



O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

O primeiro romance do meu amigo foi lançado ontem e é a história de um livro escrito por uma freira portuguesa e dos seus 333 exemplares impressos em Milão, do impacto que esses exemplares tiveram na vida dos seus leitores; o romance é assim composto por um conjunto de microficções em torno do destino de cada um destes 333 exemplares. Escolhi uma destas peculiares microficções para partilhar convosco, alguns leitores da casa no tempo ficarão surpreendidos:
“Maria Fernandez comprara o seu exemplar em Évora e decidira fazer uma escultura com as frases: um edifício de sentido onde por todas as frases das Cartas brilhassem, continuassem e se repetissem com o sol, bem como pelo olhar de quem as contemplasse. «O sentido é uma casa interior», dizia sempre. Os seus contemporâneos admiravam as suas ideias mas consideravam a sua arte muito estranha e perturbadora; Maria continuava, esculpindo o universo todo que existia no que ainda não tinha sido. Mas arruinou-se o livro quando um pouco de tinta dourada caiu sobre ele, e consciente dos processos que o universo usa com o homem, transformou o livro em uma das esculturas.”
In Pedro Sena-Lino, 333, Porto Editora, p-62
Ruínas
Os quintais da vizinhança, entre os quais está um pequeno pedaço que aparentemente me pertence, vivem o abandono total; a velha do rés-do-chão morreu e aquilo agora é uma verdadeira selva, a trepadeira invade-me a janela do atelier, por vezes tenho de cortá-la para não tapar a luz, para não interferir na luz necessária para pintar; há muito que prometi construir um jardim naquele pedaço, não o fiz, sei agora que nada me pertence e estou de passagem, mesmo quando circulo no mesmo sítio. Cada dia sinto mais que estou de partida, o que me prende é nada e a ideia de construir um jardim não passa de uma boa ideia. Estou triste, nem escrevo, resta-me alguma energia para pintar, procuro outros mundos onde possa habitar, porque o que se passa em meu redor está a perder o sentido. Não entendo quando comecei a sentir-me assim, talvez desde que a pintura me invadiu, ela está a interferir
Postado no Insónia a 25/9/2008, lembrei-me desta coisa deprimente porque o quintal vai ser limpo a partir de sexta-feira, finalmente, aquela selva vai desaparecer, não sei se consigo criar um jardim por lá, a ver vamos.
Os quadros voltaram hoje de manhã para casa, guardei-os no topo dos armários da cozinha. A exposição teve muitos visitantes, as pessoas no geral reagiram bem, mas não se vendeu nada – estamos em tempos de crise. Estou triste e sem dinheiro, se vendesse um já poderia comprar material para continuar a produzir com o mesmo ritmo. Hoje pelo menos já não está tanto calor, por isso, estou com mais energia. Em tempos de crise posso sempre escrever e desenhar porque não é dispendioso, mas falta-me o ânimo. E se o calor apertar esta semana vou para a praia, ainda não se paga para apanhar sol e tomar banho no mar.