Eco

O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sábado, 6 de abril de 2013

Poema #105

E UM DIA PARTISTE

                    um extra para quem não mija a cantar


quero lá saber de versos com scones
pesadelos com remendos papais
ou soldados morrendo voluntários às ordens
duma folha de ordenado com carimbo gasto
de mãos sujas do pouco sangue
de lagartixa mastigada pelo outro
um nojo via tv cabo quero lá

saber de sábios lendo o vento
se há culpas de Israel pelo chão morto
das ruínas do divino e do punhal
do internacional sorriso boy
do tráfego da ganga e das armas químicas

quero lá
os cacilheiros a irem ao fundo do Tejo
armadilhados com gestos relógio
de desespero e vingança por tanta miséria a boiar
no poço das palavras sanguessugas que aplaudiste
num largo qualquer num qualquer dia
bandeira ao vento quero lá saber

se és xerife na tua rua democrática
e aprendeste a circular entre gangs
e a domesticá-los a teu prazer e lucro
que apertes as nalgas a espionagem
o cerco dos uivos um terramoto
no foco escuro dos diálogos rastejantes
mais que os corpos as almas desamparadas
um demoníaco olhar rasga a fita dos teus desejos

do mistério do invísivel o teatro ardendo
se a madrugada é amante da lua
se és um herói a naufragar nas cinzas
do estado ou nas nuvens negras anunciadas a peste
se desesperadamente gritas por inveja e vergas
se rezas ou não rezas ao deitar
se gostas «De ti só possuo a sombra estática»
se vais ao cinema às segundas e fodes aos sábados
depois de ires às compras ao supermercado com ela

se corres em fato treino nas ruas do submundo
transpirando angústia dor e flores falsas
ou da tua irmã que esquartejou o teu cunhado
cozeu o sangue e com açúcar e vinagre
serviu ao jantar ao filho teu sobrinho
aos pés da tua sombra agonizando no brilho
da água envenenada escorrendo da torneira

quero lá saber se não gostas do som do cravo
do trompete da chuva
se és um desconsolo pestilento funcionário
público informatizado borrado
se já nem tens vida para trocar ou vender
quando ouves falar no horizonte
olhas para cima e para baixo à procura
e perdido segues o mé do rebanho
que estiver a passar na moda junto a ti
(eu sei que já to dissera)

quero lá saber se desejas continuar
aprendendo a tocar-me
se o vizinho da frente só tem três azeitonas
para um dia quase inteiro
se puseste o pé falso como falso és
espremes o sangue do picanço do lacrau no dedo
a dor da vida
quanto maiores e fartas forem as patilhas
no teu rosto
maior o desgosto de teres nascido
sem corpo de mulher
a dor da vida no teu rosto

quero lá saber se as tuas crianças são papel
químico de ti um orgulho emoldurado
se um dia irão ter mamas de silicone
ou barrigas de aluguer
se tiraste uma licenciatura e
nunca tiveste tempo para olhar o mar
vai cagar e bate com a cabeça três vezes na sanita

quero lá saber da tua permanente febre
por teres medo de ir morrer e orgulho
de nunca falhares a pontuação ortográfica

quero lá saber do amanhã

e se amanhã me irei recordar
dalgum dos teus ardentes beijos.

Jorge Aguiar Oliveira - "João Alves". Lisboa: Edição do Autor, 2004.

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