O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sábado, 30 de março de 2013

Natureza-Morta Social #35


Poema #102


monja d’escamas de prata participo de macumbas
noite adentro coxas afora ungida pela datura ferox
e pela navalha inox de algum bandido
numa cerimónia à falta de galinha propus o coração
do Paulo Coelho Exú zangou-se
- o coração desse nem deus o quer
quero o teu - Messalina!
emprestei-lho de bom grado
já que o meu estava na chuva
e o que usava era roubado
Exú entendeu e perguntou-me o que eu queria
- gostaria de desejar as estrelas
só para comê-las com chantilly
Exú riu e a caveira cantou e o mundo amanheceu
cheio de pássaros da gargalhada de Exú e do canto da caveira
e nas minhas coxas entornadas algumas estrelas
com chantilly

Artur Rockzane – “Soror Messalina: Datura Ferox”
Edições Quasi, 2001

sexta-feira, 29 de março de 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

Natureza-Morta Social #33


Primavera #4



O cantor lírico Peter Hofmann também interpretou obras muito pouco wagnerianas.

quarta-feira, 27 de março de 2013

terça-feira, 26 de março de 2013

Primavera #2


Poema #101

DIREITO À PROPRIEDADE


Sou contra a propriedade privada
há no entanto objectos que são mesmo meus
um garrafão de vinho sempre disponível
discos do Bach do Archie Shepp ou do Zappa
o «Pela Estrada Fora» do Jack Kerouac
as «Poesias» de Álvaro de Campos
o «Ulisses» do Joyce
o «Outono em Pequim» do Boris Vian
o «Eros e Civilização» do Marcuse
a «Apresentação do Rosto» do Herberto Helder
os «Trópicos» do Henry Miller
o «Diário de um Ladrão» do Genet etc. etc.
sobretudo sobretudo
os 3 simpáticos companheiros
que tenho no meio das pernas.

Levi Condinho


segunda-feira, 25 de março de 2013

Poema #100


AGRADECEMOS

Agradecemos
em júbilo pela oportunidade que nos deram,
estamos reconhecidos aos donos da vida.
e em romaria lhes beijaremos os anéis
nos altares onde estiverem.
nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.

aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho,
aos que nos entusiasmaram encorajaram enrabaram e
aos que ainda estão para vir

agradecemos,
a colaboração
ao haxixe de marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína

que casa com o cowboy
lá para o fim do filme

agradecemos
ao fim do filme
por ter acabado
às sombras da tarde
por fazerem sombra à tarde
aos caminhos d'aldeia
por cheirarem a merda de vaca
ao senhor padre por ser virgem
nem ele sabe a importância que isso tem
nós também não

agradecemos
ao white horse
royal label
aos pudins flan
os maravilhosos momentos proporcionados

à nossa namorada
as incontáveis fodas
e as que demos sem contar

à mulher-a-dias
pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
pela afeição com que nos viu crescer
pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada

agradecemos
ao presidente da câmara
ter perdido as autárquicas
aos partidos no poder
e aos que ainda nos hão-de vir foder
às sogras tios e primos
a paciência de serem há tantos anos da família

agradecemos
ao sol da praia aos pardais ao ar lavado
e a todos os outros heróis mortos em combate
e imortalizados amortalhados em grandiosas estátuas
muros de betão

agradecemos
aos morcões e aos estúpidos
trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
a beleza com que são horríveis
é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim

agradecemos
à dor aos sofrimentos inúmeros com que bordamos os nossos dias
porque nosso será o reino dos céus
aos ladrões e às putas
aos corcundas aos paralíticos
pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
por exibirem conceitos tão próprios de vida

e juramos
passar a cumprimentar toda a gente
estar infinitamente gratos
infinitamente gatos
piolhos porcos morcegos
infinitamente coisos despidos ao frio
vestidos ao sol
saias casacos camisas gabardines de vénus
tanta roupa tanta sobre chãos
corpos galácticos

juramos
estar infinitamente gratos
a todos os casais felizes
uniões duradouras bodas de prata
por demonstrarem o conceito da felicidade emparedada
o valor da paciência
o infinito do esforço


agradecemos
à arte à ciência à história à sociologia
à política à religião
darem emprego a tanta gente

agradecemos
à tecnologia aos motores
pelo mesmo motivo
às fábricas aos computadores
idem
e a tudo quanto faça barulho cheire mal
foda a vegetação os rios os sóis a aragem
porque inevitavelmente somos a favor de uma poluição avançada,
não dessa como nos países de terceiro mundo que é feita
de gente magrinha
feia de ver.

Defendemos uma verdadeira poluição
pesada d'acordo com os padrões europeus

agradecemos
à tropa,
verdadeira escola d'homens
e à escola
tropa de meninos

agradecemos
a cristo marx reich
pela inutilidade prática das suas demonstrações
e agradecemos a todos quantos
fizerem demonstrações cheias de inutilidade prática
terem tido tanto êxito

não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
já lhes basta a infelicidade de serem teóricos
de se esquecerem de comer
tudo a bem dos teoremas teóricos
explanações metafísicas
conceitos epistemológicos

não podemos claro deixar de
sentir ternura pelos nosso teóricos

agradecemos
às entidades divinas
a força que nos dão
a garra o querer e o tesão

e agora não agradecemos a mais ninguém
porque vamos comer um bom bife
talvez devêssemos agradecer
à defunta vaca


porque sempre em tudo o que façamos
sem dúvida contraímos
obrigação de comer um bom bife
e foder uma garrafa de verde
o que é um acto poético
de incomensurável estética.

João Habitualmente In "Antologia poética - Carnaval poético"

domingo, 24 de março de 2013

Dia-a-dia #178

O Festival Mal Dito que está a decorrer em Coimbra desde 21 de Março e encerra hoje, nasceu da vontade de um grupo de amigos há um mês atrás, que sem apoios intitucionais se reuniram para concretizarem diversas acções em torno da poesia na cidade. Participei nele  numa sessão intitulada "Olhos e Vozes" na Livraria/alfarrabista do Miguel de Carvalho, ao lado de José Geraldo  e do professor Osvaldo Silvestre. Quando a Sandra Cruz me telefonou recentemente a convidar para fazer uma apresentação sobre a Poesia Experimental Portuguesa (1964-1974), respondi-lhe: O quê? Nessa cidade onde recentemente levei uma "facada"? É claro que vou!
Nem pensei duas vezes. Lá reencontrei a Sandra, o Manuel A. Domingos, a Maria Sousa, o Carlos Veríssimo, o Carlos Júlio do núcleo duro do evento. Aconteceram muitas coisas: homenagearam os poetas Rui Costa e Manuel António Pina, algo que não assisti infelizmente, porque estava na livraria a preparar a minha sessão, mas estão aqui as fotografias do Carlos Júlio, que registou o Isaque Ferreira a dar voz ao momento - que pena não terem som. Só à noite conheci o Isaque na sessão " Poetas não ditos" e tenho até dificuldade em descrever o momento: o Isaque trazia duas malas antigas e deu voz como ninguém a poetas pouco "ditos", trazia edições raras naquelas malas, alguns nomes conhecia como Isabel Meireles, Pedro Oom, João Habitualmente, Joaquim Castro Caldas, outros não os fixei, como um poeta que ele intitulou de punk e era totalmente a abrir, outros fixei o nome que desconhecia como Levi Condinho, o "beat" português de Alcobaça. E só pensava, a poesia portuguesa viaja naquelas malas e reencarna no Isaque com uma intensidade indescritivel. Mais tarde ele dizia-me, precisamos de poetas assim, que nos batam. Eles existem, e ainda bem que estão vivos na voz do Isaque.
 No dia seguinte, tive o prazer de contemplar ao vivo as nuvens do céu de Coimbra, na  janela da casa do meu anfitrião, enquanto ele me descrevia a construção  dos vários prédios desde os anos 70 naquela mata: ali estava a prova de como o Portugal rural passou para o audiovisual sem nada pelo meio. Depois assiti a uma peculiar aula de "pusia" que a Sandra Cruz nos deu em sapatos pinky. No intervalo a Maria Sousa mostrou-me uma gravação da Irmã Lúcia  a cantar,  parece que saiu num CD aqui há uns anos atrás no Correio da Manhã, fiquei comovida, era o som da eterna infância, talvez o verdadeiro terceiro segredo de Fátima. Só a Maria sabe destas coisas. O Isaque nem queria acreditar naquela música infantil sobre pintainhos, acho mesmo que ia entrando em transe, só perguntava: ela disse BICO?
 Depois reunimo-nos   em torno da causa Angye Gaona, jornalista e poeta colombiana que neste momento se encontra na prisão e sem julgamento, acusada injustamente de tráfico de droga. O único crime que ela cometeu foi  defender os presos políticos na Colombia. Miguel de Carvalho e Margarida Vale Gato leram os seus poemas, circulou uma carta para assinar e enviar aos magistrados daquele país. Seguiu-se uma sessão sobre poesia de intrevensão com Luís Quintais, Margarida Ferra e Margarida Vale de Gato. Ao meu lado, durante a sessão a Ana Salomé relatou-me factos sobre um passado recente e fomos reflectindo  sobre como estaremos a ser silenciados agora, ou como nos poderão silenciar de futuro. Seguiu-se uma homenagem a Al Berto e apresentação do livro"Cronos decide morrer, leituras do tempo em Al Berto" de Golgona Anghel, com António Guerreiro, Diogo Vaz Pinto, David Teles Ribeiro e a autora do livro, no espaço peculiar e sempre acolhedor que é a livraria do Miguel de Carvalho. Depois, com muita pena, tive de voltar para Lisboa. No caminho pensava: em todos os eventos a que fui havia público. Existem pessoas vivas que se reunem para partilhar estas coisas que aparentemente não servem para nada. Ou se calhar são estes momentos que dão sentido à vida, porque é muito bom estarmos vivos assim. E tudo começou com um grupo de amigos que se reuniu em torno da poesia e organizou o Mal Dito em Coimbra num mês. Em tempos de crise, com o mundo como está, temos de nos reunir mais vezes nestas partilhas, o mundo necessita agora mais do que nunca. Temos de estar vivos. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia-a-dia #177



Parece que hoje inaugura oficialmente a nova temporada em matéria de lírica, mas aqui a marciana está pouco virada para o assunto.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Dia-a-dia #176

Aqui está um sítio onde gostaria de ir: Cape Point na África do Sul, local onde se encontram os Oceanos Índico e Atlântico.
 

domingo, 17 de março de 2013

Festival Mal Dito




Ora bem, no dia 22 de Março às 16h30m lá estarei em Coimbra a falar na Livraria/Alfarrabista do Miguel de Carvalho no  Adro de Baixo nª6 (é fácil lá ir, fica na Baixa).

Dia-a-dia #175

E hoje sonhei que estava a jantar com um imbecil que conheço, mas nunca iria jantar com ele na realidade. O idiota queria impressionar-me, então, pediu marisco e nem se aprecebia que nem sou apreciadora. Entretanto, na mesa tinha já quatro copos com vinhos diferentes para provar. O homem falava sozinho para variar, que é um pavão daqueles, adora ouvir-se e nisto reparo que estava tudo trajado de modo formal, mas muito piroso, ele muito direitinho e bem fardado. Eu ali a gozar a pratinho com os meus copinhos de vinho. O resto nem conto, foi demasiado absurdo, mas acordei muito bem disposta.

sábado, 16 de março de 2013

Dia-a-dia #174

Eu e a gata Lua ficamos doentes ao mesmo tempo, mas de forma diferente: a Lua à conta de uns micro-parasitas que lhe provocava anemias e problemas respiratórios, andou a antibiótico e ao ficar boa começou a engordar. Aqui a desbocada com os tratamentos hormonais, mais a facada e pós-operatório também está mais rechoncha. E com a lesão nas cordas vocais, à conta dos medicamentos para o estômago ficou cheia de apetite. Mas isto vai ter de acabar: eu e a Lua vamos fazer dieta, porque já cheira a primavera. Vamos ver quanto tempo aguento.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Dia-a-dia #173



Estou à espera que venha cá para fora este CD pela pequena amostra vale a pena.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Dia-a-dia #172

Depois me explicarem o que foi a casuística em Sto. Inácio de Loyola, que implica uma auto-análise com as atenuantes contextuais, entrei numa pastelaria de Lisboa. Reparei então que existem dois tipos de jesuitas: uns mais simples, outros cobertos de amêndoas e recheio com gila. Pedi o mais complexo, a menina do balcão ainda me perguntou se o queria cortado ao meio, respondi logo que não. Não se deve ir  directamente ao recheio, é melhor começar pelas pontas e comer devagarinho. Assim foi e  nem consegui beber café. Só mais tarde fiquei a saber que afinal no meu estômago se encontrava um americano, porque os simples  são os verdadeiros jesuitas, ou seja, os que têm uma crosta de açucar por cima.

Te Deum - Arvo Part

http://www.youtube.com/watch?v=mD3tRr2CkDo

http://www.youtube.com/watch?v=WtzF5De9rbc

http://www.youtube.com/watch?v=Jwc065aGVWA

quarta-feira, 13 de março de 2013

Dia-a-dia #171

Ultimamente tenho-me lembrado desta feliz VIAGEM Big Ode#2 realizada em 2007, com o Rodrigo Miragaia e a Sara Rocio, partilhada com outros amigos. Recentemente reencontrámo-nos com os Ventilan na Livraria Sá da Costa aqui em Lisboa. Tenho-me lembrado também desta viagem,  por andar de novo a apanhar comboios de um lado para o outro. As  circunstâncias agora são bem diferentes, mas a partilha feliz de certos momentos está presente e dá-me força para as novas viagens que estou a realizar.  

terça-feira, 12 de março de 2013

Dia-a-dia #170

E ontem o Paulo Tavares confirmou: ele tinha-me dito " Faz da tua dor uma arma" e aqui a chéché fixou " A minha dor é uma arma". Deve ser da anestesia geral que levei em Dezembro. Entretanto, neste GABINETE DE CURIOSIDADES  descobri a bola da felicidade da Múmia de Sta. Comba Dão.

Poema #99

Para chegar a gostar de tudo
não queiras ter gosto em nada.
Para chegar a saber tudo
não queiras saber algo em nada.
Para chegar a possuir tudo,
não queiras possuir algo em nada.
Para chegar a ser tudo
não queiras ser algo em nada.

Para chegar ao que não gostas,
hás-de ir por onde não gostas.
Para chegar ao que não sabes,
hás-de ir por onde não sabes.
Para chegar a possuir o que não possuis,
hás-de ir por onde não possuis.
Para chegar ao que não és,
hás-de ir por onde não és.

Quando reparas em algo,
deixas de atirar-te ao todo.
Para chegar de todo a tudo,
hás-de afastar-te de todo em tudo.
E quando chegues de todo a ter,
hás-de tê-lo sem nada querer.

Quando já não o queria,
tenho tudo sem querer.
Quanto mais tê-lo quis,
com tanto menos me vejo.
Quanto mais buscá-lo quis,
com tanto menos me vejo.
Quanto menos o queria
tenho tudo sem querer.
Já por aqui não há caminho,
porque para o justo não há lei
para si ele é a lei.

S. João da Cruz - " Poesias completas" (tradução de José Bento). Lisboa: Assírio & Alvim, pp.89-91.

http://www.youtube.com/watch?v=oSGZaQG4ya0&feature=youtu.be

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sou fã dos Ventilan

http://www.youtube.com/watch?v=eaATVc4bUjs&feature=youtu.be

Dia-a-dia #169

E ontem voltei aos ensaios, é tão bom poder cantar novamente e graças aos medicamentos até já tenho agudos!

domingo, 10 de março de 2013

Dia-a-dia #168

 

Urinol da Múmia de St.ª Comba Dão

Pode ver mais neste GABINETE DE CURIOSIDADES

 
 
 


Poema #98

CAMINHOS E CONCLUSÕES

O poeta sentado
observa
o seu umbigo

Vê como
é perfeito

O poeta retira
do umbigo
o cotão
que se acumula

O poeta forma
entre o polegar
e o indicador
uma bola
com o cotão

O poeta aprecia
a sua criação

considera-a única

perfeita

manuel a. domingos - "Teorias". Coimbra: Edição do autor, 2011.

O Manuel ofereceu-me este livro, estava eu a acordar na enfermaria em Coimbra, acabada de levar a  "facada" no dia 5 de Dezermbro. Como é um pequeno livro com poemas depurados e muito condensados, foi a única coisa que consegui ler durante  essa minha experiência de combate, talvez porque o tramal me deixava desconcentrada. Se bem me lembro, foi perigoso para a costura, porque não me podia rir, nem tossir ou espirrar. É um livro que vou voltar sempre a ler, não por estar associado a essa experiência, mas porque volta e meia, os poemas surgem na minha cabeça, talvez devido a estímulos das condições agreste no dia-a-dia. Agora já posso rir, tossir e espirrar à vontade.

sábado, 9 de março de 2013

Poema #97

SERREI A MACIEIRA AO PÉ DA JANELA

Olav H. Hauge, in Ask the Wind (1971)

Versão de Henrique Manuel Bento Fialho AQUI

Dia-a-dia #167

E numa rua escura do Porto, uma velhota veio ter comigo e disse-me: sabe, eu durmo na rua, mas peço sempre para ir à casa de banho num café, não sou como muitos que andam por aí.
Parei de andar, confirmei que entendera acenado com a cabeça, mas de seguida,  ela virou-me as costas e prosseguiu o seu caminho, continuando a falar noutra direcção, apesar de só eu e ela estarmos naquela rua triste e fria.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Poema #96

Esta Gente / Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades”

quarta-feira, 6 de março de 2013

Dia-a-dia #166

E hoje acordei às 7h da manhã com o coração nas mãos: uma vizinha buzinava continuamente na rua, estava  furiosa por causa de um carro estacionado em segunda fila. Aquilo foi insuportável, volta e meia parece que a buzina reaparece enquanto estou aqui a escrever.

terça-feira, 5 de março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

Dia-a-dia #165


 

"Rio
e escrevo nas paredes a giz:
FAZ DA TUA DOR UMA ARMA
para sofrer menos.
Covarde."


José Gomes Ferreira

domingo, 3 de março de 2013

Poema #95


Ouve, Poeta Romântico:

Como queres que compreenda a tua dor de incompreendido
Se nunca deitei fogo aos problemas
Para fugir da terra
Num cavalo de asas de fumo?
Nem nunca pairei sobre os homens
De ouvidos tapados
Para ouvir melhor dentro de mim
As lágrimas das sereias
A insinuarem-me ilhas pessoais
Nos berços aéreos das manhãs de sal?

Como queres que entenda o teu desamparo de herói caído
Se nunca andei pelo céu
Com pés de estrelas…
Nem nunca desci à Terra como tu
Para completar a paisagem com os olhos…
Ou dar aos escravos
– A pobre - carne - de - viver dos escravos! –
A glória de comungar de joelhos
A aristocracia da minha dor
– Do tamanho de uma cidade forrada de pele humana
Com ruas calcetadas de olhos tristes?

Não poeta romântico.

Cairia morto de vergonha
Se vagueasse pelo mundo
A enxugar lágrimas de pobres
Com lenços de nuvens.

E desceria à fundura
Da raiz mais oculta dos frios
 e não fosse igual a todos
Menos a mim mesmo.

E cegar-me-ia com unhas
Até ao silêncio das imagens
Se passasse como tu os dias e as noites
A mirar-me ao Espelho
Para ver o meu Esqueleto genial
Dependurado com flores
Entre a Terra e o Céu
Num balouçar de Deus
Que não se resigna às pedras nem às nuvens…

-Enquanto no Inferno da vida
 Os outros esqueletos
Atiram pazadas de carvão
Para as fornalhas das máquinas
Que brincam o fumo
Onde os poetas desenham quimeras de desdém.

Não poeta romântico.

Eu nasci para cumprir outro destino mais novo.
Ser homem apenas sem sangue excepcional
A arder no desejo absurdo
De andar pelas ruas
Vestido de vidro
Para que todos possam ver na minha alma
A dor comum finalmente revelada!
E os sonhos de todos com terra!
E a fome sem estrelas!
E a cólera sem travões!
E a morte sem anjos!
E a revolta sem bandeiras!
E o sol com sol!

Não poeta romântico.

Como queres que compreenda a tua dor de incompreendido
Se só entendo os homens
Quando choram lágrimas de terra?

(E nem me entendo a mim?)

 

José Gomes Ferreira


 

Dia-a-dia #164








E não podia cantar, nem gritar na manif por causa do raio da faringite. Não fui a única que ali estava em silêncio, senti muitos silêncios. Vi brilho a iluminar a dor em olhares na direcção do meu cartaz. Apesar de ser a maior manifestação em que participei, estou triste.


No Público de hoje, em papel claro, a reportagem " A minha dor é uma arma" de Paulo Moura: «De início, Maria João A-minha-dor-é-uma-arma não queria responder a nenhuma pergunta. Nem queria dizer o nome. "Desconfiança", explicava. "Tenho uma laringite, não posso falar", justificava-se. Como se tivesse já esgotado a tolerância para mais algum pedido, mais alguma interpelação. A certa altura voltou-se para o repórter com os olhos a faiscar e perguntou: "O que me quer impor?" Eram apenas algumas perguntas sobre a manifestação, a recolha de um depoimento para a reportagem, mas ela não via as coisas assim, estava com vontade de provocar, e repetia, o olhar fixo e desafiador:" O que me quer impor?"»

sábado, 2 de março de 2013

Dia-a-dia #163



E ontem lá fui a uma consulta de urgência ao Hospital, a minha médica diz que estou com uma faringinte de origem alérgica  - raios parta os plátanos, árvores maravilhosas cujas folhas  me fazem sofrer, mais as penas dos patos e outras aves, devem ir para os filtros do ar condicionado da Biblioteca do petrólio divino, não posso fazer nada contra isso e também sou bicho, é caso para dizer que o belo  pode fazer mal. Fiz ainda um exame às cordas vocais e aquilo é horrivel, se pensam que são cordas de violinos, não, parecem dois bocados de carne de frango. E como  está com refluxo gástrico por todo lado, não posso fazer o concerto este domingo no CCB e agora pareço uma farmácia ambulante. Mas vou para a Manif, não posso gritar, não posso cantar, vou em silêncio e levo um cartaz com um verso de José Gomes Ferreira: " A MINHA DOR É UMA ARMA".

Fotografia de Sara Rocio no dia 21-09-2012.

Natureza-Morta Social #31


sexta-feira, 1 de março de 2013

Dia-a-dia #162

E lá sonhei com as ruas de Évora, novamente, acordei toda suar, acho que tive febre esta noite por estar péssima das alergias – ontem nem fui ao ensaio, doía-me imenso a garganta, mas só estava inflamada. Tudo me surgiu em flashes na cabeça quando acordei, as ruas, encontros com o passado e livros, livros perdidos, que alguém tinha guardado um livro que deixei em Évora em 2004; lembro-me das imagens de um dos livros, estavam relacionadas com os diários que fiz no passado, mas eram diferentes, vi os movimentos das páginas, acordei com elas ainda em movimento. Tentei fazer uma sequência lógica do que tinha sonhado, mas não consigo apanhar o fio da meada, apenas me surgiu um encontro com alguém de quem me recordava da cara, e de me perguntarem por pessoas do meu passado e eu respondia quando conhecia alguma. Daí para as ruas de Évora ainda consigo ir, agora os livros, de onde vieram os livros?