E voltei a sonhar que ainda estava nas caves das Belas-Artes, mas ao contrário do que é costume, não estava atrofiada com o ambiente húmido e sinistro dos vultos cobertos por sacos de plástico negros. Sei que tinha de modelar um relevo, vi as tinas com o barro em preparação. E retirei grandes pedaços para cima de uma das mesas para o amassar. Acordei a pensar: eu sei fazer isto, vão ver como é quanto coloco as mãos na massa. Acho que foi a primeira vez que acordei deste sonho recorrente com capacidade de reacção, em vez de estar em pânico.
O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
segunda-feira, 20 de julho de 2015
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Dia-a-dia#231
Na varanda da BN, quase a adormecer, ouvi novamente uma rola turca, parece um cuco mas não é, segui o UuuuUuuuUuuuUuuu....... e já estava no pinhal, cheirava a férias com a serra de Sintra ao longe e passou um maldito avião, que me obrigou a voltar ao barroco num estrondo.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Dia-a-dia #230
Preparava-me para dormir a sesta na varanda da BN, hábito recente que me sabe bem após o almoço até que passe um avião dos que entra directamente nos sonhos, mas estava uma mulher aos berros com o Tó Zé no telemóvel, deveria ser o ex-marido, aquilo é pior que os aviões, faz mal à saúde e deveria de ser proibido. Fui beber um café BN que por sinal é pior que o café espanhol.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Dia-a-dia #229
A desterrada a lembrar-se das palavras de um homem da montanha: “Será talvez alucinação do poeta. Mas porque nela (Évora) se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de lu...ar. E, sem guia, mandá-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no politico e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.” In Miguel Torga – “Portugal”, Edição do autor, Coimbra 1957, p-124-126.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
Dia-a-dia#228
Sonhei estava nos arcos da praça do Giraldo, descia em direcção à Igreja de S. Francisco na companhia de três professores, dois deles sei que já morreram e tinham óculos dos anos 60 nos olhos, um está vivo mas velhote. O velhote em tom provocatório disse-me: "não entendo porque foste para as Belas-Artes, não deverias ter feito isso". Respondi-lhe: "não se pode fazer nada em relação ao passado, não posso voltar atrás e mudar. Só o posso aceitar". Nisto eles entraram num café e eu continuei em direcção ao mercado, era de madrugada, lembro-me do movimento dos vendedores, as cores das frutas e legumes. O pior foi voltar para trás, para a casa dos meus pais em Évora, vi as janelas do rés-do-chão, uma delas tinha a forma de um armário parecido ao da minha sala em Lisboa, as portadas estavam abertas. Acordei quando estava a saltar lá para dentro, estava quase a entrar.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Dia-a-dia #227
E voltei a sonhar que estava nas caves das Belas - Artes - é um sonho recorrente - estava no curso de escultura e aquilo era atrofiante. O tema era o corpo humano, tínhamos de modelar em barro e ninguém sabia o que fazer. Não havia modelos. Eu também me sentia perdida, sabia apenas que havia muito trabalho a fazer. Nisto subi ao primeiro andar para ver o que se passava na pintura e pelo que vi o caos ainda era maior: estavam a trabalhar sobre papel, desenhavam a pincel o corpo humano sem modelos. Perguntei aos alunos se tinham temas a desenvolver, e houve um que me respondeu: fomos estimulados a reciclar material. E perguntei: "objet trouvé"?, mas ele não sabia o que era isso grin emoticonFiquei em pânico e quando acordei só pensava: antes os brutos da escultura que os loucos da pintura!
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Dia-a-dia #226
Simpatizo com o rapaz da tabacaria, cumprimentamo-nos e sabe sempre quais são os meus cigarros, não é necessário dizer mais nada. Depois arranjo-lhe moedas para facilitar o troco. Ontem encontrei-o numa alegre cavaqueira com uma moça mais para a minha idade, dizia-lhe: "estamos muito bem, cada dia é como se nos tivéssemos encontrado pela primeira vez". O olhar dele ficou diferente, nunca o tinha visto assim. Ela antes de sair respondeu: "pois é, acho que também preciso de mudar". Então disse-lhe boa tarde e respondeu-me: "são os seus gregos, não é?" E desatamos a rir, claro.
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