Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dia-a-dia 259

Hoje depois do almoço passei pelas brasas na varanda da BN até o som de um avião me entrar directamente no cérebro. Num estado intermédio fiquei ainda a observar a escultura-esfinge do António Campos Rosado, o que é sempre um prazer. Acho que já aterrei ou estou de volta à carga novamente.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Dia-a-dia #258

Na praia estou tão zen ao sol e nem ligo: a pessoal que põe música em alto no telemóvel; ou a quem abre a boca só para dizer palavrões; quem usa esse tipo de vocabulário e joga à bola; os grupos de grunhos aos pulos com uma bola à beira-mar; o jogo das raquetes; as bolas que atinguem criancinhas; adolescentes com as hormonas aos pulos que riem e dão gritinhos; fedelhos que entram na água a correr e a chapinhar; adultos que fazem o mesmo e alegremente atiram água uns aos outros; não ligo a quem comenta a temperatura da água comigo e acha estranho não responder; pessoal que não sabe o que é um caixote do lixo apesar de haver vários na zona; que mandam beatas para a areia; não ligo às ratazanas debaixo do chapéu de sol com chapéus de pala entretidas a afiar a língua com a vida dos outros; ou outras ratazanas; camarões e lagostas de importação; as bolas das raquetes; as bolas que atigem qualquer um que passa; a avó aguda que chama o neto na água com o vocabulário apropriado; ratazanas a rosnarem; famílias inteiras aos gritos cujo o pacote inclui os guinchinhos dos mais pequenos; criancinhas que gritam como se as tivessem a matar, mas afinal não aconteceu nada.
Na praia fiquei tão zen ao sol que adormeci, mas não me lembro do que sonhei.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Dia-a-dia#257

Voltei a sonhar que ainda estava nas Belas-Artes nas caves da escultura, vi-me na sala do terceiro ano rodeada de vultos cobertos por sacos de lixo pretos. Com um grupo de colegas discutia qual seria a melhor tecnologia a frequentar nesse ano e houve um que sugeriu ir para os plásticos. Eu fiquei indignada e disse logo que não, nunca mais iria entrar nesse antro sujo, era muito melhor ir para os metais. Vejo lá fora pelos vidros a passar a prof. Virginia com os dois filhos ainda miúdos e faço-lhes adeus. Foi maravilhoso vê-la passar naquele mau ambiente, ainda existem pessoas boas. E nisto estou a modelar uma pequena maquete em cima da mesa, olho para a minha mão esquerda e vejo um prego espetado na palma. Mas como é que isto foi acontecer? Um colega diz que foi por estar a frequentar os metais. Puxo o prego e com ele vem um tubo de sangue e começo a sangrar, pego num pano e embrulho a mão. Pergunto se existe algum sítio na Faculdade com material de primeiros socorros. Dizem-me que isso já foi há muito tempo, houve disso, mas agora já não. Acordo em pânico a pensar que tenho de ir ao meu centro de saúde. Doi-me a minha mão esquerda por causa da sinovite, olho para ela e penso: será que tenho esta porcaria desde os tempos das Belas-Artes?

terça-feira, 5 de abril de 2016

Dia-a-dia #256

Saí do concerto na Cossoul a pensar que é difícil escolher entre Mozart e Beethoven. Mozart é o poeta que nos encanta através do som. Beethoven é o som que nos questiona, como um filósofo. Um amigo contou-me que depois de ensurdecer, passou a ouvir Mozart interiormente. No meu caso, acho que Beethoven iria ocupar esse espaço especial.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Dia-a-dia #255

Sonhei que tinha entrado para um coro onde ia fazer uma peça sinfónica. Era o primeiro ensaio e estavam a distribuir as partituras. Íamos ser dirigidos por um maestro novo, que tinha uma jovem assistente. Todos estavam a ouvir o maestro a falar com uma enorme atenção, aquilo mais parecia uma seita religiosa. Eu olhava para a partitura e reconhecia a peça, já a tinha feito. Ainda sabia aquilo de cor. O ensaio terminou e não se ensaiou. As pessoas iam saindo da sala, elogiavam o maestro e o seu discurso. Eu estava a olhar a partitura e cantarolava. Nisto a assistente vem ao pé de mim e pergunta-me se já conhecia a peça. Respondi-lhe que sim, tinha a feito como segundo contralto. Ela avisa-me que havia linhas muito agudas para os contraltos e digo-lhe que não haverá problema, poderei fazer de tenor nalgumas partes. Depois vejo-me numa residência artística no estrangeiro, o espaço era agradável e tinha ficado bem instalada. O pessoal que lá estava era simpático e trocávamos impressões de como as coisas funcionavam. E nisto estava a mostrar o meu trabalho de desenho a um dos responsáveis daquilo e o homem começa-se a passar, porque o meus desenhos eram a tinta-da-china. Eu pergunto-lhe com calma que tipo de relação é que ele estabelece entre os desenhos e os materiais que são feitos. O homem fica histérico, insulta-me e responde-me que ninguém o pode pressionar assim. Acordei estupefacta a pensar que afinal não existem apenas artistas chanfrados nas Belas-Artes de Lisboa, isto é mesmo um problema mundial.

domingo, 13 de março de 2016

Dia-a-dia #254

Ontem cozinhei uma Vichyssoise à maneira para comemorar. A receita: refogar em manteiga duas cebolas grandes às rodelas (lume brando). Juntar dois alhos franceses também às rodelas e vá mexendo com a colher de pau até estarem semi-moles. Juntar quatro batatas médias aos cubos e caldo de galinha q.b. Deixe cozinhar bem as batatas e no fim, temperar com sal e pimenta a gosto. Bata com a varinha mágica até obter um creme espesso. Adicione água se achar necessário, até o creme ficar a seu gosto. Sirva quente ou fria com natas. Eu gosto quente com natas frias.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Dia-a-dia #253

No Canadá calhou-me na rifa um excelente professor. Lembro-me que no primeiro encontro que tivemos, viu o meu portefólio com atenção, foi fazendo perguntas sempre com um olhos muito vivos e atentos. No fim comentou: vejo que tem feito coisas diferentes, mas já tem alguma experiência, o que é bom. Depois convidou-me a ir ao seu atelier na escola. Era um velhote com ar de miúdo, trazia sempre com um boné  virado ao contrário, com a pala para trás. O boné tinha um bom tecido verde, que lhe dava um ar muito chique. Chegamos ao atelier e mostrou-me uma pintura em construção, com linhas verticais de várias espessuras e altenâncias de cores vivas. Perguntou-me o que achava. Disse-lhe que parecia dos anos 70. Respondeu-me: Isto parece arte? E eu: Arte? Não sei do que é que está a falar. Desatamos os dois a rir e ele comentou que era um bom começo. Então foi buscar um catálogo de tintas de paredes, correspondiam às da pintura. As cores tinham nomes exóticos: azul do Nilo, amarelo do deserto, etc. E com um ar provocador disse-me que a pintura era sobre a guerra do Kuwait. E falámos como a arte ocidental se apropriou do exótico ao longo dos tempos, do 'Banho Turco' de Ingres e outros exemplos. Afinal o que parecia arte era sobre a guerra.