Hoje tive de ir às Belas-Artes. Estive a fumar um cigarro numa varanda no primeiro andar, a olhar para as caves da escultura. Ainda não tinha reparado que plantaram dois ciprestes no pátio das oficinas. Excelente ideia, os ciprestes não têm de estar apenas nos cemitérios. E dá uma certa verticalidade, é pedagógico para os alunos, visto que a escultura se desenvolve sobretudo na vertical. E faz pendant com as campas das caves. Reparei também que fizeram uma rampa em metal, que vem da oficina de pedra até à entrada do pátio. Não deve ser para deficientes motores ou idosos. Rolling stones. Lembrei-me de ter ouvido por lá uma definição de escultura jeitosa: é um objecto que rebola por uma encosta e chega lá abaixo intacto. Agora já podem demonstar isso, mas eu não ponho lá os pés de certeza. Prefiro vistas aereas.
O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
sexta-feira, 24 de março de 2017
terça-feira, 21 de março de 2017
Dia-a-dia #261
Na passagem de século estava tudo histérico, diziam que o mundo ia acabar. Fugi para o campo em direcção ao norte com um grupo de amigos. A casa era um paraíso bucólico onde recuamos mais um século: na entrada corria uma fonte com água da serra, o piso térreo era em pedra e o superior animado por janelas de guilhotina. Subíamos as escadas e à direita estava a típica cozinha com uma chaminé larga. Outra fonte de água corria num lavatório por baixo de uma das suas janelas. Lavávamos as mãos ou a loiça a olhar a paisagem. Em frente ficava a sala de jantar, antes do corredor para os quartos. A festa da passagem de século foi na sua enorme mesa ladeada por cadeiras Thonet. Na parede um antigo relógio contava o tempo. A água a correr na água e o relógio a cantar as horas suspenderam-nos num espaço-tempo. Nos quartos amassamos os colchões de barba de milho antes de fazer as camas. Na sala ao fundo do corredor tocava-se Chopin no piano de calda, com móveis e antigos retratos na parede a condizer. Ao lado ficava o quarto do Bispo. Às tantas, o pianista lembrou-se de ir a esse quarto vestir uma das batinas intemporais. Na sala de jantar bebíamos vinhos de superior qualidade. Riamos sem parar com o mascarado, até que de forma inexplicável, o pianista padre ia-se estatelando pelas escadas de granito polido abaixo. Teve então de retirar os hábitos para a festa continuar. De qualquer modo, mesmo com o relógio a contar o tempo e a cantar horas, ao som da água a correr, ninguém deu pelo momento exacto da passagem de século.
segunda-feira, 20 de março de 2017
Leituras #34
UM HOMEM SÁBIO
É difícil amar?:
Não é fácil, mas é bom. E se não se amar não se vive. Tive uma analisanda — professora de psicologia — que um dia me disse que tinha descoberto que eu era religioso, que o meu deus era o amor. Acho que é verdade. É a coisa que nos mantém, que nos entusiasma e pelo qual vale a pena lutar.
Como sabemos se é amor verdadeiro?:
É um amor oblativo, que se propõe a dar. Mais do que captar. As relações são boas quando são recíprocas. No amor, na amizade, nas relações pessoais evoluídas, o mais importante é a pessoa. Enquanto que em relações mais primárias, mais biológicas, o que interessa é o que a pessoa nos dá. Uma coisa é eu gostar daquela pessoa como pessoa, e gostar de estar com ela, da companhia dela, de fazer projetos com ela. Outra coisa é estar a pensar em ir para a cama com ela.
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Dia-a -dia #260
Sábado passado, dia 18 de Março apresentei "A Grua" de Henrique Manuel Bento Fialho, livro publicado pela Volta d'Mar, aqui fica o texto:
Quando o Henrique me
pediu para apresentar o livro, disse-lhe já tinha participado na apresentação
de dois livros de poesia, mas a falar de ilustração, porque era autora imagem
da capa. Não aceitei logo, li primeiro o livro. Quando estava a ler, de imediato
comecei tirar apontamentos, depois telefonei-lhe a dizer que o conseguia
apresentar. Trago aqui alguns dos apontamentos para não me perder. Alerto-vos
já que não sou a autora da capa, onde vemos uma grua, que vai ser a imagem
central que percorre todo o livro.
Sou pintora, mas também
sou leitora de poesia. Uma das coisas que me agrada nesta arte maior das
palavras é que, antes mesmo de ler um poema, posso ver a mancha do texto nas
páginas. Observo a superfície textual dos versos que é variável, ao contrário
de uma prosa escrita, que é mais monótona. Há também uma grande qualidade na
poesia, que se relaciona com capacidade de síntese, a sua forma estética permite
condensar uma enorme quantidade de informação. Aquilo que um ensaio ou uma
narrativa nos diz em quilómetros de páginas, na poesia surge com uma escala
mais pequena, talvez mais humana, se é que se pode falar assim. Em termos musicais, confesso que também tenho mais empatia
em escutar um nocturno de Chopin, do que levar com uma ópera de quatro horas de
Wagner, com toda aquela mitologia nórdica para a eternidade, e efeitos
especiais para o público acordar a meio.
A forma
estética num poema é essencial, porque estamos perante uma arte onde as
palavras se afastam do seu uso corrente ou vulgar. Isso acontece através de
inúmeros processos. A linguagem surge-nos despragmatizada através do ritmo
sonoro das palavras, podendo os aspectos fonéticos atribuir melodia, e fazerem
ou não parte da constituição de significado. A oralidade nesta arte continua a
ser muito importante, temos de ter em conta que a poesia começou por ser oral,
e só muito mais tarde se tornou escrita. Depois de eu falar, o Fernando Mora
Ramos irá fazer as leituras do livro, que tem muito mais interesse.
No passado
os cânones tradicionais da métrica e da rima eram também ferramentas que
auxiliavam a memorização dos poemas. Esse desvio da linguagem do seu uso vulgar
pode também ser feito através da metáfora e da metonímia, ou com processos de
alteração da sintaxe, podendo mesmo essas alterações terem um
significado visual concreto, no caso do verso linear ser substituído pela
ideografia. Ora, neste livro do Henrique estamos
perante um cuidadoso uso do verso livre, digo cuidadoso porque não recusa o
potencial fonético das palavras no seu significado, num poema-sequência que tem
uma forte carga imagética, que marca o carácter dramático ao longo do seu
desenvolvimento
Em termos de prática artística, eu também me
tenho aproximado da poesia através da ilustração. Não gosto nada palavra
ilustração, acho-a demasiado literal. Quando crio uma imagem a partir de um
poema, tenho a noção de que ela não o vai explicar ou esclarecer a sua leitura. Prefiro
a palavra interpretar a ilustrar, porque nessa tarefa sinto-me como um
instrumentista a tocar e dar corpo a uma partitura, que no fundo é uma música
teórica. É um processo semelhante quando pinto a partir de um poema, tenho de
sair de mim própria para lhe dar um novo corpo através da imagem. Mas as
imagens surgem de uma forma sucessiva nos poemas.
A poesia tem essencialmente um corpo temporal ao ser ritmo sonoro
de palavras e neste aspecto, aproxima-se da música. Mas a música é da ordem do
invisível, o som não tem imagem, o corpo inefável da música é o próprio tempo. A
pintura, pelo contrário, é uma silenciosa arte do espaço. Existe, no entanto, a
hipótese da pintura conter uma certa temporalidade, através de ritmos visuais
criados por repetição de cores, representação de translações ou rotações de
formas, até mesmo sequências de imagens num mesmo espaço bidimencional, que
simulam movimento, e permitem formar aquilo a que se chama narrativas
visuais. Quando interpreto um poema, tenho sempre o problema de só estar a construir
uma imagem. Posso, no entanto, associar várias imagens que vejo num poema, numa
mesma pintura. Sinto que se perde sempre algo neste processo, devido à
construção da ser imagem limitada. Aquilo que vejo acaba sempre por ser um ponto de
vista.
Bom, o que vos queria
dizer é que existem encontros e desencontros entre estas duas artes: a poesia e
a pintura. No diz respeito à percepção estética de ambas, sinto que nos exigem
uma concentração que funciona como pausa ou uma suspensão do tempo que está a decorrer.
Quando lemos um bom poema ou observamos uma pintura, ambos nos provocam
ressonâncias interiores, porque os ficamos a digerir. Por exemplo, numa leitura
à primeira vista de um poema, se fixo de imediato algum verso é bom sinal. Se
termino a leitura e desejo ler outra vez, e releio, e continuo a ler, melhor
ainda. O mesmo se passa com uma boa pintura, depois de a contemplar, não me
esqueço dela e continuo a vê-la interiormente, e com vontade de voltar a ver.
Em relação ao livro do
Henrique, quando lhe telefonei a aceitar o desafio disse-lhe logo quais os versos
que tinha decorado à primeira vista. Mas fazendo o paralelo com o que é ler uma
partitura musical, numa leitura à primeira vista não é possível conhecer a
música no seu todo, ficasse apenas com uma ideia. Quando voltamos a ler, vamos
descobrindo subtilezas e detalhes que nos escapam no imediato, até começarmos a
descobrir a harmonia, para termos a noção do todo que ali se encontra, para o interiorizarmos.
Voltando aos
apontamentos que fui escrevendo sobre o livro do Henrique: como já referi,
trata-se de uma sequência em verso e foi dividida em vinte estâncias, que se
desenvolve com uma forte componente dramática e imagética. Logo início surge a
imagem central duma grua desactivada numa obra embargada, e um sujeito poético
observa esta paisagem melancólica, e pensa no passado construtivo e útil desta
máquina silenciada devido à falência dos construtores.
Aparece então a primeira situação dramática: um enforcamento a
atribuir uma nova função a esta grua. Somos também confrontados com a reacção da
população, que fotografa o homem tombado na grua e partilha as imagens. De imediato
lembrei-me do Je Suis charlie,
movimento que surgiu nas redes sociais quando os cartoonistas foram assassinados
em Paris. O poema diz-nos:
as pessoas gostam de se ajuntar
ao redor das ocorrências
comentam em surdina infortúnios e desgraças
imaginam motivos e inventam razões
são de uma agilidade insuspeita
quando se lhes pedem cenários
para tragédias alheias
mas detestam ser ameaçadas
pela exibição constante da morte
Entramos depois num universo
onírico: ele sonha com a grua numa tempestade onde apenas o seu gancho se move
como um pêndulo. Este sonho/pesadelo inicia um diálogo interior no sujeito que
observa a grua diariamente. O poema diz-nos: e não foi em sonhos que vi esta grua voar.
Nos diálogos
interiores, ele projecta-se nesta paisagem quotidiana que observa da janela do seu
quarto, espaço privado onde adormece, sonha, acorda e pensa. Surgem assim reflexões
sobre as relações entre o sonho, a imaginação, a realidade, a loucura, as intempéries
naturais, o estado do mundo, e também sobre a sua própria existência
individual.
Ao observar que a grua
desenha na paisagem um triângulo escaleno, ele reflecte também sobre o cosmos
da geometria e o caos do mundo, e sobre as fórmulas e a falência de teoremas. Assume-se
depois como uma forma deformada, descrente nos homens ou utopias. Sente-se
cansado, mas não perde o espanto em observar aquela grua quotidiana silenciada,
sempre a indicar o caminho de obra embargada, edifício emparedado e máquina
inutilizada. Nestas projecções do sujeito na paisagem surge
um dos momentos mais belos desta sequência, também por ser uma reflexão sobre
as próprias palavras dentro do poema. Desculpem lá, eu não resisto e vou ter de
ler:
as palavras têm seu peso
quando dizemos amor
a palavra levita como uma pena
no regaço de uma brisa de verão
quando dizemos ódio
a palavra cai na terra e levanta pó
é como uma pedra
arremessada sem perdão
mas se dissermos silêncio
quem por nós erguerá tamanho peso?
é palavra tão sem medida
que mil braços humanos não chegariam
para levantá-la um milímetro que fosse
desse chão onde o ódio nos espatifa
queria uma grua que levantasse o silêncio
à altura do nosso amor
para que daqui onde me encontro
pudesse continuar a olhar-te
à distância de um sonho
onde fosse autêntico como um punhal
cada vocábulo deste triste quadro
os teus lábios são um navio de esperança
a minha boca um porto de abrigo
e à deriva andamos ambos na ausência um do outro
enquanto reclamamos
de ser tudo como dantes:
tão indolente que parece quase
morto
tão indolente que prece quase morto
Este sujeito poético
fechado, cansado, sente-se impotente em relação ao estado do mundo. Refere então
que os poetas do seu tempo, sobretudo as raparigas reivindicam incêndios, mas parecem-lhe
fósforos inofensivos. (Aqui lancei a pergunta ao Henrique, se faz sentido nos
tempos conturbados em que vivemos, existir uma lírica social). Perto do fim
desta sequência, de um modo inesperado, é-nos anunciado com data e tudo, que houve
uma fusão entre o sujeito poético e objecto grua. Surge assim: “se digo nós é porque já não distingo/ quem
discursa no interior desta morte.”
Esta fusão é apresentada
também como um momento em que ambos claudicaram ou seja, vacilaram, fraquejaram
ou coxearam em conjunto. Vou terminar a apresentação com as palavras
finais deste poema sequência do Henrique, porque é um final aberto:
seja então
este o antepenúltimo verso
conquanto
todas as manhãs desabrochem
no planalto dos
sonhos.
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Dia-a-dia 259
Hoje depois do almoço passei pelas brasas na varanda da BN até o som de um avião me entrar directamente no cérebro. Num estado intermédio fiquei ainda a observar a escultura-esfinge do António Campos Rosado, o que é sempre um prazer. Acho que já aterrei ou estou de volta à carga novamente.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Dia-a-dia #258
Na praia estou tão zen ao sol e nem ligo: a pessoal que põe música em alto no telemóvel; ou a quem abre a boca só para dizer palavrões; quem usa esse tipo de vocabulário e joga à bola; os grupos de grunhos aos pulos com uma bola à beira-mar; o jogo das raquetes; as bolas que atinguem criancinhas; adolescentes com as hormonas aos pulos que riem e dão gritinhos; fedelhos que entram na água a correr e a chapinhar; adultos que fazem o mesmo e alegremente atiram água uns aos outros; não ligo a quem comenta a temperatura da água comigo e acha estranho não responder; pessoal que não sabe o que é um caixote do lixo apesar de haver vários na zona; que mandam beatas para a areia; não ligo às ratazanas debaixo do chapéu de sol com chapéus de pala entretidas a afiar a língua com a vida dos outros; ou outras ratazanas; camarões e lagostas de importação; as bolas das raquetes; as bolas que atigem qualquer um que passa; a avó aguda que chama o neto na água com o vocabulário apropriado; ratazanas a rosnarem; famílias inteiras aos gritos cujo o pacote inclui os guinchinhos dos mais pequenos; criancinhas que gritam como se as tivessem a matar, mas afinal não aconteceu nada.
Na praia fiquei tão zen ao sol que adormeci, mas não me lembro do que sonhei.
Na praia fiquei tão zen ao sol que adormeci, mas não me lembro do que sonhei.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Dia-a-dia#257
Voltei a sonhar que ainda estava nas Belas-Artes nas caves da escultura, vi-me na sala do terceiro ano rodeada de vultos cobertos por sacos de lixo pretos. Com um grupo de colegas discutia qual seria a melhor tecnologia a frequentar nesse ano e houve um que sugeriu ir para os plásticos. Eu fiquei indignada e disse logo que não, nunca mais iria entrar nesse antro sujo, era muito melhor ir para os metais. Vejo lá fora pelos vidros a passar a prof. Virginia com os dois filhos ainda miúdos e faço-lhes adeus. Foi maravilhoso vê-la passar naquele mau ambiente, ainda existem pessoas boas. E nisto estou a modelar uma pequena maquete em cima da mesa, olho para a minha mão esquerda e vejo um prego espetado na palma. Mas como é que isto foi acontecer? Um colega diz que foi por estar a frequentar os metais. Puxo o prego e com ele vem um tubo de sangue e começo a sangrar, pego num pano e embrulho a mão. Pergunto se existe algum sítio na Faculdade com material de primeiros socorros. Dizem-me que isso já foi há muito tempo, houve disso, mas agora já não. Acordo em pânico a pensar que tenho de ir ao meu centro de saúde. Doi-me a minha mão esquerda por causa da sinovite, olho para ela e penso: será que tenho esta porcaria desde os tempos das Belas-Artes?
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