Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

terça-feira, 30 de abril de 2013

segunda-feira, 29 de abril de 2013

domingo, 28 de abril de 2013

sábado, 27 de abril de 2013

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Dia-a-dia #185

" O 25 de Abril está para Portugal como a Revolução Francesa está para a França, como a Revolução Russa está para a Rússia. Acho que tem mais importância como a tal libertação que foi, uma libertação que deixa espaço para um edifício, mas não começa ainda a construí-lo. Ou começa a construí-lo já com forças diferentes – e a construção que veio a seguir já foi uma construção feita por muitos pedreiros, uns mais livres outros menos livres. Logo a seguir ao 25 de Abril quantos partidos havia? Vinte e não sei quantos..."

Alberto Pimenta em entrevista a Viriato Teles, 2005


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dia-a-dia#184

A Lua anda encantada a apanhar sol e moscas, rica vida!

terça-feira, 23 de abril de 2013

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Poema #109


DIFÍCIL POEMA DE AMOR


Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os
olhos vasados. Qual de nós os dois «quero-Te» gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes. Conheces-me. Não me tens amor.
Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo
eu. Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci — assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço

nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras. Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.
Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu temor como um alfange na terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!

Luiza Neto Jorge, «Difícil Poema de Amor» [1964], "Poesia", organização e prefácio de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2.ª ed., 2001

sábado, 20 de abril de 2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

JOHN M. COETZEE, ESCRITOR - O BELO E A CONSOLAÇÃO



Lembro-me como se fosse ontem a primeira vez que vi esta entrevista, depois comprei "A Idade do Ferro" e devorei o livro, foi antes de Coetzee ganhar o Nobel. Esta série de entrevistas sobre o Belo e a Consolação depois passou num verão na Sic às tantas da manhã, vi alguns episódios, mas agora estão todas no Youtube legendadas, que maravilha.  Lembrava-me bem dos silêncios deste autor, de  não responder a questões por serem dificeis e por não ter a certeza da resposta, também entre outras afirmações a seguinte que acho belissima:
" - Não, não sei se gosto da espécie humana. Prezo demasiado os grandes satíricos para gostar da espécie humana."

Poema #108

2. NAS ÁGUAS O MÊS DE MAIO

Florido vai nas águas o mês de maio
Fogo vago e terra onde já a lua
Branca expende um branco raio
confundido na minha língua a tua

Junho pode ser o que outrora fora?
... Éramos então só um, apesar de dois...
A ténue luz os nossos corpos doura;
Somos a luz das sombras de depois.


Fernando Cabrita
(in«Douze poèmes de Saudade»)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Natureza-Morta Social #47


GEORGE STEINER - O BELO E A CONSOLAÇÃO



O que fui reencontrar por aqui, fiquei sem palavras.

terça-feira, 16 de abril de 2013

domingo, 14 de abril de 2013

Dia-a-dia #183


E a chuva parou, estamos em meados de Abril, mas não me cheira a cravos. Ainda te lembras como me conheceste? O que estava a fazer? Uma união internacional dos povos pobres seria possível, se os humanos não fossem uns bicharocos tão esquisitos. Vamos começar a revolução?


sábado, 13 de abril de 2013

Poema #107


compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um pão come o pão caga o pão
compra um cão dá-lhe pão caga o cão
revende o cão compra pão caga o pão
compra um pão come pão caga o pão
não compra não come não caga morre

Alberto Pimenta - Os Entes e os Contraentes (1971)

Leituras #31

Carta a uma miúda do século XVII, quando terminámos o nosso doutoramento tórrido


Pedro Sena-Lino

sexta-feira, 12 de abril de 2013

quinta-feira, 11 de abril de 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Poema #106



Antonio Poppe - Livro da Luz - canto 2

realização : Carlos Botto

Natureza-Morta Social #43


terça-feira, 9 de abril de 2013

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Da Natureza-Morta Social




 

O que é uma " natureza-morta social" ? Conheci este conceito porque foi título de um livro de poemas de Daniel Falb, para o qual contribuí com a imagem da capa. A imagem interpretava um poema que se encontra no interior do livro, não foi feita a pensar numa "natureza- morta social", mas ao lado do título ganhou outra dimensão. O que é uma "natureza-morta social"? Ora aqui está uma pergunta que faço desde que o livro foi publicado em 2009. Por isso comecei a pintá-las no dia 14 de Novembro de 2012.

ver ilustração #23, #24, #25,  #26 e #27.
 


Natureza-Morta Social #41

 


Primavera #7


domingo, 7 de abril de 2013

Dia-a-dia #181


Hoje ao ver esta fotografia lembrei-me do gato Sunny, talvez porque este gato também ser um pequeno sol.  A última vez que o vi, apareceu aqui em casa cheio de dores a queixar-se e depois fui entregá-lo à dona, já era 1h da manhã. Nunca mais soube nada dele. Aquele NÃO da dona foi terrível, em relação a deixá-lo por cá. Ele estava quase sempre em minha casa, tinha-se passado para este lado dos quintais, não lhe agradava o ambiente em sua casa. Poderia ter insistido, mas lá aceitei o rumo das coisas, o gato tinha aquela dona há dez anos.  Entretanto, estará na sua nova casa, não sei se  feliz. Por vezes, olho para a porta do quintal e lembro-me das suas patinhas a arranhar, a pedir para entrar. E de como corria pela casa fora a brincar com a Lua, era uma alegria. O Sunny era  muito especial. Se calhar não está na nova  casa da dona, pisgou-se e vive livre nalgum quintal. Ou encontrou alguma casa que lhe agrada visitar, porque os gatos são assim, isto de sermos donos de um gato é muito relativo, eles lá  têm  vida própria. Mas tenho muitas saudades do Sunny.

 

sábado, 6 de abril de 2013

Viva o Porto, Maruxina em S.Bento


Poema #105

E UM DIA PARTISTE

                    um extra para quem não mija a cantar


quero lá saber de versos com scones
pesadelos com remendos papais
ou soldados morrendo voluntários às ordens
duma folha de ordenado com carimbo gasto
de mãos sujas do pouco sangue
de lagartixa mastigada pelo outro
um nojo via tv cabo quero lá

saber de sábios lendo o vento
se há culpas de Israel pelo chão morto
das ruínas do divino e do punhal
do internacional sorriso boy
do tráfego da ganga e das armas químicas

quero lá
os cacilheiros a irem ao fundo do Tejo
armadilhados com gestos relógio
de desespero e vingança por tanta miséria a boiar
no poço das palavras sanguessugas que aplaudiste
num largo qualquer num qualquer dia
bandeira ao vento quero lá saber

se és xerife na tua rua democrática
e aprendeste a circular entre gangs
e a domesticá-los a teu prazer e lucro
que apertes as nalgas a espionagem
o cerco dos uivos um terramoto
no foco escuro dos diálogos rastejantes
mais que os corpos as almas desamparadas
um demoníaco olhar rasga a fita dos teus desejos

do mistério do invísivel o teatro ardendo
se a madrugada é amante da lua
se és um herói a naufragar nas cinzas
do estado ou nas nuvens negras anunciadas a peste
se desesperadamente gritas por inveja e vergas
se rezas ou não rezas ao deitar
se gostas «De ti só possuo a sombra estática»
se vais ao cinema às segundas e fodes aos sábados
depois de ires às compras ao supermercado com ela

se corres em fato treino nas ruas do submundo
transpirando angústia dor e flores falsas
ou da tua irmã que esquartejou o teu cunhado
cozeu o sangue e com açúcar e vinagre
serviu ao jantar ao filho teu sobrinho
aos pés da tua sombra agonizando no brilho
da água envenenada escorrendo da torneira

quero lá saber se não gostas do som do cravo
do trompete da chuva
se és um desconsolo pestilento funcionário
público informatizado borrado
se já nem tens vida para trocar ou vender
quando ouves falar no horizonte
olhas para cima e para baixo à procura
e perdido segues o mé do rebanho
que estiver a passar na moda junto a ti
(eu sei que já to dissera)

quero lá saber se desejas continuar
aprendendo a tocar-me
se o vizinho da frente só tem três azeitonas
para um dia quase inteiro
se puseste o pé falso como falso és
espremes o sangue do picanço do lacrau no dedo
a dor da vida
quanto maiores e fartas forem as patilhas
no teu rosto
maior o desgosto de teres nascido
sem corpo de mulher
a dor da vida no teu rosto

quero lá saber se as tuas crianças são papel
químico de ti um orgulho emoldurado
se um dia irão ter mamas de silicone
ou barrigas de aluguer
se tiraste uma licenciatura e
nunca tiveste tempo para olhar o mar
vai cagar e bate com a cabeça três vezes na sanita

quero lá saber da tua permanente febre
por teres medo de ir morrer e orgulho
de nunca falhares a pontuação ortográfica

quero lá saber do amanhã

e se amanhã me irei recordar
dalgum dos teus ardentes beijos.

Jorge Aguiar Oliveira - "João Alves". Lisboa: Edição do Autor, 2004.

Dia-a-dia #180

via Anarchist Memes

sexta-feira, 5 de abril de 2013

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Natureza-Morta Social #39


Primavera #6



Love Mrs. Miller, a vovó pop mais querida do mundo!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Poema #104

CASA DA MISERICÓRDIA

O pai fuzilado.
Ou, como diz o juiz, executado.
A mãe, a miséria e a fome,
a instância que alguém lhe escreve à máquina:
Saludo al vencedor, Segundo Año Triunfal,
Solicito a Vuecencia deixar os filhos
nesta Casa da Misericórdia.

O frio do seu amanhã está numa instância.
Os orfanatos e hospícios eram duros,
mas ainda mais dura era a intempérie.
A verdadeira caridade dá medo.
É como a poesia: um bom poema,
por mais belo que seja, tem de ser cruel.
Não há mais nada. A poesia é agora
a última casa da misericórdia.

Joan Margarit - "Casa da Misericórdia"(tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas). Entrocamento: OVNI, 2009.

Natureza-Morta Social #38


Dia-a-dia #179


E a Primavera veio a chover em força, o verde está molhado. Assim nem estou mal das alergias, já que em caso de sequeiro espirrava por causa de tudo  quanto é belo. E aparecia logo a grande Natália de Andrade. Por enquanto, vou-me lembrando de Rimbaud, de beber uma cerveja no inferno na versão Cesariny. E nem posso beber cerveja por causa do gás, das dores de estômago que provoca. A beleza afinal é amarga. Infelizmente, desde cedo a natureza mostrou-me isso, não apenas na pele como se costuma dizer, mas chegou a atacar-me os ouvidos. Porque o que se vê nem sempre é bom de ouvir. O ouvido é o órgão do medo, já dizia o outro, não me apetece citar mais ninguém. Já basta as notas-de-roda-pé que escrevi hoje. E tudo começa sempre em dores de cabeça. Mas a medicina, entretanto, inventa mais umas belas drogas, que funcionam como muletas invisíveis no dia-a-dia. E o Rimbaud, novamente, a Primavera, o riso do idiota, chove a valer. E a chave podia fechar o Inverno, uma chave de fendas, esburacada e generosa. Em vez de ser desbocada, fechava o passado, parava esta chuva e o sol aparecia. Também conheci o abraço do sol de Inverno e sei que não vai voltar. Vou fechar a porta à chave para poder dormir descansada. Sei que não posso ter tudo, mas não é por isso que deixo de ter bons sonhos. Sonhos muito verdes e solarengos, sem espirros, nem dores de cabeça, com o sabor da cerveja que a drástica não suporta, dos quais sou acordada pelo riso do idiota. Breves instantes que tento prolongar no espaço. Espaço interior não me falta, tenho essa liberdade. E o verde molhado de hoje à tarde cansou-me, deixou-me o cérebro enublado. Já nem oiço o riso. Boa noite.

terça-feira, 2 de abril de 2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Poema #103

QUANDO DORMEM de Rolf Jacobsen (1907-1994)

Versão de HMBF AQUI

Natureza-Morta Social #36