O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

Mostrar mensagens com a etiqueta Uma casa no tempo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Uma casa no tempo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma casa no tempo #11


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobreira

Nunca sei o que fazer com as mãos quando estou ao pé de ti, tenho de fumar um cigarro, tenho de manter as mãos ocupadas. É claro que acalmava se colocasse as minhas mãos sobre ti, sabes que sou artista, trabalho com as mãos. Perguntaste-me sobre as árvores que estou a pintar. Falei que quero colocar uma hipérbole no céu desta árvore. Como está num ponto muito alto, o céu tem de ser enorme, a percentagem de terra nesta representação é muito mais pequena que o céu. O céu é o que caracteriza a paisagem alentejana. Respondeste-me que essa é a visão do mundo quando somos pequenos; e que assim a árvore não é o tema central da pintura, como na outra que fiz. Expliquei-te que a outra árvore era uma sobreira centenária, classificada, o que a caracterizava era a copa monumental. Perguntaste-me o que é uma sobreira: é um sobreiro virgem, porque os homens nunca lhe retiraram a cortiça, uma força da natureza selvagem. A árvore que estou agora a pintar é uma azinheira centenária, conhecida por azinheira das bruxas. Ela não tem sombra. Tem cerca de 300 anos, é baixa, assimétrica, tem o tronco inclinado, uma copa larguíssima. O seu tronco é negro, assustador, tenho medo dela, por isso vou pintar um céu enorme, numa espécie de esconjuro. Perguntaste-me onde vai ficar e não sei. Sei que a sobreira que pintei está em casa do dono, ele queria colocá-la no hall de entrada, mas mudou de ideias. A sobreira está pendurada na parede da sala, um local com muito mais luz natural e o dono dorme a sesta no cadeirão em frente. Decidiu assim, é o melhor local, depois do almoço costuma ficar cerca de meia hora em frente dela, adormece e acorda a olhar para a minha pintura. A pintura é uma janela aberta para a natureza, neste caso.

Texto postado no Insónia a 13/8/2005 com outro título, a ilustração foi postada a19/9/2006



terça-feira, 23 de junho de 2009

Uma casa no tempo #10

Pedras
 
A água corre na água dos meus pés caindo nas pedras; nas pedras da cidade circulo contigo na terra molhada; na terra molhada abrem-se as veias estreitas onde ouvimos a voz das pedras; a voz das pedras abraça as ruas em muralhas circulares; em muralhas circulares percorremos no escuro as calçadas onde a água corre na água; na água deambulamos rumo às ruas perdidas no tempo; no tempo as veias convergem para o umbigo no seu interior; no seu interior a cidade branca das muralhas vive a noite a chover; a chover nas calçadas ergueu-se uma casa com paredes no tempo; no tempo sinto o cheiro da terra que a água transformou em pedra no templo para onde convergem as ruas da cidade; da cidade digo tempo em forma de templo com o cheiro intenso da terra molhada; da terra molhada corre água que canta nas calçadas escuras; nas calçadas escuras corre o tempo que corre na água dos meus pés caindo nas pedras.
publicado na revista Umbigo nº23

terça-feira, 19 de maio de 2009

Uma casa no tempo #9





























Paredes 
 
A minha casa de paredes altas, a escrita invadiu as paredes, já foram brancas, agora a patine do tempo percorre-as. Em cada parede uma camada de memória, perco-me dentro de casa, procuro as chaves que nunca sei onde estão. Já tive vários chaveiros pendurados nas paredes, mas não resultou. A casa, vale de corvos escrito nas paredes, a outra seara está em Amesterdão. Tenho de voltar à cidade das janelas abertas, estou sufocada por muros altos, caiados, por muralhas de pedra, não suporto os pátios fechados do sul. Preciso de água, quero viver junto ao mar. A minha casa é um porto de passagem, um local perdido onde regresso sempre, de onde fujo do amarelo mortífero da planície. Estou rodeada de amarelo, até as paredes da casa são assim. Acumulo papéis, desorganizadamente, os meus livros têm páginas amarelas, são as paredes da casa, cheias de cicatrizes, de golpes a sarar. Os objectos acumulam-se na casa, como os livros, as pessoas vão e voltam, são como as ondas do mar, os livros ficam empilhados em vários sítios como as rochas. O telefone chama-me, a tua voz liberta-me disto tudo e dizes-me que se aprende muito com as saudades. Os açorianos, por via da dúvida, descrevem esse sentimento como um cortinado roxo que nos cobre o coração. Também, vivem rodeados de água, a ausência numa ilha sente-se com outra intensidade. Eu vivo rodeada de papéis amarelecidos pelo tempo. Raios partam a palavra portuguesa, saudade, porque amamos mais quando estamos distantes?
texto postado no Insónia a 21/8/2005, a ilustração foi postada a 14/6/2006

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Uma casa no tempo #7
































































Publicado na revista Big Ode #6 Novembro de 2008
 clique na imagem para poder ler o texto.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Uma casa no tempo #6





























 
 
 
 
 
 
 

Publicado a preto e branco na revista Big Ode #5 e postado no Insónia a 29/7/2008, clique na imagem para poder ler o texto.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Uma casa no tempo #5





























Mar

Levaste-me a ver o mar, o areal da praia grande. Disse-te que aquele era o meu mar, que me atormenta os sonhos. Contaste-me que o teu mar estava ali perto, na Ericeira. Eu relatava-te acontecimentos absurdos para te fazer rir. Víamos o mar no grande areal ao longe:
- Só me contas histórias fantásticas, já pensaste em escrevê-las?
Eu não escrevo, pinto, tu é que escreves. As imagens são mais imediatas, elas invadem o interior do cérebro, silenciosamente. Pensa bem: o que é mais rápido, o trovão ou o relâmpago? Um fenómeno apenas, surgindo no mesmo espaço-tempo, a descarga de energia eléctrica na atmosfera terrestre. A ciência descodifica a invisibilidade deste fenómeno, através do cálculo matemático é possível uma aproximação à ordem da natureza. E como é que a natureza nos revela o fenómeno? A luz invade a atmosfera e segue-se o trovão. A velocidade da luz é superior ao som, o som é uma espécie de sombra da imagem. As imagens são velozes e silenciosas, a língua segue-as, fantasmaticamente, de forma ameaçadora. O som estremece o chão dos meus pés nas trovoadas de Sintra.


Texto publicado em "Bicicletas para memórias e Invenções", Ed. criativação, Lisboa, Dezembro 2006 e postado no Insónia a 21/8/2005, a ilustração foi postada a 20/10/2006




quinta-feira, 26 de março de 2009

Uma casa no tempo #4





































Sala

Entrei às escuras na porta do teu mundo. O som da água que corre invadia o espaço da sala e deste-me a tua mão, abrindo a janela. Mostraste-me como a natureza entrava em tua casa, descrevendo-me com a língua como a vias e amavas. Pediste-me silêncio senão a água caía dos teus olhos. Na tua janela bebi a água que os teus olhos me deram. O riso a iluminar o mundo e os meus lábios a beijarem os teus olhos a sorrir. Perguntaste-me no meu corpo porque sempre te fiz rir. No meu corpo correu a água que corre na água e invadimos o espaço da sala. A tua mão em casa na minha. Entendi como amavas a natureza ao escreveres no meu corpo com a língua e a minha traduzia a escrita. Pediste-me que te contasse os meus sonhos, antes de adormeceres. Acordaste de um sonho onde estávamos os dois em silêncio na tua sala a escrever, lá fora havia um barulho ensurdecedor, estavam políticos que tu odiavas, a multidão da qual fugíamos. Tremias quando te agarrei e abracei como podia. Eu não temia, a minha mão firme em casa na tua. Querias para sempre, mas respondi-te que isso é um romance já escrito. Contei-te que sonhava com o mar, que ele se tornava cada vez mais revolto, com ondas enormes e que tinha de fugir.


Texto publicado na revista Big Ode #3: Fusão, Nov 07/Fev 08 acompanhado da ilustração a preto e branco. Foi escrito a partir de um post do Insónia de 20/8/2005, intitulado "Casa" e publicado sem a ilustração em "Bicicletas para memórias e Invenções", Ed. criativação, Lisboa, Dezembro 2006.

domingo, 22 de março de 2009

Uma casa no tempo #3




































Janela

Nunca sei como se abre uma janela ao pé de ti. Fico desorientada, procuro um cigarro para fumar, não sei o que fazer às mãos, não te quero incomodar com o fumo, preciso de abrir a janela. Tu sorris e abres, dizendo: é aqui. No escuro procuro abrir a janela, resmungando, nunca me lembro onde fica o fecho, não o encontro, não vejo nada. Estamos em andamento, nunca sei onde estou, a tua calma perturba-me, é a calma de quem sabe conduzir e eu não consigo fazer isso. Já tentei, mas perco-me sempre, ou tenho medo de me perder. Hoje surpreendeste-me, mais uma vez. Porque em vez de abrires a janela, acendeste a luz, resmunguei que não era a luz, é a janela. Respondeste-me calmamente: em vez de ser sempre eu a abrir a janela, vais ser tu a procurar o fecho, assim não te esqueces onde está. Ainda fiquei mais desorientada, não encontrava nada com luz, perguntei-te onde é que estava. Estavas a rir e disseste: em frente, por baixo. Lá vislumbrei aquilo e consegui ser eu a abrir . E agora, vou ser sempre eu a abrir a janela?


Texto publicado na revista Big Ode #3: Fusão, Nov 07/Fev 08 acompanhado da ilustração a preto e branco. O texto isolado foi postado no Insónia a 20/8/2005

Uma casa no tempo #2





























Porta
Estava escuro. Havia uma porta, entrei quando me deste a mão. A porta situava-se perto do ar de Sintra que conheço tão bem, é húmido, dúbio, sempre misterioso. Agarraste a minha mão em casa na tua porta aberta, finalmente. Porque a porta esteve sempre entreaberta e tinha medo de entrar. A tua mão era suave e firme, por isso entrei na porta onde esperava que terminasse aquele frio húmido de rachar do ar de Sintra, que tão bem conheço. Entrei, seguindo-te no corredor escuro em direcção à tua sala, onde estava a janela aberta para a natureza, que sempre amámos tanto. Da tua janela entrava o som da água que corre na água e continuámos às escuras na chuva da noite, mas na tua mão estava em casa e já não tinha frio.

Texto publicado em "Bicicletas para memórias e Invenções", Ed. criativação, Lisboa, Dezembro 2006 e postado no Insónia a 20/8/2005, a ilustração foi postada a 15/9/2006

sábado, 21 de março de 2009

Uma casa no tempo #1





























Da cidade
A água corre na água que cai no chão dos meus pés nas calçadas de pedra das ruas estreitas da cidade; da cidade vem um cheiro intenso a terra molhada nos pés em pedra dentro das muralhas de água que corre na água; na água das ruas calcetadas na cidade estreita ergueu-se uma casa no seu interior; no seu interior habitam as memórias onde percorro a terra com os pés no chão; os pés no chão é uma bela metáfora da cidade na noite a chover com ruas estreitas no escuro; no escuro corre a água que corre no tempo dos pés no meu chão; no meu chão ergueu-se uma casa com paredes de tempo e corredores estreitos como as ruas da cidade branca das muralhas ao longe; ao longe os meus pés percorreram o tempo que corre no tempo em paredes de água calcetadas na pedra; na pedra sinto um cheiro a terra molhada após um verão amarelo; após um verão amarelo cai a água nas ruas estreitas da cidade branca das muralhas; das muralhas digo tempo em forma de pedra na água; na água corre a água que corre no tempo das ruas estreitas na noite; na noite sente-se um cheiro intenso a terra molhada nesta cidade; nesta cidade a água corre na água que cai no chão dos meus pés nas calçadas de pedra das ruas estreitas.


Texto de abertura de " Uma casa no tempo" publicado em "Bicicletas para memórias e Invenções", Ed. criativação, Lisboa, Dezembro 2006 e postado no Insónia a 24/1/2006, a ilustração foi postada a 17/7/2006

Arrumar a casa

Ontem continuei a ler e a guardar o material do Insónia e encontrei textos postados na série fragmentos que vou recuperar para aqui de outra maneira: são texto de prosa poética, que irei reorganizar no bloco " Uma casa no tempo", alguns também foram publicados na antologia de contos dos alunos da companhia do eu - Bicicletas para memórias e invenções, Editação Criativação, 2006 - vou reorganizá-los e acrescentar novos, a casa no tempo vai crescer.