Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Dia-a-dia #114

Hoje de manhã fizeram-me uma colonoscopia: correu tudo lindamente, foi com anestesia e sedação, estava a dormir. Lembro-me que quando acordei relatei ao médico que tinha sonhado que a gata Lua tinha a solução para a actual crise mundial - especifiquei que era a minha gata siamesa. Que moca, acordei mesmo bem disposta!

sábado, 21 de julho de 2012

Leituras #28


Antes de deixar Coimbra, primeiro para, no Porto, leccionar num liceu da cidade, depois, já professor efectivo, para ensinar português e francês no liceu Mouzinho da Silveira, em Portalegre, José Régio viveu, na Alta, não longe da Rua Larga, ao tempo a antecâmara da Universidade, num desses típicos becos coimbrões, chamado, não sei porquê, Rua das Flores. De facto, flores não havia por ali, por aquele bairro de calçadas esboroadas, e muito menos as havia na pensão habitada pelo poeta, onde se instalara a primeira redacção da presença. (Mais tarde, em minha casa, em Santo António dos Olivais, e, por fim, depois de um efémero rés-do-chão, para esse efeito expressamente alugado na Rua do Corpo de Deus, à Baixa, no Porto, em casa de Adolfo Casais Monteiro.)

A pensão da Rua das Flores, 37, que suponho lá estará ainda, senão como pensão, como república ou casa particular, era um prédio alto – três andares – , muito estreito, quase enviesado, com duas janelas de frente, em guilhotina, claro está, e com pouco fundo, espécie de torre por onde trepava uma escada íngreme, de degraus carunchosos, que era preciso subir com muita cautela, tal a sua inclinação.

Ali José Régio passou, creio, os anos da sua formatura, e ali permaneceu ainda, com quarto privativo, algum tempo depois, aluno da Normal Superior. Prendiam-no lá, além da dona da casa, que não cheguei a conhecer, a criada para todo o serviço, a Carlota, modelo do desenho que ilustra a capa do número 22 da presença (Setembro-Novembro de 1929). Esta Carlota, «a que ficou sem par», na legenda do esquisso que Régio me ofereceu, e ainda conservo, tinha pelo Zé-Maria uma dedicação de cadela, embora não poucas vezes lhe arreganhasse caninamente os dentes. Rebarbativa e terna a um tempo, a Carlota levava os dias a lidar e a praguejar. Algumas vezes, sentada à mesa do refeitório da pensão – em parte modelo também da pensão de D. Felícia do Jogo da Cabra Cega –, pude assistir às reprimendas que a Carlota se não escusava de lhe dar, e Régio como que espicaçava, enquanto ele e os demais hóspedes – uns quatro ou cinco, julgo lembrar-me – comiam a clássica sopa de couves das velhas pensões coimbrãs. Tão alheio a qualquer conceito de higiene era, por esta altura, o viver dos estudantes em Coimbra, que a pensão da suposta D. Felícia nem mesmo dispunha de qualquer rudimentar casa de banho – que digo?, não dispunha, sequer de um W.C. No sótão, esconso, de telha-vã, é que os comensais resolviam os seus problemas, e num mesmo vaso, um alto bispote, como então se chamava a essa espécie de tulha de barro, de proporções reduzidas, «sanita» comum. Aí, nesse sótão de telha-vã, W.C. da pensão da suposta D. Felícia, é que José Régio arrecadava as sobras da presença, antes do meu regresso a Coimbra. Ora como, ao tempo, a nossa «folha de arte e crítica» era impressa no tal papel acetinado, como que de farmácia, e a ruma de folhas se acumulavam, imprudentemente, não longe do tal vaso higiénico – ou anti-higiénico –, aconteceu o que era de esperar. Alguns dos comensais da suposta D. Felícia, para não irem mais longe, e à falta de papel higiénico, luxo então desconhecido em Coimbra, pelo menos na Coimbra dos estudantes, muito à vontade, na altura própria, deitavam mão aos números da presença, abertos no soalho, em folhas devidamente acamadas, completando com elas, graças à sua acetinada calandra, a operação que ali iam fazer, ao sótão de telha-vã. Assim rarearam, a partir de certa data, os exemplares da nossa folha. Creio que Régio não dera por isso. Só deram por isso os que depois – Branquinho e eu – chamaram a si a administração da revista. Já era tarde. Mal empregados, vendem-se hoje esses números a peso de oiro.
João Gaspar Simões – José Régio e a História do Movimento da “Presença”. Porto: Brasília Editora, 1977. pp.78-80.


Da esquerda para a direita: José Régio, João Gaspar Simões, Albano Nogueira, Fernando Lopes-Graça e Adolfo Casais Monteiro.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dia-a-dia #113

A minha irmã está preocupada com a hipótese de o número de gatos aqui em casa vir a aumentar. Acha que me estou a tornar numa excêntrica que apenas vive feliz em companhia felina

terça-feira, 17 de julho de 2012

Dia-a-dia #112

Ontem já muito tarde, depois de estar todo o dia fora, apareceu o gato Sunny muito mal disposto na porta do quintal: ele entrou e dirigiu-se à caixa de areia, reparei que não conseguiu urinar. Deitou-se e refilou com miados doloridos. Já era uma da manhã, acordei a minha irmã, coloquei-o na transportadora e fomos bater à porta da dona. A minha irmã revoltada, achava que ninguém me abria a porta, mas afinal lá apareceu a Ângela e também duas gatinhas bebés muito fofas. O Sunny entre o aflito e o zangado. O gato anda a embirrar com as gatinhas, por isso se passou para o outro lado do quintal e está sempre em minha casa. A Ângela lá me explicou a situação, que ele tem tendência a ter problemas urinários e que por isso come uma comida especial. E tinha tentado apanhá-lo  com as filhas, para o levarem ao veterinário, mas ele fugiu. O Sunny bufava ao colo da dona. Como sei que vão mudar de residência daqui a três meses, ainda lhe perguntei se não queriam deixar-me o gato e ouvi logo um NÃO. Bem, agora não o devo ver durante uns dias.

sábado, 14 de julho de 2012

Poema #85




RESPOSTA DA QUINTEIRA


Mote

Fui apalpar os tomates
Que tinha o meu hortelão,
Mostrou-me o nabal que tinha
Meteu-me o nabo na mão.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
Tenho terra para cavar,
Gosto sempre de apalpar
Se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
Não são nenhuns disparates;
Enchi alguns açafates
De tomateiros de cama,
Depois de apalpar a rama
Fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
Nascem por dentro e por fora,
Semeiam-se a toda a hora
Dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
Dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
Dão-me as ramas pelos joelhos
Que tinha o meu Hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
Faz andar a gente louca,
Faz crescer água na boca
E a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos
Tem hortaliça fresquinha;
No vale da carapinha
Tem um tomateiro macho,
Abriu-me as porta de baixo,
Mostrou-me o nabal que tinha.


Tinha grelos e nabiças,
Tinha tomates graúdos
Tinha nabos ramalhudos
Com as cabeças roliças
Tão brilhantes hortaliças
Meteram-me tentação;
Era franco o hortelão,
Deu-me uma couve amarela
Para me dar gosto à panela,
Meteu-me o nabo na mão.

António Maria Eusébio (Calafate) (1820-1911)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Dia-a-dia #111



Hoje o céu está enublado, mas o gato Sunny está aqui de visita.

sábado, 7 de julho de 2012

Poema #84



BALOFAS CARNES


Balofas carnes de
balofas tetas
caem aos montões
em duas mamas pretas
chocalhos velhos a
bater na pança
e a puta dança.

Flácidas bimbas sem
expressão nem graça
restos mortais de uma
cusada escassa
a quem do cu só lhe
ficou cagança
e a puta dança.

A ver se caça com
disfarce um chato
coça na cona e vai
rompendo o fato
até que o chato
de morder se cansa
a puta dança.

Os calos velhos com
sapatos novos
fazem-na andar como
quem pisa ovos
pisando o par de cada
vez que avança
e a puta dança.

Julga-se virgem de
compridas tranças
mas se um cabrito
de cornadas mansas
abre a carteira e
generoso acode
a PUTA FODE.

António Botto

quinta-feira, 5 de julho de 2012

dia-a-dia #110


Afinal o gato Sol chama-se Sunny, que significa soalheiro, luminoso, cheio de sol, brilhante, radioso, dourado e risonho. Não se chama Tanny como me havia dito a vizinha Luzinha. Fiquei hoje a saber o seu nome ao falar com a dona no quintal, enquanto o convencia a ir para casa, que é do outro lado. Esta paixoneta entre o Sunny e a Lua já dura há três meses. A dona queixou-se que ele só aparece em casa de manhã, porque gosta de apanhar sol no pátio junto aos quintais. Agora estes dois vão-se separar durante uma temporada: a Lua está com uma inflamação pulmonar e ele também vai amanhã ao veterinário, anda aos espirros, mas é mais resistente. Ontem a Lua estava com febre e o Sunny não saía de ao pé dela, muito preocupado. A ver se ficam os dois bem de saúde para poderem brincar novamente.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Poema #83

segunda-feira, 2 de julho de 2012