O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

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segunda-feira, 24 de maio de 2010

A Casa Das Musas #9

Finalmente, para Urânia, a musa da astronomia, imaginei uma plataforma esférica monumental, onde se poderia observar durante o dia um modelo do universo, representado por sólidos geométricos, encaixados na enorme cúpula do tecto, ao som da música das esferas. De noite, a plataforma transformava-se num silencioso planetário, onde os visitantes eram transportados para outra forma de consciência, através da visão mística do universo.

domingo, 23 de maio de 2010

A Casa Das Musas #8

O espaço de Tália, a musa da comédia, seria côncavo e convexo, com paredes cobertas de espelhos, que deformavam a aparência dos seus visitantes, à medida que caminhavam no seu interior: ao movimentarem-se, ora se metamorfoseavam em anões bizarros, ora se transformavam em gigantes figuras magras, num hilariante jogo de espelhos que nunca se repetia. O riso neste espaço era contagiante e os seus visitantes adquiriam uma nova consciência sobre si próprios e os outros, libertando-se numa leveza até então desconhecida.

sábado, 22 de maio de 2010

A Casa das Musas #7

Para Terpsícore, musa da dança, imaginei um enorme salão de baile, decorado com estuques, mármores rosas e espelhos emoldurados com talha dourada. Os visitantes para entrarem neste lugar tinham de levar o seu melhor fato e deparavam-se com uma música desconhecida, que os levava a moverem-se num ritmo elegante e encantatório; quando paravam de dançar e olhavam em seu redor, ficavam surpreendidos com a precisão coreográfica do baile no seu todo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A Casa das Musas #6

Para Polímnia, a musa da poesia sagrada, imaginei um espaço escultórico, em mármore branco, muito amplo e rasgado por janelas trapezoidais, que projectavam formas geométricas planas, com enorme rigor; a iluminação natural produzia assim quadros abstractos no branco do mármore, que se movimentavam em harmonia ao longo do dia. De noite, no seu interior, acendiam-se pequenas velas, para se poder escutar coros interpretando polifonia, como se fossem anjos, deixando os seus visitantes suspensos num espaço-tempo que simbolizava a eternidade.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A Casa das Musas #5

O espaço de Melpomene, a musa da tragédia, seria um majestoso teatro, com um palco emoldurado por cortinas de veludo vermelhas. Na plateia, os visitantes poderiam assistir às Óperas de Puccini, em interpretações maravilhosas, que os comoveriam de forma inédita; eles seriam assim tocados pelo canto do sofrimento e a da morte, por isso, no interior de cada um acendia-se uma luz que iluminava o escuro da dor.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Casa das Musas #4

Para Euterpe, musa da música, imaginei um espaço composto por instrumentos, onde os seus visitantes, à medida que o percorriam, tornavam-se músicos, tocando numa orquestra que interpretava o melhor que a humanidade poderia compor. O chão deste espaço funcionava como o teclado de um piano, as paredes estavam cobertas com as cordas dos instrumentos, prontas a serem tocadas; a respiração dos visitantes transformava-se no som dos instrumentos de sopro, permitindo assim que os seus corpos levitassem em trajectos harmoniosos.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A Casa das Musas #3

O espaço de Érato, a musa da poesia lírica, seria um jardim solarengo e primaveril, com flores, plantas exóticas que apenas ali existiriam; os visitantes só as poderiam conhecer ao vaguear pelos seus caminhos enigmáticos. No coração deste jardim encontravam-se dois lagos, repousando um no outro, convidando os visitantes a purificarem-se nas águas límpidas. Perto dos lagos, uma orquestra tocava Mozart, acompanhando os cheiros intensos e mágicos do jardim, funcionando a sua música como um mapa para os enigmas do percurso.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Casa das Musas #2

Para Clio, a musa da história, imaginei uma enorme biblioteca labiríntica, com corredores compostos de livros; por estranho que pareça, nenhum visitante se perdia no seu interior, apesar do traçado complexo do percurso. Os livros podiam ser consultados livremente, estando empilhados nas paredes dos corredores; no ar sentia-se um aroma a café, misturado com um suave incenso, que se intensificava ao folhearmos algum livro. O tecto do espaço era uma enorme clarabóia, por onde a luz entrava, tornando-se difusa por entre a diversidade rítmica da biblioteca. O trajecto convidava ao silêncio e à reflexão, porque à medida que se caminhava neste espaço, interiormente os visitantes sentiam a voz da musa, que lhes cantava o passado dos homens e das cidades.

domingo, 16 de maio de 2010

A Casa Das Musas #1

A palavra museu teve origem em mouseión, que na antiga Grécia significava o templo das musas, das nove filhas de Zeus e Mnemósine, a deusa da memória. As musas eram figuras mitológicas que tinham a capacidade de inspirar os poetas e os músicos. Partindo da génese da palavra museu, como a casa do conhecimento, imaginei um edifício composto por nove espaços dedicados a cada uma das musas. Ontem li as nove narrativas, na Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves em Lisboa, no Dia e Noite dos Museus 2010, mas vou deixar uma por dia aqui no blog:

O espaço de Calíope, musa da eloquência, teria um corpo temporal, visto que ela inspira o ritmo dos versos e das frases na prosa oratória; seria composto por cadências de escadas verticais, formando grupos alternados, com pequenas plataformas de silêncio horizontais, funcionando como pausas respiratórias, para os visitantes que persistiam em subi-las apressadamente. Os trajectos provocariam uma espécie de transe, acentuada pelas cores, que surgiam alternadas no espaço, em feixes de luzes harmónicas. O som neste lugar seria um pano de fundo, sempre suave e grave, como um murmúrio.