O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sagração da Primavera


Em plena Av. da Liberdade, um socrático que vive permanentemente em performance, celebra a estação do renascimento dançando em frente a um painel publicitário rotativo; e sempre que surge a imagem de uma modelo feminina em lingerie, ele ri e lança os braços no ar, acenando as mãos com dois caralhinhos nos dedos.

Publicado na revista Minguante nº6

terça-feira, 9 de junho de 2009

Azulando

I - Céu

Nas Belas-artes, um Orgasmos Ferrari como os carros, mas devido ao arroz com a mesma marca no norte de Itália, disse-me que o céu de Lisboa é sempre azul, até de noite. Nunca tinha reparado nisso, mas também de noite todos os gatos são pardos.

II - Gelo

No Canadá apercebi-me que o gelo é azul e queima, fartei-me de cair nas ruas de Halifax, quando ia a caminho da câmara escura; queria fazer fotogramas a preto e branco, mas os números colocados no ampliador estavam errados, então ficaram a azul e branco.

III - Rigor

Ao meu lado trabalhava um fotógrafo de límpidos olhos azuis-claros; oriundo do norte da Nova Escócia, ele estava a revelar fotografias tiradas no ano anterior em Nova Iorque, onde passeou nas ruas como um
cowboy, disparando com a máquina fotográfica junto ao bolso das calças.

IV - Olhar

O fotógrafo canadiano tinha o olhar azul mais rigoroso que conheci; ele fez uma versão do livro
Les Americande Robert Frank (conhecido fotógrafo americano residente na Nova Escócia) chamando-lhe The Americans: com o photoshop apagou todos os americanos das fotografias, resumindo-as a espaços vazios.

V - Silêncio

Conheço um escultor americano que ensurdeceu, por isso os lábios e as mãos das suas esculturas cresceram. Ele confessou-me que Mozart ocupa um espaço especial no seu quase-silêncio, agora só ouve interiormente; e ensinou-me que nos gestos surdos-mudos, azul e céu fundem-se num só.

VI - Lua

O azul é a cor dos rapazes, mas a lua tem os olhos azuis como qualquer siamesa de categoria. Em inglês, lua não tem sexo, é simplesmente
the moon, ou seja, um anjo nocturno, azul e brilhante; mas isso são coisas do norte do planeta.

VII - Anjo

Cruzei-me com um gato vadio e não reparei logo no seu azul nocturno. O mesmo aconteceu com o céu de Lisboa, mas também de noite todos os gatos são pardos.


Hoje lembrei-me destas micros que estão no nº2 da Miguante dedicada ao azul, mas retirei a palavra azul dos títulos porque já existia o azulando.

sábado, 6 de junho de 2009

As cinco vésperas de Salvador


I - Baptizado

Nas vésperas do seu baptizado, Salvador provou pela primeira vez a sensação de estar dentro de um fato de cerimónia; tratava-se de um vestido de seda branco com mais de um século, já usado pelos seus antepassados. Salvador sentiu-se desconfortável e apertado, por isso chorou, gritou e bolçou sobre as rendas de Bruxelas da touca, que nunca chegou a usar.

II - Comunhão

Nas vésperas da primeira comunhão, Salvador revoltado e de braços cruzados afirmou a pés juntos que não queria falar com o padre, porque não tinha pecados a confessar.

III - Serviço Militar

Nas vésperas de cumprir o serviço militar, ou seja, no dia da inspecção, Salvador foi dado como inapto, devido às medidas do seu corpo ultrapassarem largamente os padrões previstos no fabrico das fardas e botas de tropa.

IV - Casamento

Nas vésperas do casamento, a mãe do Salvador recomendou-lhe que mandasse fazer um bom fato escuro para a cerimónia, dos que duram a vida inteira. Salvador achava que era melhor comprar um fato preto, porque assim também o poderia usar nos funerais. A sua mãe disse-lhe que não queria ninguém vestido de preto no dia do seu funeral.

V - Funeral

Nas vésperas da sua morte, Salvador avisou a família de que o poderiam vestir, finalmente, com o seu melhor fato preto, aquele que teve de usar em todas as cerimónias importantes e oficiais na sua vida adulta.

Hoje lembrei-me destas micros que estão no nº1 da Minguante dedicado ao Banal

domingo, 17 de maio de 2009

O fim



Imagem publicada no último número da Miguante

sábado, 28 de março de 2009

Retrato #3

Olha bem para mim: achas que existo apenas para te servir quando queres e como queres? Hoje podes disparar à vontade, mas capta bem o instante. Sei que o meu olhar verde te assusta, vejo-te por dentro e por fora; queres-me impor o teu olhar, mas já só te suporto com essa máquina nas mãos; estás convencido que me aprisionaste ao anulares os meus desejos, para o teu corpo os ditar e me manteres assim passiva no teu pequeno reino. Tu tens que ser alguma coisa, talvez o melhor fotógrafo do mundo; agora eu quando nasci já era mulher e o que é que sabes sobre isso? Nunca saberás o que é sentir o outro com o corpo inteiro, nem poderás ver o mundo através dos meus olhos; ainda pensas que dominas todos os meus gestos. Olha bem para mim, capta o instante, vais-me retratar como nunca conseguiste, porque tenho as olheiras mais belas do mundo. Eu estou a sorrir para a tua câmara, o meu corpo brilha como um metal, ontem fundi-me com outro até à loucura; hoje já podes disparar à vontade, repara bem no meu polimento, dá-me a eternidade porque estou feliz.

Esta micronarrativa está em http://www.minguante.com/?num=3

sexta-feira, 27 de março de 2009

Coincidências

Colocaram-me a banda no estômago a 27 de Março de 2006, na invicta freguesia de Cedofeita. Na véspera, quando ia na sua direcção, partindo da Évora natal, tive de passar por Lisboa, porque me esqueci lá dos exames necessários para a operação. Quando cheguei à mística granítica, dei por falta da carteira, larguei-a na capital quando fui buscar os exames. Entrei assim no hospital, sem nenhum documento, sabia o número do meu BI de cor, mas nunca poderia imaginar as consequências da drástica. Entretanto, fui à granítica no dia do seu santo, para comemorar os meus 37 anos, já tinha perdido 24Kg e voltei depois quando já tinha perdido 37Kg. Recentemente, reencontrei-me na sua mística, com a identidade física de 69kg e nasci no São João de 1969, na outra cidade património mundial. Por isto tudo, decidi que o Porto é a minha segunda cidade natal, apesar de ainda não ter renovado o BI, onde continua uma fotografia de há 51Kg atrás.

Hoje comemoro 3 anos de banda drástica, que é uma espécie de banda pop rock no meu interior. Esta micronarrativa está em http://minguante.com/?num=13