O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ilustração #12

Ilustração de " Inimigas" dos "Contos da Montanha" de Miguel Torga, técnica mista s/ papel, 30x21cm, 1995

Poema #36

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao
[norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os
[órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante
D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electrochoques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um
[futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiros dos Jerónimos a ver se contraía a
[febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma
[pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no
[poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram
[nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado
[na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca


Jorge Sousa Braga, do livro «De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu», in «O Poeta Nu», Assírio & Alvim, Junho de 2007, pp. 17-18.

Encontrado aqui

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ilustração #11

Ilustração de " A paga" dos "Contos da Montanha" de Miguel Torga, técnica mista s/ papel, 30x21cm, 1995

sábado, 10 de outubro de 2009

Leituras #19

(...)

A - E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-te da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu

e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.

(...)

Sarah Kane

in Teatro Completo, Campo das Letras

reencontrado aqui conheci este texto através dos Ventilan, está no cd da Big Ode #2 – Viagem, pena não conseguir coloca-lo cá de outro modo

Dia-a-dia #24

Entre um Santana eucalipto politico, um Costa furacão oportunista, um PC dinossauro e um UDP caviar venha o diabo e escolha.

Ilustração #10

Ilustração de " O bruxedo" dos "Contos da Montanha" de Miguel Torga, técnica mista s/ papel, 30x21cm, 1995

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Textos insones #19



O acto de escrever é um momento silencioso que Maurice Blanchot caracterizou em L´espace Littéraire ( Édition Gallimard, Paris, 1988) como recolhimento (Blanchot refere-se ao recolhimento como a solidão que é necessária para criar, tal como Rilke a definiu em vários textos). Esse recolhimento é solitário, mas em nada se assemelha à solidão do individualismo, nem à dor ao nível do mundo, ignorando qualquer procura de diferença. O recolhimento é um acto de alteridade, onde o escritor penetra na intimidade da escrita com o silêncio. Este acto só se torna poético através da abertura da intimidade de quem escreve para quem lê. O acto de escrever comporta um silêncio que os Mapas da imaginação e da memória de Ana Hatherly desvendam. Aqui a escrita é uma sombra que persegue o gesto da mão percorrendo o tempo. O gesto silencioso de escrever constrói labirintos de escrita, teias que formam mapas na superfície de papel. A escrita tece uma rede na memória, deixando rastos de um percurso entrelaçado, como um fio que constrói um mundo vislumbrado numa estranha superfície topográfica. Um mapa é sempre imagem de um território, esquematização de um espaço que nos pode dizer de onde vimos, onde estamos, para onde vamos. Os mapas de Ana Hatherly não nos dizem, apenas sugerem: é possível seguirmos os rastros da sua escrita como se fosse o fio de Ariana. A escrita destes mapas é ilegível, o seu som foi obliterado através da forma da própria escrita, restando os traços do gesto que a mão da autora percorreu. Trata-se assim de uma catarse cartográfica. Maurice Blanchot descreveu-nos um fenómeno apelidado de preensão perseguidora (L´Espace Littéraire, p-19), que sucede na acção de escrever. Neste acto, existe uma mão portadora de uma espécie de doença, que pega num lápis e não o quer largar para escrever infinitamente. A mão entra assim numa existência preciosa e o que tem depende da sua sombra. A mão escreve inserindo-se num outro tempo, num tempo infinito, tornando-se sombra no tempo. Existe porém outra mão, que interrompe a escrita, criando o ritmo, um cosmos nesse tempo não humano. O tempo no acto de escrever torna-se sombra do silêncio e a mão que pára a mão doente sabe como é importante o que forma nesse tempo, porque existe uma intimidade da escrita com o silêncio, com o que tem de autêntico, onde toma forma a própria escrita. Os Mapas da imaginação e da memória dão ênfase precisamente a este momento, ao acto de escrever. Este surge como traços dos gestos de um corpo ausente, sombras silenciosas que observamos em forma de mapas, memórias que não podemos ler, apenas seguir o seu curso ritmado. São rastros de um acto mágico. A escrita no Oriente tem um carácter místico, sobretudo na China, onde os poetas são pintores e calígrafos. A escrita chinesa é ideográfica, a sua leitura exige uma correspondência de sinais visuais que se relacionam entre si. Assim, a escrita chinesa mantém um dualismo gráfico-verbal, permitindo um íntimo encontro entre a poesia e a pintura na própria estrutura. A escrita de consoantes perdeu essa dualidade, ao evoluir no linearismo do espaço, subordinando-se à linguagem verbal e tornando-se um instrumento de expressão racional. Ana Hatherly desconstrói o aspecto conceptual da nossa escrita, através da sua desemantização, pondo em evidência sobretudo o gesto de escrever, retomando o carácter mítico e simbólico que ele implica, como se fosse um calígrafo ocidental. As palavras tornam-se elementos expressivos num percurso ritmado através de gestos individuais. É a mão que pensa neste acto - pensa o incomunicável, o inefável, num gesto de pura magia.


Imagem: Ana Hatherly, Mapas da Imaginação e da Memória, 1973. Clique na imagem para a ver com melhor definição.



Hoje lembrei-me deste texto postado no Insónia a 16.11.2005