Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sábado, 26 de junho de 2010

Dia-a-dia #82

Sonhei que estava na praia da Nazaré, local onde não vou na realidade desde os meus 7-8 anos de idade. Nisto, a minha irmã arquitecta comenta que toda a região tinha sido alvo de construções desordenadas e aponta para umas rochas, onde vejo edifícios rebatidos sobre elas, como se as rochas se tratassem de superfícies topográficas: a proliferação de construções era de facto impressionante. Depois, saí da praia para ir ter com uma prima que estava a tomar conta da Lua e lá a encontro, no meio de muita gente: quando chego ao pé delas, a Lua salta-lhe dos braços e em vez de vir ter comigo, fica agrofóbica, começa em pânico a caminhar em posição de ataque, com a barriga junto ao chão, e esconde-se debaixo dos carros estacionados junto ao passeio. Acordei a chamar pela Lua, que estava a fixar-me de lado ao meus pés e fiquei descansada. Mas não paro de me lembrar da imagem das construções nas rochas, era impressionante.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Poema #62


António Aragão, extracto do livro " O Elogio da Loura do Ergasmo Nu Atlânticu" (1983) in AAVV "Poemografias". Lisboa: Ulmeiro, 1985

sábado, 19 de junho de 2010

Poema #61

O ECO

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "onde? onde?"

O menino também lhe pede:
"eco, vem passear comigo!"

Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"

Cecília Meireles

quinta-feira, 17 de junho de 2010

no sitemeter #62

Eco
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Alguém chegou a esta casa no tempo procurando ano na cabeça de uma jovem mulher Federico Barocci e encontrou eco

terça-feira, 15 de junho de 2010

Dia-a-dia #81

Não sabia, Belo em grego diz-se Tokalon. Em português da minha geração Tokalon era uma linha de cosméticos dos anos 60/70, havia cremes depilatórios com este nome; logo se alguém diz esta palavra não posso levar a sério, nunca irei pensar em erudição, porque começo a ver um reclame antigo a preto e branco, lembro-me do cheiro do creme depilatório e dá-me vontade de rir.


sábado, 12 de junho de 2010

Eco sitemeter #3

Alguém chegou a esta casa no tempo à procura eco textos e encontrou A casa escreve-me descrevendo , por isso, achei que deveria escrever um eco texto:

ECO TEXTO

A casa escreve descrevendo-me: as paredes amarelecidas pelo tempo foram pintadas de branco, permanecendo as amarelas camadas de memória invisíveis; cada paixão em cada camada de tinta nestas paredes, sei que elas existem e o branco tapa-as reflectindo a presente luz natural. A minha casa continua a ser uma conquista no tempo, mas os seus espaços foram invadidos por outras circunstâncias; o tempo continua a consumir as suas paredes e vai-me consumindo como Cronos devorou seus próprios filhos. O restauro foi eficaz, não apagou tudo e o esquecimento foi necessário em matéria de sobrevivência; agora, as paredes brancas criam ressonâncias, dando origem a um eco texto. Ocupo um pequeno território nesta casa e habito bibliotecas grande parte dos meus dias. As paredes da casa no tempo têm os mesmos rastros, preenchidos com os meus artefactos antigos, são as janelas do passado, mas entretanto foram abertas novas janelas; o chão de madeira, os frisos geométricos junto ao tecto continuam e a casa tornou-se um porto de passagem nocturno; aqui regresso para descansar sem grande sossego. Os meus papéis e livros amarelos estão sempre presentes e também há novos livros novos papeis, que deixam de ser brancos; e não apenas aqui à minha volta, saem à rua, vão e voltam comigo. As chaves de casa, antes de sair procuro-as sempre, ou estão na cozinha, ou estão na sala, ou no quarto, ou na marquise, é sempre a mesma coisa, tenho de as encontrar para poder sair e voltar à casa. As chaves obrigam-me a percorrer todo o espaço antes de sair. Nunca sei onde estão os óculos, se não os deixo no nariz ou ao lado do computador, repete-se o ritual da ronda à casa, à casa de banho, à cozinha, ao quarto, à sala. Não me perco nisto. A casa esconde-me as coisas, as canetas, os lápis, os cadernos, os livros, os sapatos, mas não se apodera de mim de forma alguma, porque o tempo decorre para além do espaço das suas janelas.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

No sitemeter #61

Eco
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Alguém chegou a esta casa no tempo procurando ilustração do poema eco e encontrou eco

Eco sitemeter #2

Estava agora a ver que vieram cá parar à procura de porque meu cão reconhece meu assobio e encontraram outra coisa ; neste título enganei-me e escrevi no fio de Ariadne, já nem sei porquê, depois corrigi, mas foram parar a um conto da planície. Não era o do Eco, não escrevi mais nenhum para além desses dois. Também aqui vieram parar à procura de texto dialogado sobre planície encantada e encontraram um texto insone que era sobre o desejo de conhecer Berlim. Colocam-se palavras na máquina que procura textos com essas palavras. Mas são as pessoas que colocam os dados na máquina e depois vão parar a alguma coisa que se calhar interpretam. Ando a tentar entender isto ou vou tentar interpretar, pode ser que encontre o fio de Ariadne.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Poema #60


Mário Cesariny, " O Homem Mãi" in E.M. de Melo e Castro, "A Proposição 2.01". Lisboa: Editora Ulisseia, 1965.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

CoroInfantilUniversidadeLisboa.wmv

Eco sitemeter #1

Eco sitemeter para ser arte contemporânea, seria sitemeter apenas, porque já não existem títulos portugueses actualmente. Acho que a única língua universal é muda, não é o inglês, muito menos a gestual que está codificada; estava a falar de imagens, onde realizei a minha (de)formação. Daí estar aqui a esforçar-me em matéria de português, a fazer barulho na língua com que nasci; tenho má formação em português, o espanhol meteu-se a meio, odiei o francês imposto na adolescência, depois o inglês pareceu-me muito fácil ao pé disto, mas também não aprofundei o assunto; nesta altura já me tinha apercebido que a gestual também estava codificada, o que nem sempre é agradável. As coisas agradam quando surpreendem no bom sentido, de resto são padrões ou impostos; a maior parte das vezes são gato por lebre, mas prefiro pensar ao contrário, lebre por gato porque os gatos são seres superiores. As lebres estão sempre a correr, ninguém as apanha. Se vou na rua e vejo um gato, paro logo para o cumprimentar, o mesmo não posso dizer em relação às pessoas que encontro na rua, a maior parte das vezes não me apetece cumprimentar, muito menos parar. Os gatos e os seus miados fazem-me parar por uma questão de respeito, algumas pessoas também, mas são poucas.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Leituras #25

TEXTO PARA A GÉNESE DO EROS FRENÉTICO

Dantes eu era um escritor tão ingénuo que quando queria dizer porta escrevia a palavra porta. Felizmente com o decorrer do tempo tornei-me um escritor avisado e hoje quando quero dizer porta escrevo o gato mia.
Essa é a génese do eros frenético.
O que eu quero dizer é que o equívoco foi sempre o contrário da polifonia, isto é, que o prazer é uma perversão, uma deturpação do sofrimento. Porque eu nunca digo o que quero. Sou uma outra espécie de licencioso: como não digo o que quero, digo o que não quero.
Essa é a génese do eros frenético.
Alguns críticos muito ilustrados ainda hoje chamam a isso inspiração. Estão ainda muito ligados aos problemas respiratórios. Para mim esse problema deixou de ter importância porque o meu sistema respiratório é automático (não é verdade que só fazemos bem aquilo que fazemos automaticamente?). Esse problema da respiração – inspiração/expiração – para mim está definitivamente resolvido: sou um mecanismo avisado e por isso conheço a força da recusa.
Essa é a génese do eros frenético.
Os meus colegas meus contemporâneos entram em estado de agonia por estarem constantemente com a cabeça para baixo construindo os seus pedestais e como desde logo se colocam em cima de eles custa imenso continuar o trabalho. Alguns acrescentam-lhes elaborados ornamentos o que complica a posição e a expositura. E depois andamos todos a tropeçar nesses moldes que ficam pelo caminho. Eu principalmente. Porque não me resigno. Estou sempre a andar. Tenho essa erótica. Bato à porta dos amigos e pergunto: diga-me por favor se está ai o meu ombro esquecido. Ao que eles: esta pequena está cada vez menos espirituosa. Isso delicia-me. Tenho essa frenesia. Sento-me à secretária e trabalho na detergência morosa, minha obra-prima.
Sou como o/a filósof o/a celerad o/a.
Essa é a génese do eros frenético.
Mas isso foi há milhões de palavras. Agora produzo pensamento em palavras por segundo.
O que acontece entre nós é o não-acontecimento até à absurdidade. Às vezes penso que é fascinante viver num ambiente assim inconcebível. Mas na verdade gostaria de poder fazer qualquer coisa de radical uma detergência profunda ontológica a isto.
Porque do que todos gostam ainda é do poeta que diz «a tua boca é um sorvete de morango» ou «dos lupanares saem os devassos».
Que fazer perante as flâmulas do optimismo pueril desses devaneios de satírico e petroleiro (sic)? De facto a filosofia não nos descortina bons augúrios na vida.
Resta-nos apenas o raciocínio calmo e supicaz.
Essa é a génese do eros frenético.
A zombaria é evidente mas exprime a verdade. Sou apologista das sátiras dicacíssimas.
Mas nunca exagero. O máximo que eu digo é: não façam isso à vaca.
Sou portuguesa e o meu estilo é barroco. O barroco é um estilo ornamental oriundo no desgaste (é daí que vem a minha tese da detergência) ou na atribulada escrituração da ostra. Tanto é o estilo objecto para a escrita e pináculo da coluna vertebral uma cadeia de causalidades concatenadas produto de uma natureza transbordante. É por isso que o português se exprime na oportunidade do super-mercado.
Ainda há dias ouvi dizer a alguém: o que me vale é as coisas que eu não sei. E assim dizendo encolhia os apotécios. Não não basta que as coisas sejam verdadeiras também é preciso que sejam verídicas. Já Apolónio o Filomuso autor da Balança Intelectual criticava o Fulano Indiferente.
Mas eu não posso preocupar-me com tais trivia. Quando se atinge o nível da gargalhada reprimida começa a grande sabedoria.
Essa é a génese do eros frenético.

Ana Hatherly, A Maldade Semântica (1966-68) in “ Um Calculador de Improbabilidades”. Lisboa: Quimera, 2001. P-176, 177.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Dia-a-dia #80
















A Lua tem uma rica vida, também quero!

Leituras #24

a poesia começa onde o ar acaba. é qualquer coisa para depois da própria respiração. como o respirar é muito uma maneira nossa e (pré)-vista da condição humana a que somos condenados, a poesia surge a partir desta condenação. mais justo ainda, a partir de toda a condenação. deste modo, só nos resta a queda no irremediável: a vertigem sem apelo, o jogo sem olhos, a ausência impecável de nós. daí o repúdio ao lirismo e duma semântica convencionada à escala dos pessoais (des)gostos mais ou menos audíveis. daí a ambiguidade cómico-dramática em que nos assistimos. nenhuma ordenação é possível. nenhum suspiro pode já (co)mover. em vez de celebrar normas e preceitos que actuam na mediocridade da sujeição, procuramos, mais exactamente, descobrir o belíssimo caos de nós próprios. antes o indefinido que ser reduzido ao absoluto infrutescente da indefinição. antes o encontro com o desordenado, num conflito sem génese nem juízo final, para atingir o risco de estarmos livres mesmo no discurso do desentendimento. um poema deve ser usado como um instrumento feiticista e consome-se em si numa espécie de ludus encantatório. por isso se dão nomes à matéria: inventa-se e destrói-se para que ela viva a sua tremenda metamorfose, a poesia deve ser tomada por todos os sentidos: quando verbal não deixará também de ser contra o verbo. queremos uma poesia que não explique conteúdos mas forneça estados: donde uma linguagem negra, ausência de estilo e o ataque à fraude da limitação: poesia-contra, poesia-recusa-que-acusa, poesia contra o instituído, o legal, o ordenado e convencional. poesia liberdade por estarmos demasiadamente perdidos no cúmulo da condenação.
António Aragão, texto publicado no catálogo da exposição VISOPOEMAS (1965), na Galeria Divulgação em Lisboa.

domingo, 6 de junho de 2010

No sitemeter #60

Eco
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Alguém veio parar a esta casa no tempo procurando casadas e encontrou esta musa.


sábado, 5 de junho de 2010

Poema #59

Silvestre Pestana, " 4 verdades essenciais do homem do nosso século", 1972 in "Antologia da Poesia Concreta em Portugal" (org. E.M. de Melo e Castro e José Alberto Marques). Lisboa: Assírio & Alvim, 1973

terça-feira, 1 de junho de 2010

No sitemeter #59

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