Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dia-a-dia #139


A principal diferença de uma operação num hospital privado ou num público é que no segundo ficamos numa enfermaria. De resto, como podem verificar nos meus anteriores relatos, estão de volta de nós pessoas competentes e infelizmente também podemos ter o azar de nos cruzarmos com algum ser daqueles que agora não vou classificar. Na véspera de ser operada na semana passada, entrei de manhã pela primeira vez na enfermaria onde fiquei. Tinha apenas duas das seis camas ocupadas, onde dormiam duas mulheres. Fui com a minha mãe e fomos guiadas por uma enfermeira amorosa, que indicou qual era o meu armário, me deu a escolher a cama. Preferi ficar junto da janela. Arrumei as coisas, despedi-me da minha mãe que foi almoçar e só voltou à tarde. Passado um bocado, a Fernanda que estava na cama em frente à minha, acordou e também a Teresa, que estava na cama ao lado. A Fernanda estava quietinha pois tinha sido operada na véspera, aparentava ser da minha idade. A Teresa levantou-se logo e contou-me que em princípio ia ter alta nesse dia. Depois chegou a D. Vitória, acabada de ser operada. E também o nosso almoço que foi colocado nas mesas entre as camas. A Fernanda, então, começou a movimentar-se com alguma dificuldade e eu e a Teresa ajudámo-la a sair da cama. Era rija e dizia que só se sentia bem sentada na cadeira, direita, preferia essa posição a estar deitada. O meu almoço e o da Fernanda era um caldo de galinha deslavado, um sumo e um iogurte. A Teresa já tinha direito a uma refeição completa, com esparguete e tudo. Começamos assim a conversar ao som dos cómicos roncos da D. Vitória, que até a ressonar tinha uma personalidade peculiar. Depois do almoço a Teresa teve alta e foi-se embora com o marido. Foi então que fiquei só com a Fernanda, que depois da sesta e da minha mãe me visitar outra vez, a pouco e pouco foi falando dela. Acho que ganhou confiança comigo, porque eu a ajudava sempre a sair da cama, mal notava que era necessário e ela não queria tocar à campainha para chamar a enfermeira, não tinha feitio para pedir ajuda. A Fernanda tinha sete filhos e trabalhava numa fazenda perto de Tomar com o marido. Eu estranhei o termo fazenda, por ser brasileiro, pensei que seria uma quinta, mas não comentei nada. Contou-me que dos cinco filhos mais velhos, que eram do primeiro marido, três já não viviam com ela, trabalhavam e já tinham as suas vidas. Em casa tinham ficado duas raparigas mais velhas a tomar conta dos dois rapazes mais novos, um com onze anos e o outro, que era muito rabino, com seis. Tinha ficado também o pai dos rapazes que era o seu segundo marido. E nisto pediu-me um favor: foi buscar um papel e pediu-me para eu lhe ler o que lá estava. Contou-me que não sabia ler, só sabia escrever o nome dela. O papel era um folheto informativo do hospital, onde descrevia a operação à qual ela tinha sido submetida. Estávamos as duas sozinhas na enfermaria e a D. Victória roncava. Li-lhe o texto mas sempre que tropeçava num termo técnico que não entendia comentava: sabe, eu sei ler mas não entendo tudo o que aqui está, já viu este palavrão? Ela ria um pouco aflita por causa da cicatriz na barriga que lhe dava dores. Continuamos uma boa vizinhança nesses dias de combate e ajudámos-mos mutuamente, com confiança uma na outra. Só contei à minha mãe que ela não sabia ler quando saímos do hospital, a minha mãe ficou em estado de choque, achava que ela já poderia ter aprendido, por causa dos filhos. Mas não, a Fernanda era pouco mais velha que eu, tinha 48 anos e não sabia ler nem escrever.

Sem comentários:

Enviar um comentário