Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Poema #128



CASA DA MISERICÓRIDIA
O pai fuzilado.
Ou, como diz o juiz, executado.
A mãe, a miséria e a fome.
a instância que alguém lhe escreve à máquina:
Saludo al vencedor, Segundo Año Triunfal,
Solicito a Vuecencia deixar os filhos
nesta Casa da Misericórdia.

O freio do seu amanhã está numa instância.
Os orfanatos e hospícios eram duros,
mas ainda mais dura era a intempérie.
A verdadeira caridade dá medo.
É como a poesia: um bom poema,
por mais belo que seja, tem de ser cruel.
Não há mais nada. A poesia é agora
a última casa da misericórdia.

Joan Margarit (Prémio Cervantes 2019). «Casa da Misericórdia» (tradução de Rita Custódio e Àlex Tarradellas), Ovni, 2009.p.33.

sábado, 2 de novembro de 2019

Poemas #127



OUVINDO O QUARTETO OP. 131, DE BEETHOVEN

A música é, diz-se, o indizível
por ser de inexprimível sentimento
da consciência, ou um estado de alma,
ou uma amargura tão extrema e lúcida
que passa das palavras para ser
apenas o ritmo e os sons e os timbres
só pelos músicos cientes de harmonia
e de composição imaginados. Mas,
se assim fosse, eles só dos homens
saberiam mover-se nos espaços
que a humanidade abandonada encontra
nos desertos de si. Começariam
onde a expressão verbal não se articula
por impossível. Viveriam sempre
na fímbria estreita à beira da maldade
e do absurdo, como que suspensos
na solidão da morte sem palavras.
Não é, portanto, a música o limite
ilimitado dos limites da linguagem,
para dizer-se o que não é dizível.

Mas, se não é, que dizem lancinantes,
neste discreto passeio pelo tempo,
os quatro instrumentos semelhantes
no seu modo de criarem som?
Tão terrível. Sufocante. Doce
ou agridoce desconcerto harmónico.
Que diz? Que diz? Neste contínuo
de temas e andamentos, de tonalidades,
o que se justifica? Que discutem eles?
A sua mesma natureza de instrumentos
e as combinações até ao infinito
de um mecanismo abstracto do imaginar?
Como pode uma coisa que sentimos tão medonha,
tão visionariamente séria e pensativa,
ser irresponsável?

Será que nos diz do aquém, do abaixo,
do infra, do primário, do barbárico,
do animal sem alma e sem razão?
Será que todo este rigor tão belo
é como que a estrutura prévia
de que existimos ao pensar as coisas?
E não a quintessência depurada
de uma estrutura que se consentiu
todo o significar a que as palavras vieram
da analogia nominal e mágica
até à consciência dos universais?
Não há tristeza alguma nesta
vida transformada em puro som,
em homogénea outra realidade?
Não é de angústia este rasgar melódico
da consciência antes de criar-se humana?

De que, portanto, vem este triunfo
que se precipita, contraditório, nas arcadas
dos instrumentos conversando essências?
É simples convenção? É artifício?
Silêncio irresponsável?

Se há mistério na grandeza ignota,
e se há grandeza em se criar mistério,
esta música existe para perguntá-lo.
E porque se interroga e não a nós,
ela se justifica e justifica
o próprio interrogar com que se afirma
não quintessência ela, mas raiz profunda
daquilo que será provável ou possível
como consciência, quando houver palavras,
ou quando puramente inúteis forem.

10/10/1964
 
Jorge de Sena. «A arte da música». (1968) Moraes editores.pp.38-40.





 

domingo, 13 de outubro de 2019

Dia-a-dia #292

Em conversa com uma pessoa que votou no CHEGA, mas que percebi que não leu o programa do dr. Ventura, descrevi-lhe algumas das proposta que apresenta que vão contra a declaração dos direitos universais do homem. Essa pessoa, que conheço há muitos anos perguntou-me se podiamos continuar amigos. Disse-lhe que sim porque vivemos num regime democrático, mas no caso do dr. Ventura ir para o poder e terminar com o cargo de primeiro-ministro, criar um regime presidencial onde o parl...amento é reduzido a metade (digamos,um regime autoritário), e vá preseguir os ciganos, imigrantes, pretos e etc. para continuarmos amigos, vai ser dificil porque terá de me visitar na cadeia, porque serei presa (artista com ideias canhotas vai ao ar). Dei-lhe também a hipótese de que seria morta ao lado dos ciganos, imigrantes e pretos, ou seja, vou ser um alvo a abater. A guerra ainda não começou, mas pode vir ai.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Dia-a-dia # 291

A Múmia ficou com sonhos eróticos desde que a gestora das unhas afiadas laranjas se baixou e mostrou as cuecas ao Dr. Strangelove.

domingo, 6 de outubro de 2019

Dia-a-dia #290

Fui votar à hora do almoço pensando que aquilo estaria tranquilo, mas enganei-me. A fila das Marias onde fui parar nunca mais acabava porque também havia muito José, João e Manuel por lá. Trouxeram as crianças e os avós. Vi pessoal de todas as idades. Voto em Lisboa na mesma freguesia há 32 anos, acho que nunca tinha apanhado aquilo tão movimentado, que azar. Agora chama-se «Avenidas Novas», uma freguesia atipica onde nas últimas legislativas o PSD/PP ganhou com 53%, seguiu-s...e o PS 28%, o BE 7%, CDU 4,84%, Livre 2,27%. A abstenção em 2015 foi 32, 68% e os nulos/brancos 2,72%. Mas o que se passa, lembraram-se todos de ir votar ao almoço e daqui a bocado fica tudo às moscas ou a betalhada anda ao rubro? Logo vou ver os resultados com dois ex-combatentes das Belas, já somos poucos e de certeza que os votos foram diferentes. Ainda por cima não vai haver TV o que é muito bom, só um ecrã do computador por causa dos entusiasmos. Vai haver bom vinho, mas já os avisei que só bebo se a Joacine Katar Moreira for eleita.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Dia-a-dia #289

Fui ver «Dor e glória» de Almodóvar, dizem que é o seu filme mais autobiografico. Eu achei que era o mais profundo de todos os que vi, pelo modo como abordou temas dificeis: a doença, a dor, a decadência fisica ou a perda de entes queridos. É um murro no estômago. Mas também tem passagens luminosas porque nos mostra a importância da memória, da escrita como ferramenta de auto-conhecimento e auto-ficção, os encontros, desencontros e reencontros da vida. É um filme que questiona a vida e revela a importância que as memórias de infância têm em períodos dificeis da existência. Comovente e belo, ainda estou meia abananada a digeri-lo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Dia-a-dia #288

Todos os anos em Setembro, o Campo Grande e o jardim do Campo Pequeno são invadidos por bandos de pinguins- morcegos. Houve uma vez que me irritei, mandei um berro e interrompi um desses rituais militaristas, perguntei ao bando se estava a brincar ao fascismo. Aquilo calou-os momentaneamente, deixou-os perplexos a olharem uns para os outros, mas quando me fui embora recomeçaram a urrar. Na semana passada ao sair do metro em direcção a casa para almoçar deparei-me com o jardi...m ao rubro, havia vários bandos de pinguins e pareciam estar plantados nos canteiros à sombra dos plátanos (que me dão conta da respiração). Desta vez dirigi-me a uma das portas da arena sangrenta e ali fiquei com alguma distância a olhar a situação. Reparei que os transeuntes ignoram e nem sequer param perante o espectáculo. E por ser um espectáculo num espaço público, ou cívico se quisermos chamar os bois pelos cornos, desviei-me da arena e resolvi ser espectadora, dirigi-me aos que estavam plantados no canteiro à esquerda, porque faziam mais barulho. Nada de novo, havia um ser do sexo masculino com uma grande colher de pau na mão (será que aquilo compensa alguma coisa?) que gritava alarvidades, estava acompanhado por um pequeno bando também fardado e os noviços à paisana faziam eco. Mas aquilo durou pouco tempo, ou já estavam a acabar ou não gostaram de ser observados, ou as duas coisas. Como entretanto começaram a arrumar o estaminé para darem de frosques, dirigi-me ao bando da direita e fiz o mesmo: ali eram sobretudo carrascas vampiras e não gostaram nada de ver uma kota de braços cruzados a observar o ritual, começaram a mandar-me uns sorrisinhos cínicos. Se calhar também enviei uns sinais quaisquer, afinal somos todos bichos, mas não disse uma palavra. Vi que estavam a exigir aos noviços, que eram sobretudo do sexo masculino, lerem textos em voz alta. Achei logo que deveriam pertencer a uma qualquer Faculdade de Letras, uma vez que o putedo imperava. Não fixei o conteúdo do texto que o miúdo desfardado estava a ser obrigado a ler, mas reparei que ele estava envergonhado e cada vez falava mais baixo. Nisto uma minorca fardada muito voluntariosa tirou-lhe o texto das mãos e fez uma referência qualquer ao «Cântico negro» de José Régio, caramba, afinal existia ali uma intelectual. Comecei a achar que a minha presença incomodava o miúdo à paisana e vi-me embora, mas cheguei à conclusão que um dos problemas das praxes é o pessoal estar a dar espectáculo num espaço público e nem sequer existem espectadores, para além dos intrevenientes, ou seja, não estão habituados a serem observados por estranhos.