O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
terça-feira, 26 de março de 2013
Poema #101
DIREITO À PROPRIEDADE
Sou contra a propriedade privada
há no entanto objectos que são mesmo meus
um garrafão de vinho sempre disponível
discos do Bach do Archie Shepp ou do Zappa
o «Pela Estrada Fora» do Jack Kerouac
as «Poesias» de Álvaro de Campos
o «Ulisses» do Joyce
o «Outono em Pequim» do Boris Vian
o «Eros e Civilização» do Marcuse
a «Apresentação do Rosto» do Herberto Helder
os «Trópicos» do Henry Miller
o «Diário de um Ladrão» do Genet etc. etc.
sobretudo sobretudo
os 3 simpáticos companheiros
que tenho no meio das pernas.
Levi Condinho
Sou contra a propriedade privada
há no entanto objectos que são mesmo meus
um garrafão de vinho sempre disponível
discos do Bach do Archie Shepp ou do Zappa
o «Pela Estrada Fora» do Jack Kerouac
as «Poesias» de Álvaro de Campos
o «Ulisses» do Joyce
o «Outono em Pequim» do Boris Vian
o «Eros e Civilização» do Marcuse
a «Apresentação do Rosto» do Herberto Helder
os «Trópicos» do Henry Miller
o «Diário de um Ladrão» do Genet etc. etc.
sobretudo sobretudo
os 3 simpáticos companheiros
que tenho no meio das pernas.
Levi Condinho
segunda-feira, 25 de março de 2013
Poema #100
AGRADECEMOS
Agradecemos
em júbilo pela oportunidade que nos deram,
estamos reconhecidos aos donos da vida.
e em romaria lhes beijaremos os anéis
nos altares onde estiverem.
nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.
aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho,
aos que nos entusiasmaram encorajaram enrabaram e
aos que ainda estão para vir
agradecemos,
a colaboração
ao haxixe de marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína
que casa com o cowboy
lá para o fim do filme
agradecemos
ao fim do filme
por ter acabado
às sombras da tarde
por fazerem sombra à tarde
aos caminhos d'aldeia
por cheirarem a merda de vaca
ao senhor padre por ser virgem
nem ele sabe a importância que isso tem
nós também não
agradecemos
ao white horse
royal label
aos pudins flan
os maravilhosos momentos proporcionados
à nossa namorada
as incontáveis fodas
e as que demos sem contar
à mulher-a-dias
pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
pela afeição com que nos viu crescer
pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada
agradecemos
ao presidente da câmara
ter perdido as autárquicas
aos partidos no poder
e aos que ainda nos hão-de vir foder
às sogras tios e primos
a paciência de serem há tantos anos da família
agradecemos
ao sol da praia aos pardais ao ar lavado
e a todos os outros heróis mortos em combate
e imortalizados amortalhados em grandiosas estátuas
muros de betão
agradecemos
aos morcões e aos estúpidos
trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
a beleza com que são horríveis
é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim
agradecemos
à dor aos sofrimentos inúmeros com que bordamos os nossos dias
porque nosso será o reino dos céus
aos ladrões e às putas
aos corcundas aos paralíticos
pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
por exibirem conceitos tão próprios de vida
e juramos
passar a cumprimentar toda a gente
estar infinitamente gratos
infinitamente gatos
piolhos porcos morcegos
infinitamente coisos despidos ao frio
vestidos ao sol
saias casacos camisas gabardines de vénus
tanta roupa tanta sobre chãos
corpos galácticos
juramos
estar infinitamente gratos
a todos os casais felizes
uniões duradouras bodas de prata
por demonstrarem o conceito da felicidade emparedada
o valor da paciência
o infinito do esforço
agradecemos
à arte à ciência à história à sociologia
à política à religião
darem emprego a tanta gente
agradecemos
à tecnologia aos motores
pelo mesmo motivo
às fábricas aos computadores
idem
e a tudo quanto faça barulho cheire mal
foda a vegetação os rios os sóis a aragem
porque inevitavelmente somos a favor de uma poluição avançada,
não dessa como nos países de terceiro mundo que é feita
de gente magrinha
feia de ver.
Defendemos uma verdadeira poluição
pesada d'acordo com os padrões europeus
agradecemos
à tropa,
verdadeira escola d'homens
e à escola
tropa de meninos
agradecemos
a cristo marx reich
pela inutilidade prática das suas demonstrações
e agradecemos a todos quantos
fizerem demonstrações cheias de inutilidade prática
terem tido tanto êxito
não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
já lhes basta a infelicidade de serem teóricos
de se esquecerem de comer
tudo a bem dos teoremas teóricos
explanações metafísicas
conceitos epistemológicos
não podemos claro deixar de
sentir ternura pelos nosso teóricos
agradecemos
às entidades divinas
a força que nos dão
a garra o querer e o tesão
e agora não agradecemos a mais ninguém
porque vamos comer um bom bife
talvez devêssemos agradecer
à defunta vaca
porque sempre em tudo o que façamos
sem dúvida contraímos
obrigação de comer um bom bife
e foder uma garrafa de verde
o que é um acto poético
de incomensurável estética.
João Habitualmente In "Antologia poética - Carnaval poético"
Agradecemos
em júbilo pela oportunidade que nos deram,
estamos reconhecidos aos donos da vida.
e em romaria lhes beijaremos os anéis
nos altares onde estiverem.
nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.
aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho,
aos que nos entusiasmaram encorajaram enrabaram e
aos que ainda estão para vir
agradecemos,
a colaboração
ao haxixe de marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína
que casa com o cowboy
lá para o fim do filme
agradecemos
ao fim do filme
por ter acabado
às sombras da tarde
por fazerem sombra à tarde
aos caminhos d'aldeia
por cheirarem a merda de vaca
ao senhor padre por ser virgem
nem ele sabe a importância que isso tem
nós também não
agradecemos
ao white horse
royal label
aos pudins flan
os maravilhosos momentos proporcionados
à nossa namorada
as incontáveis fodas
e as que demos sem contar
à mulher-a-dias
pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
pela afeição com que nos viu crescer
pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada
agradecemos
ao presidente da câmara
ter perdido as autárquicas
aos partidos no poder
e aos que ainda nos hão-de vir foder
às sogras tios e primos
a paciência de serem há tantos anos da família
agradecemos
ao sol da praia aos pardais ao ar lavado
e a todos os outros heróis mortos em combate
e imortalizados amortalhados em grandiosas estátuas
muros de betão
agradecemos
aos morcões e aos estúpidos
trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
a beleza com que são horríveis
é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim
agradecemos
à dor aos sofrimentos inúmeros com que bordamos os nossos dias
porque nosso será o reino dos céus
aos ladrões e às putas
aos corcundas aos paralíticos
pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
por exibirem conceitos tão próprios de vida
e juramos
passar a cumprimentar toda a gente
estar infinitamente gratos
infinitamente gatos
piolhos porcos morcegos
infinitamente coisos despidos ao frio
vestidos ao sol
saias casacos camisas gabardines de vénus
tanta roupa tanta sobre chãos
corpos galácticos
juramos
estar infinitamente gratos
a todos os casais felizes
uniões duradouras bodas de prata
por demonstrarem o conceito da felicidade emparedada
o valor da paciência
o infinito do esforço
agradecemos
à arte à ciência à história à sociologia
à política à religião
darem emprego a tanta gente
agradecemos
à tecnologia aos motores
pelo mesmo motivo
às fábricas aos computadores
idem
e a tudo quanto faça barulho cheire mal
foda a vegetação os rios os sóis a aragem
porque inevitavelmente somos a favor de uma poluição avançada,
não dessa como nos países de terceiro mundo que é feita
de gente magrinha
feia de ver.
Defendemos uma verdadeira poluição
pesada d'acordo com os padrões europeus
agradecemos
à tropa,
verdadeira escola d'homens
e à escola
tropa de meninos
agradecemos
a cristo marx reich
pela inutilidade prática das suas demonstrações
e agradecemos a todos quantos
fizerem demonstrações cheias de inutilidade prática
terem tido tanto êxito
não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
já lhes basta a infelicidade de serem teóricos
de se esquecerem de comer
tudo a bem dos teoremas teóricos
explanações metafísicas
conceitos epistemológicos
não podemos claro deixar de
sentir ternura pelos nosso teóricos
agradecemos
às entidades divinas
a força que nos dão
a garra o querer e o tesão
e agora não agradecemos a mais ninguém
porque vamos comer um bom bife
talvez devêssemos agradecer
à defunta vaca
porque sempre em tudo o que façamos
sem dúvida contraímos
obrigação de comer um bom bife
e foder uma garrafa de verde
o que é um acto poético
de incomensurável estética.
João Habitualmente In "Antologia poética - Carnaval poético"
domingo, 24 de março de 2013
Dia-a-dia #178
O Festival Mal Dito que está a decorrer em Coimbra desde 21 de Março e encerra hoje, nasceu da vontade de um grupo de amigos há um mês atrás, que sem apoios intitucionais se reuniram para concretizarem diversas acções em torno da poesia na cidade. Participei nele numa sessão intitulada "Olhos e Vozes" na Livraria/alfarrabista do Miguel de Carvalho, ao lado de José Geraldo e do professor Osvaldo Silvestre. Quando a Sandra Cruz me telefonou recentemente a convidar para fazer uma apresentação sobre a Poesia Experimental Portuguesa (1964-1974), respondi-lhe: O quê? Nessa cidade onde recentemente levei uma "facada"? É claro que vou!
Nem pensei duas vezes. Lá reencontrei a Sandra, o Manuel A. Domingos, a Maria Sousa, o Carlos Veríssimo, o Carlos Júlio do núcleo duro do evento. Aconteceram muitas coisas: homenagearam os poetas Rui Costa e Manuel António Pina, algo que não assisti infelizmente, porque estava na livraria a preparar a minha sessão, mas estão aqui as fotografias do Carlos Júlio, que registou o Isaque Ferreira a dar voz ao momento - que pena não terem som. Só à noite conheci o Isaque na sessão " Poetas não ditos" e tenho até dificuldade em descrever o momento: o Isaque trazia duas malas antigas e deu voz como ninguém a poetas pouco "ditos", trazia edições raras naquelas malas, alguns nomes conhecia como Isabel Meireles, Pedro Oom, João Habitualmente, Joaquim Castro Caldas, outros não os fixei, como um poeta que ele intitulou de punk e era totalmente a abrir, outros fixei o nome que desconhecia como Levi Condinho, o "beat" português de Alcobaça. E só pensava, a poesia portuguesa viaja naquelas malas e reencarna no Isaque com uma intensidade indescritivel. Mais tarde ele dizia-me, precisamos de poetas assim, que nos batam. Eles existem, e ainda bem que estão vivos na voz do Isaque.
No dia seguinte, tive o prazer de contemplar ao vivo as nuvens do céu de Coimbra, na janela da casa do meu anfitrião, enquanto ele me descrevia a construção dos vários prédios desde os anos 70 naquela mata: ali estava a prova de como o Portugal rural passou para o audiovisual sem nada pelo meio. Depois assiti a uma peculiar aula de "pusia" que a Sandra Cruz nos deu em sapatos pinky. No intervalo a Maria Sousa mostrou-me uma gravação da Irmã Lúcia a cantar, parece que saiu num CD aqui há uns anos atrás no Correio da Manhã, fiquei comovida, era o som da eterna infância, talvez o verdadeiro terceiro segredo de Fátima. Só a Maria sabe destas coisas. O Isaque nem queria acreditar naquela música infantil sobre pintainhos, acho mesmo que ia entrando em transe, só perguntava: ela disse BICO?
Depois reunimo-nos em torno da causa Angye Gaona, jornalista e poeta colombiana que neste momento se encontra na prisão e sem julgamento, acusada injustamente de tráfico de droga. O único crime que ela cometeu foi defender os presos políticos na Colombia. Miguel de Carvalho e Margarida Vale Gato leram os seus poemas, circulou uma carta para assinar e enviar aos magistrados daquele país. Seguiu-se uma sessão sobre poesia de intrevensão com Luís Quintais, Margarida Ferra e Margarida Vale de Gato. Ao meu lado, durante a sessão a Ana Salomé relatou-me factos sobre um passado recente e fomos reflectindo sobre como estaremos a ser silenciados agora, ou como nos poderão silenciar de futuro. Seguiu-se uma homenagem a Al Berto e apresentação do livro"Cronos decide morrer, leituras do tempo em Al Berto" de Golgona Anghel, com António Guerreiro, Diogo Vaz Pinto, David Teles Ribeiro e a autora do livro, no espaço peculiar e sempre acolhedor que é a livraria do Miguel de Carvalho. Depois, com muita pena, tive de voltar para Lisboa. No caminho pensava: em todos os eventos a que fui havia público. Existem pessoas vivas que se reunem para partilhar estas coisas que aparentemente não servem para nada. Ou se calhar são estes momentos que dão sentido à vida, porque é muito bom estarmos vivos assim. E tudo começou com um grupo de amigos que se reuniu em torno da poesia e organizou o Mal Dito em Coimbra num mês. Em tempos de crise, com o mundo como está, temos de nos reunir mais vezes nestas partilhas, o mundo necessita agora mais do que nunca. Temos de estar vivos.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Dia-a-dia #177
Parece que hoje inaugura oficialmente a nova temporada em matéria de lírica, mas aqui a marciana está pouco virada para o assunto.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Dia-a-dia #176
Aqui está um sítio onde gostaria de ir: Cape Point na África do Sul, local onde se encontram os Oceanos Índico e Atlântico.
domingo, 17 de março de 2013
Festival Mal Dito
Ora bem, no dia 22 de Março às 16h30m lá estarei em Coimbra a falar na Livraria/Alfarrabista do Miguel de Carvalho no Adro de Baixo nª6 (é fácil lá ir, fica na Baixa).
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