O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Leituras #34

UM HOMEM SÁBIO

É difícil amar?:


 Não é fácil, mas é bom. E se não se amar não se vive. Tive uma analisanda — professora de psicologia — que um dia me disse que tinha descoberto que eu era religioso, que o meu deus era o amor. Acho que é verdade. É a coisa que nos mantém, que nos entusiasma e pelo qual vale a pena lutar.
 
Como sabemos se é amor verdadeiro?:

 É um amor oblativo, que se propõe a dar. Mais do que captar. As relações são boas quando são recíprocas. No amor, na amizade, nas relações pessoais evoluídas, o mais importante é a pessoa. Enquanto que em relações mais primárias, mais biológicas, o que interessa é o que a pessoa nos dá. Uma coisa é eu gostar daquela pessoa como pessoa, e gostar de estar com ela, da companhia dela, de fazer projetos com ela. Outra coisa é estar a pensar em ir para a cama com ela.
 

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domingo, 19 de maio de 2013

Leituras #33


“Por estas e por outras, dizia Juromanha que o poeta (Luís de Camões) devia ser excessivamente guloso de galinhas; e «que de uma vez alguns fidalgos com quem tinha amizade, para despertaram a sua musa jocosa, lhe faziam promessa, em troco de versos, de algumas aves desta espécie, fingindo faltar-lhe às vezes com o prometido para lhe arrancar ditos espirituosos e chistosos».“ José Quitério - «Camões e a mesa» in Histórias e Curiosidades Gastronómicas. Lisboa: Assírio & Alvim, 1992.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Leituras #32

 

Pedro Barbosa - "O Guardador de Retretes" (4ª edição muito revista, pouco aumentada). Porto: Edições Afrontamento, 2007.

sábado, 21 de julho de 2012

Leituras #28


Antes de deixar Coimbra, primeiro para, no Porto, leccionar num liceu da cidade, depois, já professor efectivo, para ensinar português e francês no liceu Mouzinho da Silveira, em Portalegre, José Régio viveu, na Alta, não longe da Rua Larga, ao tempo a antecâmara da Universidade, num desses típicos becos coimbrões, chamado, não sei porquê, Rua das Flores. De facto, flores não havia por ali, por aquele bairro de calçadas esboroadas, e muito menos as havia na pensão habitada pelo poeta, onde se instalara a primeira redacção da presença. (Mais tarde, em minha casa, em Santo António dos Olivais, e, por fim, depois de um efémero rés-do-chão, para esse efeito expressamente alugado na Rua do Corpo de Deus, à Baixa, no Porto, em casa de Adolfo Casais Monteiro.)

A pensão da Rua das Flores, 37, que suponho lá estará ainda, senão como pensão, como república ou casa particular, era um prédio alto – três andares – , muito estreito, quase enviesado, com duas janelas de frente, em guilhotina, claro está, e com pouco fundo, espécie de torre por onde trepava uma escada íngreme, de degraus carunchosos, que era preciso subir com muita cautela, tal a sua inclinação.

Ali José Régio passou, creio, os anos da sua formatura, e ali permaneceu ainda, com quarto privativo, algum tempo depois, aluno da Normal Superior. Prendiam-no lá, além da dona da casa, que não cheguei a conhecer, a criada para todo o serviço, a Carlota, modelo do desenho que ilustra a capa do número 22 da presença (Setembro-Novembro de 1929). Esta Carlota, «a que ficou sem par», na legenda do esquisso que Régio me ofereceu, e ainda conservo, tinha pelo Zé-Maria uma dedicação de cadela, embora não poucas vezes lhe arreganhasse caninamente os dentes. Rebarbativa e terna a um tempo, a Carlota levava os dias a lidar e a praguejar. Algumas vezes, sentada à mesa do refeitório da pensão – em parte modelo também da pensão de D. Felícia do Jogo da Cabra Cega –, pude assistir às reprimendas que a Carlota se não escusava de lhe dar, e Régio como que espicaçava, enquanto ele e os demais hóspedes – uns quatro ou cinco, julgo lembrar-me – comiam a clássica sopa de couves das velhas pensões coimbrãs. Tão alheio a qualquer conceito de higiene era, por esta altura, o viver dos estudantes em Coimbra, que a pensão da suposta D. Felícia nem mesmo dispunha de qualquer rudimentar casa de banho – que digo?, não dispunha, sequer de um W.C. No sótão, esconso, de telha-vã, é que os comensais resolviam os seus problemas, e num mesmo vaso, um alto bispote, como então se chamava a essa espécie de tulha de barro, de proporções reduzidas, «sanita» comum. Aí, nesse sótão de telha-vã, W.C. da pensão da suposta D. Felícia, é que José Régio arrecadava as sobras da presença, antes do meu regresso a Coimbra. Ora como, ao tempo, a nossa «folha de arte e crítica» era impressa no tal papel acetinado, como que de farmácia, e a ruma de folhas se acumulavam, imprudentemente, não longe do tal vaso higiénico – ou anti-higiénico –, aconteceu o que era de esperar. Alguns dos comensais da suposta D. Felícia, para não irem mais longe, e à falta de papel higiénico, luxo então desconhecido em Coimbra, pelo menos na Coimbra dos estudantes, muito à vontade, na altura própria, deitavam mão aos números da presença, abertos no soalho, em folhas devidamente acamadas, completando com elas, graças à sua acetinada calandra, a operação que ali iam fazer, ao sótão de telha-vã. Assim rarearam, a partir de certa data, os exemplares da nossa folha. Creio que Régio não dera por isso. Só deram por isso os que depois – Branquinho e eu – chamaram a si a administração da revista. Já era tarde. Mal empregados, vendem-se hoje esses números a peso de oiro.
João Gaspar Simões – José Régio e a História do Movimento da “Presença”. Porto: Brasília Editora, 1977. pp.78-80.


Da esquerda para a direita: José Régio, João Gaspar Simões, Albano Nogueira, Fernando Lopes-Graça e Adolfo Casais Monteiro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Leituras #27


" -Toda esta gente tem casas de banho de azulejos brancos e fazem grandes cagadas como ursos das montanhas, mas é tudo drenado para esgotos rigorosamente assépticos e ninguém nunca mais volta a pensar nos cagalhões nem se apercebe que na sua origem é merda e peidos e dejectos do mar - disse Japhy. - Passam o dia inteiro a lavar as mãos com sabonetes cremosos, nutrindo o secreto desejo de os comer na casa de banho. "

Jack Kerouac, " Os Vagabundos de Dharma" ( Trad. de Margarida Vale de Gato). Lisboa: Relógio D'Água, 2000. P-65

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Leituras #26


“Precipitavam-se pela rua fora, topando tudo no modo peculiar que tinham de início e que, muito tempo depois, se tornou mais triste, perceptivo e inexpressivo. Mas nessa altura dançavam pelas ruas fora, quais fantoches febris, e eu trotava atrás deles, como toda a vida fiz no encalço das pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas de viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se um clarão azul a estourar e toda a gente exclama: «Aaaah!».
In Jack Kerouac, Pela Estrada Fora. ( Trad. Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato). Lisboa: Relógio d’Água, 1998. P- 13.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Leituras #25

A gata Lua já leu e quer mais:

GRIFOS

Os grifos de agora têm ódios anões, disparam contra o musgo por temerem o ricochete do ferro, da pedra, do aço. Os grifos de agora piam e rastejam um voo videirinho, querem mais do que podem, não sabem que o lugar do voo é o ninho de onde nunca saltaram por temerem a queda. Os grifos de agora sofrem a vertigem da honestidade, da liberdade, do assombro, palavras cujo sentido não compreendem por terem sido desde cedo educados nas gravatas apertadas de um falacioso sucesso.
Colam-se aos mestres que antes deles, como eles, foram a Gizeh fotografar a esfinge, aguardando o reconhecimento da confraria que ambicionam. Colam-se com cuspo e ranho, o sangue que lhes corre na veia de poetas miraculosamente integrados, prodigiosamente recebidos, magnificamente emparelhados no futuro de quem não tem passado. E com dentes de leite arreganham o sorriso encomendado dos salões, dos rituais iniciáticos, dos baptismos solenes que um dia farão deles o esquecimento de todos nós.
Os grifos de agora têm um nó na garganta, um nó que aperta a respiração a ponto de lhes sofrear o talento. Por isso imitam com camisas cheias de esperança a flanela dos desgraçados, e pousam bem vestidos falsas dores, e dizem-se admiradores dum céu que não reconheceriam nem com lentes de ver por perto, tão cegos que estão de si próprios na melancolia comezinha, literária e falsária das universidades.
Ninguém duvide de que são cinzentos. Mais pardacento que isto é difícil de imaginar, mesmo a quem por imaginação um dia se perdeu nos labirintos da poesia.
De lágrimas, resta-lhes apenas e tão-só urina, produto resultante da excreção raivosa com que foram criados, da segunda pessoa do plural em que foram educados, ainda usavam fraldas e bebiam das tetas maternas o suco desta moleza com que afrontam o mundo.

Henrique Manuel Bento Fialho – Estranhas Criaturas. Porto: Deriva, 2010

terça-feira, 8 de junho de 2010

Leituras #25

TEXTO PARA A GÉNESE DO EROS FRENÉTICO

Dantes eu era um escritor tão ingénuo que quando queria dizer porta escrevia a palavra porta. Felizmente com o decorrer do tempo tornei-me um escritor avisado e hoje quando quero dizer porta escrevo o gato mia.
Essa é a génese do eros frenético.
O que eu quero dizer é que o equívoco foi sempre o contrário da polifonia, isto é, que o prazer é uma perversão, uma deturpação do sofrimento. Porque eu nunca digo o que quero. Sou uma outra espécie de licencioso: como não digo o que quero, digo o que não quero.
Essa é a génese do eros frenético.
Alguns críticos muito ilustrados ainda hoje chamam a isso inspiração. Estão ainda muito ligados aos problemas respiratórios. Para mim esse problema deixou de ter importância porque o meu sistema respiratório é automático (não é verdade que só fazemos bem aquilo que fazemos automaticamente?). Esse problema da respiração – inspiração/expiração – para mim está definitivamente resolvido: sou um mecanismo avisado e por isso conheço a força da recusa.
Essa é a génese do eros frenético.
Os meus colegas meus contemporâneos entram em estado de agonia por estarem constantemente com a cabeça para baixo construindo os seus pedestais e como desde logo se colocam em cima de eles custa imenso continuar o trabalho. Alguns acrescentam-lhes elaborados ornamentos o que complica a posição e a expositura. E depois andamos todos a tropeçar nesses moldes que ficam pelo caminho. Eu principalmente. Porque não me resigno. Estou sempre a andar. Tenho essa erótica. Bato à porta dos amigos e pergunto: diga-me por favor se está ai o meu ombro esquecido. Ao que eles: esta pequena está cada vez menos espirituosa. Isso delicia-me. Tenho essa frenesia. Sento-me à secretária e trabalho na detergência morosa, minha obra-prima.
Sou como o/a filósof o/a celerad o/a.
Essa é a génese do eros frenético.
Mas isso foi há milhões de palavras. Agora produzo pensamento em palavras por segundo.
O que acontece entre nós é o não-acontecimento até à absurdidade. Às vezes penso que é fascinante viver num ambiente assim inconcebível. Mas na verdade gostaria de poder fazer qualquer coisa de radical uma detergência profunda ontológica a isto.
Porque do que todos gostam ainda é do poeta que diz «a tua boca é um sorvete de morango» ou «dos lupanares saem os devassos».
Que fazer perante as flâmulas do optimismo pueril desses devaneios de satírico e petroleiro (sic)? De facto a filosofia não nos descortina bons augúrios na vida.
Resta-nos apenas o raciocínio calmo e supicaz.
Essa é a génese do eros frenético.
A zombaria é evidente mas exprime a verdade. Sou apologista das sátiras dicacíssimas.
Mas nunca exagero. O máximo que eu digo é: não façam isso à vaca.
Sou portuguesa e o meu estilo é barroco. O barroco é um estilo ornamental oriundo no desgaste (é daí que vem a minha tese da detergência) ou na atribulada escrituração da ostra. Tanto é o estilo objecto para a escrita e pináculo da coluna vertebral uma cadeia de causalidades concatenadas produto de uma natureza transbordante. É por isso que o português se exprime na oportunidade do super-mercado.
Ainda há dias ouvi dizer a alguém: o que me vale é as coisas que eu não sei. E assim dizendo encolhia os apotécios. Não não basta que as coisas sejam verdadeiras também é preciso que sejam verídicas. Já Apolónio o Filomuso autor da Balança Intelectual criticava o Fulano Indiferente.
Mas eu não posso preocupar-me com tais trivia. Quando se atinge o nível da gargalhada reprimida começa a grande sabedoria.
Essa é a génese do eros frenético.

Ana Hatherly, A Maldade Semântica (1966-68) in “ Um Calculador de Improbabilidades”. Lisboa: Quimera, 2001. P-176, 177.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Leituras #24

a poesia começa onde o ar acaba. é qualquer coisa para depois da própria respiração. como o respirar é muito uma maneira nossa e (pré)-vista da condição humana a que somos condenados, a poesia surge a partir desta condenação. mais justo ainda, a partir de toda a condenação. deste modo, só nos resta a queda no irremediável: a vertigem sem apelo, o jogo sem olhos, a ausência impecável de nós. daí o repúdio ao lirismo e duma semântica convencionada à escala dos pessoais (des)gostos mais ou menos audíveis. daí a ambiguidade cómico-dramática em que nos assistimos. nenhuma ordenação é possível. nenhum suspiro pode já (co)mover. em vez de celebrar normas e preceitos que actuam na mediocridade da sujeição, procuramos, mais exactamente, descobrir o belíssimo caos de nós próprios. antes o indefinido que ser reduzido ao absoluto infrutescente da indefinição. antes o encontro com o desordenado, num conflito sem génese nem juízo final, para atingir o risco de estarmos livres mesmo no discurso do desentendimento. um poema deve ser usado como um instrumento feiticista e consome-se em si numa espécie de ludus encantatório. por isso se dão nomes à matéria: inventa-se e destrói-se para que ela viva a sua tremenda metamorfose, a poesia deve ser tomada por todos os sentidos: quando verbal não deixará também de ser contra o verbo. queremos uma poesia que não explique conteúdos mas forneça estados: donde uma linguagem negra, ausência de estilo e o ataque à fraude da limitação: poesia-contra, poesia-recusa-que-acusa, poesia contra o instituído, o legal, o ordenado e convencional. poesia liberdade por estarmos demasiadamente perdidos no cúmulo da condenação.
António Aragão, texto publicado no catálogo da exposição VISOPOEMAS (1965), na Galeria Divulgação em Lisboa.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Leituras #23

18

Era uma vez uma cidade habitada por palavras em que cada uma vivia em sua casa com as portas fechadas mas constantemente se visitavam ou então saíam para a rua e passeando cruzavam-se com outras palavras e saudavam-se mas com o crescimento progressivo da cidade as palavras quando saíam para a rua começavam a chorar umas com as outras e chocando-se retiravam-se encolerizadas e regressavam a casa mas já não regressavam como haviam saído e dentro de casa aumentavam por um efeito de cólera morosa e lembrando sempre as outras palavras começavam crescendo dentro de suas casas e da próxima vez saíam para a rua já iam transformadas e quando encontravam outra vez as palavras passava-se outra vez a mesma coisa e regressavam a casa e continuavam a crescer e sempre em direcções e cresciam de tal modo que já não conseguiam fechar as portas e novos braços abriam as janelas e a cólera trepava pelas paredes e começavam a escavar o texto e ligadas ao andar de cima entrelaçavam à palavra do outro apartamento que também estava encolerizado e já chegava até ao telhado e subia pela antena da televisão e gritava encolerizado com as palavras dos outros prédios já subindo pelo céu acima e toda a cidade estava aos gritos e já não havia espaço para as palavras crescerem confundiam-se e as palavras estavam todas unidas irremediavelmente e gritavam todas ao mesmo tempo de modo que ao longe era um só grito enorme que mais longe se transformava num sussurro e de muito mais longe até não se ouvia nada.

Ana Hatherly, "351 Tisanas". Lisboa: Quimera, 1997.


sábado, 17 de abril de 2010

Leituras #22

“ O século XIX, alagado em ideias científicas e optimismo condicente, tentou envolver a discussão das diferenças de sexo num escrutínio científico, definitivo. Assim, os factos e as análises foram usados para contrabalançar a crescente reivindicação feminina, reforçando a ideia de hierarquia sexual assente nos dados da ciência. Partia-se de uma premissa simples: o tamanho e a configuração do cérebro influenciam nas capacidades cognitivas dos seus utentes, logo as mulheres – como de resto os povos primitivos – não tinham lugar para aquilo que fazia a grandeza do homem: o pensamento abstracto, a sua organização, a síntese dos dados configurados e a formulação dos juízos valorativos. O aspecto do cérebro feminino era objecto de delicada apreciação estética: «a sua estrutura é menos engelhada, as convulsões menos bonitas, menos amplas». ( Tomas Garb, "Gender and representation" in «Modernity and Modernism, french painting in the nineteenth century», Yale University Press, New Haven and london, 1993, p-280)
Era facto assente que a fisiologia interferia de forma decisiva na aprendizagem, e assim elas viam-se privadas de desenvolvimento a partir da puberdade e havia mesmo claros sintomas de regressão, anunciada com a chegada da menstruação e acentuada com as gravidezes. Toda a sua existência era absorvida pelas funções reprodutivas, mas talvez nem tudo estivesse perdido: tínhamos mais emoções e sensibilidade (leia-se descontrole), éramos mais primárias e miméticas, dependentes de estímulos externos (leia-se, mais próximas dos símios superiores), mas, suprema condescendência, possuíamos neles poder de observação e melhor percepção (pergunta-se para quê?)."
Maria João Lello Ortigão, «Aurélia de Sousa em contexto: a cultura artística no fim de século». Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2006. p-79

sexta-feira, 19 de março de 2010

Leituras #21

Nunca mais postei nada por aqui relacionado com leituras; não por não ter lido, pelo contrário, desde que entrei para o doutoramento, sou obrigada a ler muito, algo que nem sempre me dá prazer. Mas entre aulas e relatórios que vou escrevendo, acontecem coisas engraçadas: uma delas foi a conferência da professora Maria João Ortigão, sobre a cultura nos finais do séc. XIX em Portugal, onde me foi revelado um texto extraordinário: «Carta a Anatólio Camels» de Ramalho Ortigão, que foi publicada posteriormente no segundo volume de «As Farpas». Esta carta teve origem no que vou apelidar de O caso bulbo: a filha de Ramalho Ortigão, Berta, era pintora e participou em exposições dos naturalistas; numa delas, mostrou um pequeno quadro, com fundo escuro, onde representou três cebolas alinhadas. Anatólio Camels, escultor académico, conhecido por ser o autor do frontão da Rua Augusta em Lisboa, reparou no quadro e criticou-o, considerando cebolas um tema feio. Ramalho Ortigão respondeu-lhe com o pseudónimo de Simplício Feijão, defendendo que as cebolas são belas, como um horticultor o faria. Na carta, desenvolveu um registo em defesa do naturalismo, de uma forma muito criativa, alargando o campo de acção para além deste, ao colocar questões e interrogações com uma enorme profundidade. Anatólio Camels tinha censurado a pintura de Berta, afirmando: “Tão lindas mãozinhas mexendo em cebolas!...Um bulbo feio, unicamente bom para fazer chorar as cozinheiras…Quanto mais agradável seria copiar flores ou frutas!”. Ramalho Ortigão respondeu-lhe com sarcasmo, alertando-nos de que as mulheres não têm mãozinhas: “ Mãozinhas são as de carneiro, não são de gente pensante e séria”; também fez uma lista de obras de arte que têm cebolas e outros utensílios horrorosos por tema, comentando: “ Todas estas obras cairiam fatalmente reprovadas ante a censura de V.Exª, porque não só há cebolas em algumas delas, mas também há muitas outras provisões de boca, há inúmeros instrumentos e utensílios asquerosos de cozinha, há estrebarias com todos os seus acessórios, há animais imundos e animais incontinentes, há toda a espécie de sevandijas, há defuntos, há animais mortos, há bombas portáteis molierescas e há vasos rabelaiseanos, cujo aspecto carnavalesco, inteiramente ché-ché, infunde nas imaginações desregradas uma alegria perversa.” A esta lista de obras, acrescentou os grandes pintores que trataram temas feios, frisando que, no Hermitage em São Petersburg , existe a bela pintura de Paul Potter intitulada “ La vache qui pisse”; deste modo, o seu pseudónimo foi um pouco desmascarado, só um horticultor muito rico e viajado poderia argumentar assim. Também criticou o platonismo, ao considerar que cada filosofia tem o seu belo privativo; para tal, o horticultor utilizou as cartolas e chapéus da sua vida, como exemplo do belo definido pela moda e gosto:” Todos estes chapéus – à excepção unicamente do último, o mais novo, com o qual ouso ainda passar na via pública sem escândalo que perturbe sensivelmente a ordem – são de uma hediondez pungitiva, profunda, verdadeiramente aterradora. Não são simplesmente feios, são disformes, são aleijados. Acham-se pelo aspecto geral fora da natureza e fora da fisiologia, são verdadeiros sintomas mórbidos, legítimos documentos de patologia cerebral.”. Esta parte do texto deveria ser uma referência para qualquer critico de arte decente. Mas o que mais me impressionou no texto foi a defesa de que o artista deve ser sincero na sua relação com a sociedade, deve ser honesto no que produz, afirmando no final que “ A arte é a eterna desinfectante da podridão onde toca”. Grande Ramalho, visionário, acho que a boa arte continua a ser isso mesmo. E viva às cebolas pintadas pela Berta.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Leituras #20

ECO

Era como falar para dentro de um canudo, era como produzir um eco monstruoso, era como um fantasma a rir acidentalmente, sem dentes, fazendo rir o eco das palavras, era como uma história de verdade, um eco, uma sombra, um simulacro, era como o corpo atrás da sombra, a voz atrás do eco, era como a forma e o conteúdo, o que o sol dizia e a lua repetia, era como e não era, era e não era, era o crepúsculo à espera da noite, a aurora à espera do dia, uma nuvem sem chuva, um sol sem alegria, eras tu, eras eu, éramos nós.

sábado, 10 de outubro de 2009

Leituras #19

(...)

A - E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-te da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu

e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.

(...)

Sarah Kane

in Teatro Completo, Campo das Letras

reencontrado aqui conheci este texto através dos Ventilan, está no cd da Big Ode #2 – Viagem, pena não conseguir coloca-lo cá de outro modo

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Leituras #18

«Dizem que a farda é a melhor das mortalhas.»
«Uma porra. Quem diz isso?»
«Os poetas.»

«Cago nos poetas.»

(Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e Paixões de Benito Prada)

gamado ao moço que tem olho, mas não foi no café.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Leituras #17

O Pavão

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rio, novembro, 1958

Rubem Braga in «Ai de ti», Copacabana, Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 149

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Leituras #16

O primeiro romance do meu amigo foi lançado ontem e é a história de um livro escrito por uma freira portuguesa e dos seus 333 exemplares impressos em Milão, do impacto que esses exemplares tiveram na vida dos seus leitores; o romance é assim composto por um conjunto de microficções em torno do destino de cada um destes 333 exemplares. Escolhi uma destas peculiares microficções para partilhar convosco, alguns leitores da casa no tempo ficarão surpreendidos:

“Maria Fernandez comprara o seu exemplar em Évora e decidira fazer uma escultura com as frases: um edifício de sentido onde por todas as frases das Cartas brilhassem, continuassem e se repetissem com o sol, bem como pelo olhar de quem as contemplasse. «O sentido é uma casa interior», dizia sempre. Os seus contemporâneos admiravam as suas ideias mas consideravam a sua arte muito estranha e perturbadora; Maria continuava, esculpindo o universo todo que existia no que ainda não tinha sido. Mas arruinou-se o livro quando um pouco de tinta dourada caiu sobre ele, e consciente dos processos que o universo usa com o homem, transformou o livro em uma das esculturas.”

In Pedro Sena-Lino, 333, Porto Editora, p-62

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Leituras #15

Continuo de volta da preciosa Antologia da poesia feminina portuguesa que adquiri na melhor livraria do mundo, e prossigo não com mais uma freira, mas sim com uma aristocrata, Catarina de Lancastre que segundo poeta António Salvado  foi “…viscondessa de Balsemão por seu marido, o político Luís Pinto de Sousa Coutinho, nasceu em Guimarães em 1749 e faleceu no Porto em 1824. Admiradora exaltada do Marquês de Pombal, ao célebre ministro consagrou algumas composições – atitude que não teria agradado demasiado à sua amiga e poetisa Marquesa de Alorna… Aliás, o seu apego às luzes da razão manteve-se sempre vivo ao longo da sua existência: a morte de Gomes Freire inspirou-lhe alguns sonetos e, já septuagenária, saudou com ardor a revolução liberal de 1820 » .( p-78) Segundo o autor , Catarina de Lancastre foi apelidada de «Safo portuguesa», devido ao amor ser o tema dominante das suas composições.

Safo

Safo ao mar se precipita
Por impulso da paixão,
Vinga em si o alheio crime
Da pérfida ingratidão.

Muitos anos respeitado
Foi o penedo fatal
Mas por força dum exemplo
Logo um mal causa outro mal.

Se fizerem assim todas,
Que se vêem desprezadas,
Foram de vítimas tristes
As brancas ondas coalhadas.

Sem ti que vale a firmeza,
Ó santa conformidade?
Tu a perdoar ensinas
Loucuras da humanidade.

Catarina de Lancastre in António Salvado, Antologia da Poesia Feminina Portuguesa, Edições do Jornal do Fundão, 1973. (p-84)