O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sou do Portugal # 10










Anda por aí muitas invejas por causa do sucesso artístico português, mas em matéria de penteados, nós somos os melhores do mundo. Também ontem Ronaldo foi de uma modernidade assombrosa, visto que não se apresentou com a sua crista capilar  habitual e levou-nos à vitória. Os cabeleireiros da selecção estão de parabéns, estiveram a dar ao litro e nunca ninguém se lembra deles. São os maiores!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Dia-a-dia #116

Estava na biblioteca bem concentrada nas leituras quando me senti observada: reparei então que na mesa em frente, um peculiar rapaz me estava a desenhar. Já o tinha visto por ali, também no Chiado, deve andar nas Belas. Surpreendeu-me, não o censurei e deixei-me estar, encarando como sendo algo natural. Ele percebeu e continuou o desenho. A sensação foi estranha porque aquele olhar sabia perfeitamente o que estava a captar, os gestos eram precisos e sem indecisões. A estranheza derivou da troca de papéis, sei que por vezes faço isso com conhecimento técnico, com as mãos em acção no papel. Agora sou eu: tratava-se dum jovem apolínio, bastante andrógeno, que dá gosto olhar, mas não dá vontade nenhuma de mexer; tinha uma figura fora do vulgar, alto, robusto, elegante e vestia de negro; o rosto era demasiado desenhado e equilibrado, daí o apelidar de apolíneo; a andrógenia derivava do longo cabelo louro cendrê; também tinha umas patilhas horriveis, com um ar experimental próprio da idade; as mãos eram sensuais, os dedos compridos estavam sujos de grafite, mãos de trabalho que não devem parar quietas; as mãos seguiam o seu olhar verde-água, rasgado, de lince selvagem que me dissecou sem piedade. Por fim, levantou-se para ir buscar os livros, deixou o bloco de apontamentos na mesa aberto com o desenho terminado. Não consegui observar bem o desenho porque estava longe, mas deu para ver que registou o meu decote com prazer.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Amália Rodrigues - Fado Malhoa



A secretaria de Estado da Cultura anunciou hoje que a artista plástica Joana Vasconcelos vai representar Portugal na próxima Bienal de Veneza, em 2013.

Em comunicado, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, afirmou que Joana Vasconcelos nunca foi a artista convidada do pavilhão português no certame, mas que “está na altura de corrigir essa falha”. “Tem colocado o nome de Portugal ao mais alto nível no mercado mundial da arte”, justificou, acrescentando que as obras da artista, conhecida pelo seu trabalho de escultura, “levam ao exterior a marca identitária e tradicional de Portugal ao mesmo tempo que expressam uma modernidade assombrosa”.

Paulo Portas elogia Joana Vasconcelos

 


quinta-feira, 7 de junho de 2012

Poema # 82

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Dia-a-dia #115

Fui marcar uma colonoscopia que estou para fazer quase há um ano. Depois de renovar a credencial,que já estava caducada, lá descobri uma clínica que tem parceria com a ARS. Na clínica deparei-me com uma enorme fila no balcão de atendimentos. Olhei para a televisão e lá estava uma daquelas coisas que se passam à tarde, um velhote cantava um fadinho deprimente e como estava bem disposta comecei a imitá-lo baixinho. Ao meu lado começou-se a rir uma caboverdiana de idade indefinida, tanto podia ter 50  como 70 anos, com umas bochechas amorosas. Comentou logo que o homem da TV cantava muito mal, e continuou a rir-se com ar de miúda traquina. Atrás dela estava o marido que era alto, magro e com um bigodinho muito composto. À minha frente estava uma senhora a levantar o exame do filho, e pediram-lhe para pagar mais 100 euros por causa de terem retirado um polípulo. A caboverdiana olhou para mim preocupada, dizendo que a senhora se calhar não tinha dinheiro, mas afinal, um homem que estava ali perto sentado - talvez o marido -  sacou das notas e pagou. Chegou a minha vez e fiquei a saber que tinha de deixar um sinal, apesar de só ir fazer o exame em Julho - para além da taxa moderadora, vou ter de pagar 150 euros pela anestesia, uma roubalheira, porque apenas me colocam a dormir, provavelmente  com um Valium e mais umas gotinhas de Tramal. E como não havia multibanco, fui levantar dinheiro lá fora. Já no multibanco, deparo-me com uma moeda de um cêntimo no meio do chão, apanhei-a porque achei que me ia dar sorte. De volta à clínica, encontro o casal caboverdiano à porta, ela não estava com boa cara. Mostrei-lhe a moeda de um cêntimo e contei-lhe que a tinha encontrado no chão. Ela queixou-se que o marido estava desempregado, mas tinha pago taxa moderadora, porque faltava documento. Coloquei-lhe então a moeda que encontrei na mão dela, segurei-lhe a mão e disse-lhe para  não se preocupar, que a moeda lhe traria boa sorte. Ela agradeceu e voltou a sorrir com ar de miúda traquina.

Ilustração #34

 


 


Ésquilo - "Agamémnon". Lisboa: Edições Artefacto, 2012
Imagens da capa e contra-capa da minha autoria.

sábado, 2 de junho de 2012

Dia-a-dia #114


O gato Sol teve hoje uma experiência nova: estive toda a manhã a pintar e a ouvir a Antena 2. Ele aparentemente reagiu bem, dormiu no sofá ao pé de mim, até que reparei que acordou assustado: na rádio Puccini e as pinturas estavam no chão a secar. Ele saltou e foi cheirá-las desconfiado. Depois olhou para mim e dirigiu-se para a porta do quintal, que abri para o deixar ir à sua vida. Deduzo que não gostou nem de Puccini, nem das minhas pinturas.

Ilustração #33







Pedro Tiago - "O comportamento das paisagens". Lisboa:  Artefacto Edições, 2011.

Imagens da capa e contra capa da minha autoria.
Mais ilustrações aqui e aqui.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Ilustração #32







2.
Creio ter aqui chegado por um certo engano,
e por isso o meu nascimento foi uma avareza de rosas,
e os cães rosnaram no extremo da charneca, e um uivo
inquietou a solidão doirada da planície para que algo
me dissesse como estou aqui, como cheguei aqui,
como o meu leite é negro sob a tempestade dos homens
e os elementos não sabem como interromper a ameaça.


Onde anda meu pai a esta hora infinita, não sei.
De todos os lugares chegam vozes impossíveis,
e o meu berço azul brilha no centro da terra, nesta casa
de cal, nesta branca tirania da suavidade, que Eliat ignora
e só um mar vermelho poderia aquietar.


Venho à vida, e venho a um lugar estranho onde as vozes
se levantam para murmurar, e por murmurações
entendo a condenação à fogueira, e a chuva de larvas
nos campos em volta, e os cavalos desenfreados
que vão de igreja em igreja procurar a redenção,
e os homens que, nas tendas, preparam as facas.


Aqui nasci, e não tenho onde repousar a cabeça, e nada
vem transformar a água em vinho, e a minha língua arde
pela impossibilidade de escolha das primícias, sendo que quero
uvas, maçãs, um pêssego absoluto, e toda a paz da planura,
toda a paz da humildade, enquanto os meus mortos revogam
os meus cânticos, e eu canto como cantam as raparigas de Jerusalém.

 Amadeu Baptista in "Outros Domínios Clamor Por Flobela Espanca", Coimbra, Temas Originais, 2011.