lustração de " a ressurreição" dos "Contos da Montanha" de Miguel Torga, técnica mista s/ papel, 30x21cm, 1995
O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Ilustração #6
lustração de " a ressurreição" dos "Contos da Montanha" de Miguel Torga, técnica mista s/ papel, 30x21cm, 1995
Dia-a-dia #22
Continuo à espera dos resultados das candidaturas a doutoramento nas Belas-Artes, enquanto isso lembro-me do que costumava dizer aos alunos no secundário quando pediam para ir ao WC durante as aulas: tens de aprender a esperar porque se o fizeres tornas-te um ser humano melhor, vais ter de esperar por muitas coisas na vida.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Ilustração #5
Poema #32
Li hoje um poema medido a pulso
dentro de mim. Sede pousada no labirinto
e, no centro, aquele conhecido verso
secreto que amanhece nas açoteias.
Disponível para o sexo e para as cousas d'alma.
Ah li-o, e era um bicho exasperado
por sair à caça
com o sol a dar-lhe no dorso alquímico dos sonhos.
Dum vigésimo andar pode partir-se
com botijas de oxigénio
ou de binóculos. Precário, insubmisso
ao Estado das coisas.
São outros, porém, os cravos
da moderna paixão:
casamentos, relógios de ponto,
habitação própria domesticam
o horizonte, e o horizonte
basta.
dentro de mim. Sede pousada no labirinto
e, no centro, aquele conhecido verso
secreto que amanhece nas açoteias.
Disponível para o sexo e para as cousas d'alma.
Ah li-o, e era um bicho exasperado
por sair à caça
com o sol a dar-lhe no dorso alquímico dos sonhos.
Dum vigésimo andar pode partir-se
com botijas de oxigénio
ou de binóculos. Precário, insubmisso
ao Estado das coisas.
São outros, porém, os cravos
da moderna paixão:
casamentos, relógios de ponto,
habitação própria domesticam
o horizonte, e o horizonte
basta.
Paulo da Costa Domingos, in Campo de Tílias, publicado em sintonia com as Figurações, de Carlos Ferreiro, Frenesi, Janeiro de 1991, s/p.
encontrado aqui
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Poema #31
DUAS ROSAS
No caminho para deus viu-se obrigado
a parar várias vezes.
Vinha do tempo das quimeras.
Partia, a passos rápidos, sem direcção
definida.
De principio não pensou em nada,
Mas a sua situação depressa se lhe mostrou
desagradável e perigosa.
Levava dentro de si a cumplicidade de um
relâmpago, trazia recados de si mesmo
para mais dentro de si próprio.
Todas as suas forças ficaram isoladas
e o tempo tinha o valor físico de um deserto.
Vivia sob lentidão extrema,
não muito longe do que jamais acontecera.
Regressou ao inanimado carácter do seu corpo,
Aos objectos do próprio quarto.
João Miguel Fernandes Jorge
No caminho para deus viu-se obrigado
a parar várias vezes.
Vinha do tempo das quimeras.
Partia, a passos rápidos, sem direcção
definida.
De principio não pensou em nada,
Mas a sua situação depressa se lhe mostrou
desagradável e perigosa.
Levava dentro de si a cumplicidade de um
relâmpago, trazia recados de si mesmo
para mais dentro de si próprio.
Todas as suas forças ficaram isoladas
e o tempo tinha o valor físico de um deserto.
Vivia sob lentidão extrema,
não muito longe do que jamais acontecera.
Regressou ao inanimado carácter do seu corpo,
Aos objectos do próprio quarto.
João Miguel Fernandes Jorge
Ilustração #4
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Leituras #17
O Pavão
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Rio, novembro, 1958
Rubem Braga in «Ai de ti», Copacabana, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 149
Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Rio, novembro, 1958
Rubem Braga in «Ai de ti», Copacabana, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 149
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