Sonhei que o júri do meu doutoramento não conseguia ver as imagens que se encontram em anexo na tese, em formato digital, porque estavam encriptadas. Que absurdo! Acordei a pensar que agora ao menos aparecem situações relacionadas com a tese de doutoramento no meu subconsciente, em vez das caves da escultura.
Hoje perdi algum tempo à procura de um livro-guia que trouxe há alguns anos do Museu Morandi em Bolonha. Os armários dos livros por cá estão dispostos em várias zonas, e divididos também em ensaio, ficção, livros de arte, poesia e por sua vez, dentro de cada género os autores estão disposto por ordem alfabética. O Morandi estava no meio dos tijolos, não sei como lá foi parar, estava fora de ordem entre ensaios no armário à entrada da casa de banho. Quando acontecem estas coisas só me pergunto: mas porque é que tenho tanto livro? Talvez fosse altura de reduzir e fazer a triagem, afinal não são muitos os livros que estamos a ler e a ver continuamente, ou queremos lá voltar.
Voltava hoje de Évora, de boleia
com os meus sobrinhos mais velhos e estava a olhar para a paisagem na auto-estrada.
Naquela zona de transição do montado para pinhal, já perto de Vendas Novas, os cabos
de alta tensão têm verdadeiros condomínios privados de cegonhas. Até comentei
com os miúdos, que já estão graúdos: mas porque raio as cegonhas vão para ali
fazer os ninhos? Será que gostam da radiação? Aquilo deve ser quentinho.
Ontem fui ver «Se eu vivesse tu morrias» de Miguel Castro Caldas na Culturgest. Uma peça que vive do texto, das várias relações que se estabelecem com um texto. Tudo começou com uma gravação onde se ouvia a leitura da errata do texto da peça, que estava num livro que foi distribuído por quem estava a assistir. Era assim possível ler e ver a peça. Era difícil, tinha os óculos novos na ponta do nariz para ler e como estou com o dobro da graduação no olho esquerdo (literalmente u...m olho virado para a merda outro para o infinito, que as lentes pretendem corrigir) a focagem da leitura e visão do palco era totalmente marada, mas os actores alertavam-me também para os números das páginas. No palco vivia-se a oralidade das palavras que os actores davam corpo na leitura, no livro o texto por vezes encontrava-se impresso ao contrário. Surgiram então momentos onde já não lia o livro, seguia apenas a acção no palco, um enredo composto por um triângulo amoroso, acentuado por projecção de imagens, que também existiam no livro. As personagens eram trágico-cómicas. Na sequência de acções em que a peça se desenvolveu, constantemente a palavra nas suas várias materializações, em texto impresso ou oralizado no corpo dos actores, interpelava a existência, o amor e a morte. Um texto que questionava a acção a decorrer, através do poder das palavras, da sua verdade e falsidade, oscilando entre a crueldade e o lirismo. Gostava muito que o livro que esteve nas minhas mãos durante a peça fosse publicado, se bem que não reproduz de maneira alguma o momento único que foi assistir à peça. Mas pelo menos assim poderia voltar ao texto e também às imagens, ao registo desse momento presente no livro, para poder reflectir novamente sobre as questões eternas da existência, do amor e da morte levantadas naquele momento que vivi.
Sonhei que ia defender a minha tese de doutoramento, antes do ritual começar. No antigo anfiteatro de madeira das Belas-Artes, que já não existe, estavam várias pessoas presentes: os meus pais e irmãos, assim como alguns representantes do meu passado; a professora de desenho do 12º ano, cumprimentei-a e ela disse que não me via desde Chelas. Chelas? Mas ela foi minha professora na António Arroio; a minha professora do 3º ano de escultura, um ser humano maravilhoso, lá estava... com o seu sorriso luminoso. Nisto aparece um amigo que é um assumido anti-académico, um intelectual brilhante que muito admiro, e foi o único que reparou que estava à rasca, pergunta-me o que se passa. Respondo-lhe que não fiz o powerpoint para apresentação e me esqueci de trazer um exemplar da tese, se me fizerem alguma pergunta referindo o que escrevi na página tal, vai ser uma desgraça por que não me lembro, nem posso ver. Ele começa a rir à gargalhada, aliás, desatamos a rir os dois, e eu informo-o que trago apenas uma cábula com um discurso. Ele diz-me que vai correr tudo lindamente. Quando acordei estava já a discursar no anfiteatro, a agradecer diplomaticamente a todos os que estavam presentes, e ao júri que tinha vindo de tão longe. Sentia que já era de dia, mas não, vi as horas, eram 4h da matina, fiquei a matutar sobre o assunto, mas nem me mexi de onde estava.
Já vos disse que pinto coisas que não sei o que são, mas acho que consigo ver? Hoje estive de volta de uma panorâmica que tem como pano de fundo a sede do banco central europeu. A polícia de choque avança nesta paisagem e na vanguarda, um oficial fardado a rigor, aponta a arma para um cachaço de bovino e três postas de salmão. Carne ou peixe, só fauna nesta paisagem sem flora. Ao fim da tarde parei para ouvir o Concerto para piano n. 2 de Rachmaninov interpretado pelo anjo Evgeny Kissin. Voltei a olhar para a paisagem humana em construção e concertei-a pintando uma aura em torno do peixe e da carne. Olhei de novo o tropa a disparar sobre o que já está morto. Parece uma sombra. Está frio. Agora vou jantar sopa quente e rica em proteina vegetal.
A gata Lua tem imensa cultura artística: ouve em silêncio música que a maior parte dos humanos não aguenta – os cães fazem imenso barulho e as pessoas também. Antigamente, ela atacava e mordia textos filosóficos – são bons para limpar o organismo; agora, se me distraio, vai directa ao que escrevo. A Lua também gosta de pintura sobre madeira – é boa para afiar as unhas; ultimamente, dorme sobre uma escultura que estou a modelar – trata-se de um diálogo com Camões. Ontem encontrei-a lá refastelada, a ouvir o Richter e o Rotropovic a interpretarem as sonatas para piano e violoncelo de Beethoven.
O Sol a espreitar
O gato Sol teve hoje uma experiência nova: estive toda a manhã a pintar e a ouvir a Antena 2. Ele aparentemente reagiu bem, dormiu no sofá ao pé de mim, até que reparei que acordou assustado: na rádio Puccini e as pinturas estavam no chão a secar. Ele saltou e foi cheirá-las desconfiado. Depois olhou para mim e dirigiu-se para a porta do quintal, que abri para o deixar ir à sua vida. Deduzo que não gostou nem de Puccini, nem das minhas pinturas.
Da Natureza-Morta Social
O que é uma " natureza-morta social" ? Conheci este conceito porque foi título de um livro de poemas de Daniel Falb, para o qual contribuí com a imagem da capa. A imagem interpretava um poema que se encontra no interior do livro, não foi feita a pensar numa "natureza- morta social", mas ao lado do título ganhou outra dimensão. O que é uma "natureza-morta social"? Ora aqui está uma pergunta que faço desde que o livro foi publicado em 2009. Por isso comecei a pintá-las no dia 14 de Novembro de 2012.