O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dia-a-dia #237

Voltei a sonhar que estava nas caves das Belas-Artes, à minha volta via os vultos cobertos por sacos de plástico pretos, estava em pânico com a quantidade de trabalho a fazer. Nisto reparo que um colega construía uma colagem com pneus, em vez de trabalhar o barro e fui perguntar-lhe onde os tinha arranjado. Ele respondeu-me que os conseguiu através do jornal "Record", que comprava sempre. Eu avisei-o para ter cuidado, que ali iam considerar que se tratava de um objeto de design e não uma escultura. Nisto avisam-me que saíram as notas de desenho e subo ao primeiro andar: vejo um nove na pauta, não acredito, o Matos Simões chumbou-me. Mas como é possível? Nunca tinha visto o homem, já me tinham avisado que detesta mulheres, só apareceu na avaliação e ficou histérico. Acordei revoltada porque alguma coisa se deveria fazer, como reunir todas as alunas prejudicadas para colocar um processo por insanidade naquele misógino.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Dia-a-dia #236

Hoje em vez de sonhar com as caves das Belas-Artes, recuei ao secundário em Évora. Estava numa aula de filosofia e havia debate, a professora preocupada comigo, dizia-me que tinha ideias excêntricas para a minha idade. Nisto vejo-me na minha casa em Lisboa, à procura da gata Lua, não sabia onde se tinha escondido. Os espaços estavam um bocado alterados, a cozinha era parecida, mas funcionava como um corredor alcatifado de vermelho escuro; chego à marquise, as janelas estavam todas abertas, alguém tinha pendurado lá fora uma enorme quantidade de roupa. Fecho as janelas, a gata poderia ter saltado para o quintal, mas vejo que estava dentro de um armário, toda enrolada a dormir. E era a Lua ainda bebé. Acordei a pensar que ter ideias excêntricas e gostar de gatos faz sentido.

domingo, 9 de agosto de 2015

Dia-a-dia #235

Voltei a sonhar que ainda estava nas caves da escultura nas Belas-Artes, tinha voltado para lá em Janeiro e por isso, tinha perdido o 1º trimestre do ano - isso aconteceu na realidade à 20 anos, quando vim do Canadá para o 3º ano de Escultura. À minha volta vi que os projectos estavam bastante adiantados e senti-me perdida. A professora Virgínia animava-me e convencia-me a trabalhar o barro, mas eu olhava para o horário, com as várias disciplinas e estava preocupada com o que já não poderia fazer: história de arte, geometria descritiva era impossível, já tiveram testes. Talvez conseguisse fazer a cadeira de desenho, mas para isso tinha de ir ao 1º andar. Já no pátio da escultura, reparo que o edifício se encontrava em obras e para sair dali comecei a trepar os andaimes. A estrutura termia toda, estava perigosa e entre os andares estavam colchões, numa espécie de andaimes beliches, que apenas se conseguia entrar pelos lados. No meio desta aventura alpinista perdi a carteira do dinheiro, caiu do bolso das calças. Acordei em pânico à procura dela entre os colchões.

domingo, 2 de agosto de 2015

Dia-dia# 234

E voltei a sonhar que ainda estava nas Belas-Artes, desta vez queria mudar de curso para outra universidade, mas a logística era muito complicada. Encontrei um colega que trabalhava nos audiovisuais e estava a passar pelo mesmo processo, ele avisou-me do pagamento das taxas de transferência e da burocracia a tratar. Nisto vejo-me a ser entrevistada para fazer a admissão, estava tudo a correr bem, o professor fazia-me preguntas sobre o meu percurso na escultura e pintura, mas às tantas colocou-me uma pauta de música sobre a mesa e pediu-me para ler. Fiquei aflita e disse-lhe: tenho alguma formação musical, mas não sei ler assim à primeira vista, com a ajuda dum teclado poderei fazer alguma coisa. O professor era simpático, agora que me estou a lembrar, é muito parecido com um leitor que costuma estar na BN, que tem olhos verdes, cabelo desalinhado grisalho e cara de judeu. Ele respondeu-me: mas acha que alguém consegue ler isto à primeira vista? É mentira, ninguém o faz aqui nos estudos literários, e nos estudos musicais, à primeira vista ficam a perceber cerca de 20% do que lá está. 

 Fiquei então a achar que tinha hipóteses de ir para os estudos literários. Seguia-se uma sessão fotográfica para identificação e à minha frente estavam duas raparigas, formávamos uma fila à entrada. Lá dentro deparei-me com um estúdio onde estava tudo preparado para a performance ser registada a rigor, a primeira rapariga sobe ao palco e começa a despir a camisola. Acordei em pânico a pensar: mas é assim que se consegue mudar de curso?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Dia-a-dia #233

E voltei a sonhar que ainda estava nas caves das Belas-Artes, desta vez na oficina de metais, era só homens a trabalhar, pareciam uns bate chapas. Eu não conseguia fazer nada, nem sabia o que fazer. Nisto apareceu o professor que era um verdadeiro troglodita de fato-de-macaco, estava a dar instruções sobre uma peça em cima da mesa. Não percebia nada do que o homem estava a grunhir e aquilo era tudo com ângulos de 90º, mas como era possível? Depois encontrei uma estudante estrangeira, ela era fotógrafa. Havia uma coincidência engraçada, ela também fazia fotogramas e utilizava textos. Foi um alívio, podia falar com alguém que me entendia, contei-lhe que tinha usado um texto do Rainer Maria Rilke num fotograma no Canadá, um texto feminista escrito no século XIX, mas ela não conhecia o autor. Disse-lhe também que estava a pensar mudar para pintura, porque não conseguia fazer nada nas caves. E ela avisou-me num português macarrónico: lá em cima na pintura tens de aturar as cabras das professoras. Subi ao primeiro andar onde estavam as mulheres e o panorama era deprimente: pintavam retratos, paisagens, naturezas-mortas com se tivessem sido obrigadas a parar no século XIX. Nisto reparo que um dos lavatórios estava entupido, a deitar água para fora e dirigi-me para lá. Com muito esforço consegui quase retirar um compasso antigo do meio da água colorida, dos que se utilizam para tirar medidas a volumes, estava quase quando acordei em pânico.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Dia-a-dia #232

E voltei a sonhar que ainda estava nas caves das Belas-Artes, mas ao contrário do que é costume, não estava atrofiada com o ambiente húmido e sinistro dos vultos cobertos por sacos de plástico negros. Sei que tinha de modelar um relevo, vi as tinas com o barro em preparação. E retirei grandes pedaços para cima de uma das mesas para o amassar. Acordei a pensar: eu sei fazer isto, vão ver como é quanto coloco as mãos na massa. Acho que foi a primeira vez que acordei deste sonho recorrente com capacidade de reacção, em vez de estar em pânico.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Dia-a-dia#231

Na varanda da BN, quase a adormecer, ouvi novamente uma rola turca, parece um cuco mas não é, segui o UuuuUuuuUuuuUuuu....... e já estava no pinhal, cheirava a férias com a serra de Sintra ao longe e passou um maldito avião, que me obrigou a voltar ao barroco num estrondo.