O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Dia-a-dia#231

Na varanda da BN, quase a adormecer, ouvi novamente uma rola turca, parece um cuco mas não é, segui o UuuuUuuuUuuuUuuu....... e já estava no pinhal, cheirava a férias com a serra de Sintra ao longe e passou um maldito avião, que me obrigou a voltar ao barroco num estrondo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Dia-a-dia #230

Preparava-me para dormir a sesta na varanda da BN, hábito recente que me sabe bem após o almoço até que passe um avião dos que entra directamente nos sonhos, mas estava uma mulher aos berros com o Tó Zé no telemóvel, deveria ser o ex-marido, aquilo é pior que os aviões, faz mal à saúde e deveria de ser proibido. Fui beber um café BN que por sinal é pior que o café espanhol.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dia-a-dia #229

A desterrada a lembrar-se das palavras de um homem da montanha: “Será talvez alucinação do poeta. Mas porque nela (Évora) se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de lu...ar. E, sem guia, mandá-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no politico e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.” In Miguel Torga – “Portugal”, Edição do autor, Coimbra 1957, p-124-126.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dia-a-dia#228

Sonhei estava nos arcos da praça do Giraldo, descia em direcção à Igreja de S. Francisco na companhia de três professores, dois deles sei que já morreram e tinham óculos dos anos 60 nos olhos, um está vivo mas velhote. O velhote em tom provocatório disse-me: "não entendo porque foste para as Belas-Artes, não deverias ter feito isso". Respondi-lhe: "não se pode fazer nada em relação ao passado, não posso voltar atrás e mudar. Só o posso aceitar". Nisto eles entraram num café e eu continuei em direcção ao mercado, era de madrugada, lembro-me do movimento dos vendedores, as cores das frutas e legumes. O pior foi voltar para trás, para a casa dos meus pais em Évora, vi as janelas do rés-do-chão, uma delas tinha a forma de um armário parecido ao da minha sala em Lisboa, as portadas estavam abertas. Acordei quando estava a saltar lá para dentro, estava quase a entrar.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Dia-a-dia #227

E voltei a sonhar que estava nas caves das Belas - Artes - é um sonho recorrente - estava no curso de escultura e aquilo era atrofiante. O tema era o corpo humano, tínhamos de modelar em barro e ninguém sabia o que fazer. Não havia modelos. Eu também me sentia perdida, sabia apenas que havia muito trabalho a fazer. Nisto subi ao primeiro andar para ver o que se passava na pintura e pelo que vi o caos ainda era maior: estavam a trabalhar sobre papel, desenhavam a pincel o corpo humano sem modelos. Perguntei aos alunos se tinham temas a desenvolver, e houve um que me respondeu: fomos estimulados a reciclar material. E perguntei: "objet trouvé"?, mas ele não sabia o que era isso Fiquei em pânico e quando acordei só pensava: antes os brutos da escultura que os loucos da pintura!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Dia-a-dia #226

Simpatizo com o rapaz da tabacaria, cumprimentamo-nos e sabe sempre quais são os meus cigarros, não é necessário dizer mais nada. Depois arranjo-lhe moedas para facilitar o troco. Ontem encontrei-o numa alegre cavaqueira com uma moça mais para a minha idade, dizia-lhe: "estamos muito bem, cada dia é como se nos tivéssemos encontrado pela primeira vez". O olhar dele ficou diferente, nunca o tinha visto assim. Ela antes de sair respondeu: "pois é, acho que também preciso de mudar". Então disse-lhe boa tarde e respondeu-me: "são os seus gregos, não é?" E desatamos a rir, claro.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Dia-a-dia #225

Já foi há alguns anos. Estava no aeroporto de Milão junto à zona de embarque e como ainda era cedo, fui beber um café. Não se podia fumar em lado nenhum. Quando me aproximei do balcão, reparei que havia um espaço recôndito com mesas onde estavam duas hospedeiras da Lufthansa de cigarro em punho. Aproximei-me delas, já com o café na mão, puxei dum cigarro e pedi-lhes lume. Uma delas depois disse-me: é proibido fumar, mas se alguém vier dizer alguma coisa, foram eles que começaram. E apontou para uma mesa mais escondida ocupada por gregos bens dispostos que também estavam a fumar.