O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

domingo, 2 de agosto de 2015

Dia-dia# 234

E voltei a sonhar que ainda estava nas Belas-Artes, desta vez queria mudar de curso para outra universidade, mas a logística era muito complicada. Encontrei um colega que trabalhava nos audiovisuais e estava a passar pelo mesmo processo, ele avisou-me do pagamento das taxas de transferência e da burocracia a tratar. Nisto vejo-me a ser entrevistada para fazer a admissão, estava tudo a correr bem, o professor fazia-me preguntas sobre o meu percurso na escultura e pintura, mas às tantas colocou-me uma pauta de música sobre a mesa e pediu-me para ler. Fiquei aflita e disse-lhe: tenho alguma formação musical, mas não sei ler assim à primeira vista, com a ajuda dum teclado poderei fazer alguma coisa. O professor era simpático, agora que me estou a lembrar, é muito parecido com um leitor que costuma estar na BN, que tem olhos verdes, cabelo desalinhado grisalho e cara de judeu. Ele respondeu-me: mas acha que alguém consegue ler isto à primeira vista? É mentira, ninguém o faz aqui nos estudos literários, e nos estudos musicais, à primeira vista ficam a perceber cerca de 20% do que lá está. 

 Fiquei então a achar que tinha hipóteses de ir para os estudos literários. Seguia-se uma sessão fotográfica para identificação e à minha frente estavam duas raparigas, formávamos uma fila à entrada. Lá dentro deparei-me com um estúdio onde estava tudo preparado para a performance ser registada a rigor, a primeira rapariga sobe ao palco e começa a despir a camisola. Acordei em pânico a pensar: mas é assim que se consegue mudar de curso?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Dia-a-dia #233

E voltei a sonhar que ainda estava nas caves das Belas-Artes, desta vez na oficina de metais, era só homens a trabalhar, pareciam uns bate chapas. Eu não conseguia fazer nada, nem sabia o que fazer. Nisto apareceu o professor que era um verdadeiro troglodita de fato-de-macaco, estava a dar instruções sobre uma peça em cima da mesa. Não percebia nada do que o homem estava a grunhir e aquilo era tudo com ângulos de 90º, mas como era possível? Depois encontrei uma estudante estrangeira, ela era fotógrafa. Havia uma coincidência engraçada, ela também fazia fotogramas e utilizava textos. Foi um alívio, podia falar com alguém que me entendia, contei-lhe que tinha usado um texto do Rainer Maria Rilke num fotograma no Canadá, um texto feminista escrito no século XIX, mas ela não conhecia o autor. Disse-lhe também que estava a pensar mudar para pintura, porque não conseguia fazer nada nas caves. E ela avisou-me num português macarrónico: lá em cima na pintura tens de aturar as cabras das professoras. Subi ao primeiro andar onde estavam as mulheres e o panorama era deprimente: pintavam retratos, paisagens, naturezas-mortas com se tivessem sido obrigadas a parar no século XIX. Nisto reparo que um dos lavatórios estava entupido, a deitar água para fora e dirigi-me para lá. Com muito esforço consegui quase retirar um compasso antigo do meio da água colorida, dos que se utilizam para tirar medidas a volumes, estava quase quando acordei em pânico.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Dia-a-dia #232

E voltei a sonhar que ainda estava nas caves das Belas-Artes, mas ao contrário do que é costume, não estava atrofiada com o ambiente húmido e sinistro dos vultos cobertos por sacos de plástico negros. Sei que tinha de modelar um relevo, vi as tinas com o barro em preparação. E retirei grandes pedaços para cima de uma das mesas para o amassar. Acordei a pensar: eu sei fazer isto, vão ver como é quanto coloco as mãos na massa. Acho que foi a primeira vez que acordei deste sonho recorrente com capacidade de reacção, em vez de estar em pânico.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Dia-a-dia#231

Na varanda da BN, quase a adormecer, ouvi novamente uma rola turca, parece um cuco mas não é, segui o UuuuUuuuUuuuUuuu....... e já estava no pinhal, cheirava a férias com a serra de Sintra ao longe e passou um maldito avião, que me obrigou a voltar ao barroco num estrondo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Dia-a-dia #230

Preparava-me para dormir a sesta na varanda da BN, hábito recente que me sabe bem após o almoço até que passe um avião dos que entra directamente nos sonhos, mas estava uma mulher aos berros com o Tó Zé no telemóvel, deveria ser o ex-marido, aquilo é pior que os aviões, faz mal à saúde e deveria de ser proibido. Fui beber um café BN que por sinal é pior que o café espanhol.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dia-a-dia #229

A desterrada a lembrar-se das palavras de um homem da montanha: “Será talvez alucinação do poeta. Mas porque nela (Évora) se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de lu...ar. E, sem guia, mandá-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no politico e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.” In Miguel Torga – “Portugal”, Edição do autor, Coimbra 1957, p-124-126.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dia-a-dia#228

Sonhei estava nos arcos da praça do Giraldo, descia em direcção à Igreja de S. Francisco na companhia de três professores, dois deles sei que já morreram e tinham óculos dos anos 60 nos olhos, um está vivo mas velhote. O velhote em tom provocatório disse-me: "não entendo porque foste para as Belas-Artes, não deverias ter feito isso". Respondi-lhe: "não se pode fazer nada em relação ao passado, não posso voltar atrás e mudar. Só o posso aceitar". Nisto eles entraram num café e eu continuei em direcção ao mercado, era de madrugada, lembro-me do movimento dos vendedores, as cores das frutas e legumes. O pior foi voltar para trás, para a casa dos meus pais em Évora, vi as janelas do rés-do-chão, uma delas tinha a forma de um armário parecido ao da minha sala em Lisboa, as portadas estavam abertas. Acordei quando estava a saltar lá para dentro, estava quase a entrar.