Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

domingo, 16 de dezembro de 2012

Dia-a-dia #140


 

Como hoje é domingo, vou falar-vos de um dos anjos com que me cruzei no hospital, onde fiquei recentemente internada em Coimbra. Era uma auxiliar de idade indefinida, andava entre os trinta e os quarenta, mas havia algo de infantil nela, no seu sorriso doce e nos olhos verdes muito brilhantes. Tinha também um modo especial de lidar com as anciãs que estavam internadas naquelas enfermarias, sobretudo com os casos difíceis. Chamava-se Clara. Ela começou por se meter comigo por causa das minhas pantufas, que são uns croques vermelhos felpudos. Ora, nos hospitais toda a gente trabalha de croques e ela achou imensa piada à versão confortável que eu tinha nos pés. Eu lá lhe contei que os tinha arranjado numa loja em Lisboa, que tem uma vaca enorme à porta. Encontrava-a sempre no corredor das enfermarias, normalmente, a transportar alguma anciã em cadeira de rodas na direção da casa de banho, sempre na brincadeira com elas e a animá-las, uma maravilha. Como no hospital tudo estava bem aquecido, andava por lá de pijama, não era necessário colocar o robe. Mas quando comecei a dar umas escapadelas lá fora para fumar cigarrinhos, colocava o meu robe vermelho com capuz, que é bastante quente. A primeira vez que a Clara me apanhou nessa figura, meteu-se logo comigo, perguntou-me onde é que eu ia tão chique, com um robe a condizer com os croques. Respondi-lhe que ia lá fora fumar um daqueles cigarros que sabem a ar e que tem 0.1 de nicotina. Ela riu-se e comentou que não percebia nada de cigarros, mas se eram daquele muitos fininhos me ficavam bem, porque eram parecidos aos que as senhoras fumavam nos filmes antigos. Voltando ainda ao facto de este anjo animar as difíceis anciãs, na véspera da operação, à noite fizeram-me uma preparação para limpar o intestino e andava eu no corredor às voltas há espera de efeitos, quando passou a Clara com uma anciã de cadeira de rodas. A anciã com uns olhos muito vivos começou logo a meter-se comigo, a mandar bocas do estilo: então, anda aqui a fazer ginástica a essas pernas? Ao que respondi, que andava às voltas a ver se funcionava. A Clara abanou a cabeça e comentou que ela não ouvia e depois gritou-lhe: ELA ESTÁ A VER SE CONSEGUE FAZER COCÓ e foram as duas embora a rir à gargalhada.

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