Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sábado, 1 de abril de 2017

Dia-a-dia #267

A falta de ética dos jornalistas da RTP, acho que foram mesmo estúpidos. Foram a uma escola em Chelas porque ouviram que alegadamente um miúdo de 12 anos teria violado um de 9 anos. Vi a reportagem na TV: a polícia estava no interior a impedir que pessoal exaltado entrasse lá dentro. Estavam calmos, que é o melhor modo de lidar com pessoal exaltado, porque estariam a proteger professores e alunos que se encontravam dentro da escola. Os jornalistas com câmara e microfones andavam no meio do pessoal exaltado cá fora. Como é possível estarem a fazer uma reportagem quando existem duas crianças envolvidas numa situação de violência? O que é que eles lá estavam a fazer? Iam também filmar as crianças? Iam entrevistar os pais? É o horror. Os jornalistas ouviram Chelas e foi sinónimo de circo, ou algo parecido. Isto é uma mentalidade de jornalista psicopata que anda à procura de sangue. E levaram porrada e agora fazem queixinhas.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Dia-a-dia #266

Manhã nas consultas de ortopedia. O painel das senhas não tem som, não posso adormecer, vou espreitando para ver se aparece o meu número. Uma senha já lá está a piscar em silêncio há algum tempo. Olho em volta, ninguém se acusa. Nisto vejo um homem alto com uma bela figura, barba e bata branca. Penso: Helá! Um tinto de reserva por aqui? Ele segue na direcção de um velhote sentado e totalmente mergulhado na leitura do jornal. Fala com ele de forma delicada, a expressão de surpresa do velhote foi linda, ajuda-o a levantar-se e seguem os dois para os gabinetes das consultas. Já vos tinha dito que sou fã do Hospital de Santa Maria?

quarta-feira, 29 de março de 2017

Dia-a-dia #265

Estava na varanda da BN a observar a escultura do António Campos Rosado (acho que é dele, mas nunca confirmei)  Aproximou-se um brasileiro já com uma certa idade, mas com um sorriso infantil. Perguntou-me quem fez a escultura e informei-o um pouco sobre este escultor português. Olhou-me com ar de miúdo regila e continuou: e quem está representado? Disse-lhe que a escultura me remetia para a Grace Jones, cantora icónica dos anos oitenta, visto que deve datar desse período, e também tem algo das cabeças enormes da Ilha da Páscoa, mas numa escala portuguesa. Dei-lhe a minha interpretação: "Grace Jones em betão na Ilha da Páscoa". Ele com ar traquina diz-me que lhe lembra o Mussolini. Respondo-lhe que não não não não. Pergunta-me se quero ver uma fotografia do ditador lá dentro na sala de leitura, eu continuo a abanar a cabeça. Informo-o que estudei Belas-Artes e ele afirma que sendo assim não discute comigo, mas se a escultura fosse dos anos quarenta e em pedra, poderia ser o Mussolini. Expliquei-lhe que realmente os edifícios em betão surgiram nesse período por cá, mas escultura não. Ainda lhe chamei a atenção para o facto desta esfinge ter as marcas das confragens, que deveriam ser em tacelos, algo que não aconteceria nesse período. E lá me agradeceu e comentou que finalmente alguém lhe tinha sabido responder de quem era aquela escultura.



terça-feira, 28 de março de 2017

Dia-a-dia #264




CORRESPONDANCES

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.


Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,


Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.

Charles Baudelaire. "Les Fleurs du mal" (1857)

domingo, 26 de março de 2017

Dia-a-dia #263

A certa altura a minha vida tropeçou no curso de escultura e à conta disso continuo a ver as caves das Belas-Artes em sonhos. Na última vez que isso aconteceu estava na oficina de gessos a construir placas para montar uma escultura geométrica. Mas não estava a executá-las nas mesas de mármore, estavam no chão porque eram bastante grandes. Nisto levanto uma placa e em vez de ser lisa tinha marcas rectangulares em toda a superfície, como se estivesse a secar sobre um chão de tijoleira que a modelou. Olho o chão da cave na oficina, está porco para variar, mas não é feito de tijoleira. Acordei em pânico a pensar: como é que aconteceu? Agora como é que faço as superfícies lisas?

Isto a propósito do Ad Reinhardt ter afirmado que uma escultura é um objecto onde se tropeça quando se observa uma pintura, ele tem razão.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Dia-a-dia #262

Hoje tive de ir às Belas-Artes. Estive a fumar um cigarro numa varanda no primeiro andar, a olhar para as caves da escultura. Ainda não tinha reparado que plantaram dois ciprestes no pátio das oficinas. Excelente ideia, os ciprestes não têm de estar apenas nos cemitérios. E dá uma certa verticalidade, é pedagógico para os alunos, visto que a escultura se desenvolve sobretudo na vertical. E faz pendant com as campas das caves. Reparei também que fizeram uma rampa em metal, que vem da oficina de pedra até à entrada do pátio. Não deve ser para deficientes motores ou idosos. Rolling stones. Lembrei-me de ter ouvido por lá uma definição de escultura jeitosa: é um objecto que rebola por uma encosta e chega lá abaixo intacto. Agora já podem demonstar isso, mas eu não ponho lá os pés de certeza. Prefiro vistas aereas.

terça-feira, 21 de março de 2017

Dia-a-dia #261

Na passagem de século estava tudo histérico, diziam que o mundo ia acabar. Fugi para o campo em direcção ao norte com um grupo de amigos. A casa era um paraíso bucólico onde recuamos mais um século: na entrada corria uma fonte com água da serra, o piso térreo era em pedra e o superior animado por janelas de guilhotina. Subíamos as escadas e à direita estava a típica cozinha com uma chaminé larga. Outra fonte de água corria num lavatório por baixo de uma das suas janelas. Lavávamos as mãos ou a loiça a olhar a paisagem. Em frente ficava a sala de jantar, antes do corredor para os quartos. A festa da passagem de século foi na sua enorme mesa ladeada por cadeiras Thonet. Na parede um antigo relógio contava o tempo. A água a correr na água e o relógio a cantar as horas suspenderam-nos num espaço-tempo. Nos quartos amassamos os colchões de barba de milho antes de fazer as camas. Na sala ao fundo do corredor tocava-se Chopin no piano de calda, com móveis e antigos retratos na parede a condizer. Ao lado ficava o quarto do Bispo. Às tantas, o pianista lembrou-se de ir a esse quarto vestir uma das batinas intemporais. Na sala de jantar bebíamos vinhos de superior qualidade. Riamos sem parar com o mascarado, até que de forma inexplicável, o pianista padre ia-se estatelando pelas escadas de granito polido abaixo. Teve então de retirar os hábitos para a festa continuar. De qualquer modo, mesmo com o relógio a contar o tempo e a cantar horas, ao som da água a correr, ninguém deu pelo momento exacto da passagem de século.