O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Dia-a-dia #277

Vinha para casa com os sacos das compras do supermercado e em pleno jardim do Campo Pequeno, neste dia quente, estava um bando de pinguins fardado a rigor, a praxar um grupo de miúdos. O ritual era militarista, o pinguim da colher de pau urrava ordens, os miúdos tinham de fazer gestos iguais, contavam em alto e rematavam com um 'Ai!' uníssono. Aproximei-me e disse-lhes bem alto: "Isso é que é brincar ao fascismo!?!?". Parou tudo. Pousei os sacos no chão, cruzei os braços e fiquei em silêncio a ver se me respondiam. Os miúdos ficaram na mesma posição virados para os pinguins. Os pinguins começaram a bichanar entre eles e elas e com risinhos nervosos. Os miúdos estavam virados em frente, mas espreitavam com os olhos na minha direcção, até o pinguin da colher dizer, num tom baixo, para não ligarem. Encolhi os ombros, peguei nos sacos e abalei. Quando já estava na minha rua recomeçou a parada. Pensei:mas porque é que fui mandar a boca se é igual? Bom, pelo menos tentei fazer alguma coisa.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dia-a-dia #276

Para além do vento levantar as porcarias que caem dos plátanos e voam por todo o lado, fazem cósegas, dão comichões, fazem os olhos chorar e dão cabo da respiração; os animais e vegetais estão reunidos em torno da arena raios que a partam, inaugurou a temporada com fados e cornetas e os Maranata cantam mal e sempre à mesma hora, espero que se calem também pontualmente.

Dia-a-dia #275

A primeira vez que li a «Aparição» de Virgílio Ferreira foi numas férias da Páscoa, estava em Lisboa a visitar os meus irmãos mais velhos que viviam no apartamento da minha avó Ana. Encontrei o livro no quarto do meu primo Luís, que tinha a coleção RTP (ele não o leu de certeza, nem deu por lho gamar). Tinha catorze anos e ainda vivia em Évora. Mais tarde voltei ao livro e vou continuar a voltar de certeza. Hoje fui bastante reticente ver o filme. Foi uma grande surpresa: a fotografia lindissima, gostei dos actores, do guarda-roupa, decors e ambientes, reconheci muitos sítios, as ruas de Évora, os sinos da Sé. O Fernando Vendrell está de parabéns, é um belo filme, a não perder.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Poemas # 125

Poemas quotidianos

como o sol
como a noite

como a vontade de comer
e o sono

como as preocupações
e o amor

e porque saio à rua
e trabalho
diariamente

António Reis. “Poemas quotidianos” (1957). Lisboa: Tinta da China, 2017.p.27

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Dia-a-dia #274

Sonhei que o júri do meu doutoramento não conseguia ver as imagens que se encontram em anexo na tese, em formato digital, porque estavam encriptadas. Que absurdo! Acordei a pensar que agora ao menos aparecem situações relacionadas com a tese de doutoramento no meu subconsciente, em vez das caves da escultura.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Dia-a-dia #273

Hoje perdi algum tempo à procura de um livro-guia que trouxe há alguns anos do Museu Morandi em Bolonha. Os armários dos livros por cá estão dispostos em várias zonas, e divididos também em ensaio, ficção, livros de arte, poesia e por sua vez, dentro de cada género os autores estão disposto por ordem alfabética. O Morandi estava no meio dos tijolos, não sei como lá foi parar, estava fora de ordem entre ensaios no armário à entrada da casa de banho. Quando acontecem estas coisas só me pergunto: mas porque é que tenho tanto livro? Talvez fosse altura de reduzir e fazer a triagem, afinal não são muitos os livros que estamos a ler e a ver continuamente, ou queremos lá voltar.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Dia-a-dia #272


Voltava hoje de Évora, de boleia com os meus sobrinhos mais velhos e estava a olhar para a paisagem na auto-estrada. Naquela zona de transição do montado para pinhal, já perto de Vendas Novas, os cabos de alta tensão têm verdadeiros condomínios privados de cegonhas. Até comentei com os miúdos, que já estão graúdos: mas porque raio as cegonhas vão para ali fazer os ninhos? Será que gostam da radiação? Aquilo deve ser quentinho.