha por linha falo que me isolo
as palavras rodeiam-me de voltas
as flores que não colhi foram-me dolo-
rosas – as que colhi rosas

nada são. Agora que me vejo
como um lento reflexo agitado
recordando recorto no que leio
as palavras que ponho lado a lado

E.M. de Melo e Castro

OKUPAÇÃO DO CORETO

OKUPAÇÃO DO CORETO
do Jardim da Estrela
11 Julho - Sábado
16h - 24h

Atenção: parece mais um festival de verão
mas é só a okupação do coreto do jardim da estrela
por 50 pessoas
entre músicos, cantores, e declamadores.
durante 8 horas seguidas
palavra e música despegam do coreto
e quem assiste que se envolva.
é tudo à borla, grátis, com vontade
desde o electricista Daniel Miranda
(teve que assinar dois termos de responsabilidade!)
à Ana Beatriz da junta de freguesia da lapa
(partiu a burocracia ao meio, pás!)
à empresa que fornece o som e, ouçam, técnicos de som!
(Cemaudium que também é escola de música)
à organização.
segue programa completo de actuações.

Toda a ajuda em termos de divulgação
desta loucura performativa
é primorosa.

obrigado
até dia 11.

vivaleituras
bibi pereira
nuno moura
vivaleituras@gmail.com
bibi pereira - 91 094 18 03
horário de actuações:

16h - 16h30 : Kumpania Algazarra (começam no Coreto, tocam pelo Jardim e voltam e, se quiserem, podem fechar a okupação)
16h30 - 17h : Puzzle
17h - 17h30 : Stack em Blues
17h30 - 18h : Lula Pena
18h - 18h30 : Leituras : João Pacheco, Miguel Manso, E. M. Melo e Castro e Cyombra
(sugestão: acompanhamento musical pelo Fernando Dinis e Reymundo)

18h30 - 19h : Babilónia Reduzida
19h - 19h30 : Jorge Ferraz
19h30 - 20h : Fernando Dinis (piano) e Reymundo (acordeão)
20h - 20h30 : Tramas
20h30 - 21h : Pedro e Diana
21h - 21h30 : Leituras : Luís Testa, Alice Valente Alves, Miguel Cardoso e Rui Antunes
(a sugestão continua válida, assim como para todos os outros músicos participantes)
21h30 - 22h : Paulo Condessa e Afonso Azevedo
22h - 22h30 : Apetite Mor
22h30 - 23h : Guto Pires
23h - 23h30 : Ventilan
23h30 - 24h : Samuel Úria e Amigos


domingo, 5 de julho de 2009

Poema #15

Que magra és
- disse-me –
e então pensei na mulher da foto
nos seus seios grandes
e nos meus, pequenos,
no tamanho da concha que faz um homem com a sua mão
no tamanho da concha que ele fazia com a sua mão
quando me dizia: és tão magra.

(Quando um homem treme ao tocar-te
não te esqueces dele.
Nunca, mesmo que não chegues a amá-lo).

A cama dele estava vazia
porque ela não estava e ele
acampava comigo na intempérie da sala.
Quem dava refúgio a quem
não era claro.

De costas para baixo no colchão
olhando a noite no tecto da sala
com os braços entrecruzados sob o lençol
apalpávamo-nos à procura
de onde fazer o corte mais limpo.

Miriam Reyes (tradução de Pedro Sena-Lino)


sábado, 4 de julho de 2009

Poema #14

CAIXAS

Caixas de armadilhas ou sal
Caixa de azeite, de sisal
Cofre, estojo, caixotão
Arca, canastra, caixão
Cartão, caixinha, cestão
Mala, bala, cartucheira
Cápsula ou cigarreira
Baú, bexiga, boceta
Balsa, barrica, gaveta
Urna, utrículo, vesícula
Receptáculo de pílulas
Caixa das pernas tortas
Caixa de pregos e porcas
Caixa-de-óculos, do correio
Tabaqueira, pimenteiro
Caixa à frente ou caixa atrás
De mudanças, do destino
Caixa de apanhar ratos
Porta-luvas, guarda-fatos
Caixa dos gambuzinos

Boris Vian (tradução de Margarida Vale de Gato)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma casa no tempo #11


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobreira

Nunca sei o que fazer com as mãos quando estou ao pé de ti, tenho de fumar um cigarro, tenho de manter as mãos ocupadas. É claro que acalmava se colocasse as minhas mãos sobre ti, sabes que sou artista, trabalho com as mãos. Perguntaste-me sobre as árvores que estou a pintar. Falei que quero colocar uma hipérbole no céu desta árvore. Como está num ponto muito alto, o céu tem de ser enorme, a percentagem de terra nesta representação é muito mais pequena que o céu. O céu é o que caracteriza a paisagem alentejana. Respondeste-me que essa é a visão do mundo quando somos pequenos; e que assim a árvore não é o tema central da pintura, como na outra que fiz. Expliquei-te que a outra árvore era uma sobreira centenária, classificada, o que a caracterizava era a copa monumental. Perguntaste-me o que é uma sobreira: é um sobreiro virgem, porque os homens nunca lhe retiraram a cortiça, uma força da natureza selvagem. A árvore que estou agora a pintar é uma azinheira centenária, conhecida por azinheira das bruxas. Ela não tem sombra. Tem cerca de 300 anos, é baixa, assimétrica, tem o tronco inclinado, uma copa larguíssima. O seu tronco é negro, assustador, tenho medo dela, por isso vou pintar um céu enorme, numa espécie de esconjuro. Perguntaste-me onde vai ficar e não sei. Sei que a sobreira que pintei está em casa do dono, ele queria colocá-la no hall de entrada, mas mudou de ideias. A sobreira está pendurada na parede da sala, um local com muito mais luz natural e o dono dorme a sesta no cadeirão em frente. Decidiu assim, é o melhor local, depois do almoço costuma ficar cerca de meia hora em frente dela, adormece e acorda a olhar para a minha pintura. A pintura é uma janela aberta para a natureza, neste caso.

Texto postado no Insónia a 13/8/2005 com outro título, a ilustração foi postada a19/9/2006



quinta-feira, 2 de julho de 2009

Poema #13

MENINO E MOÇO

Tombou da haste a flor da minha infância alada.
Murchou na jarra de oiro o púdico jasmim:
Voou aos altos céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo com torres de marfim!

Mas, hoje as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância!

Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! Elas não voltam mais...

António Nobre

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Poema #12

GATO

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesado lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O’Neill