O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

terça-feira, 5 de março de 2013

segunda-feira, 4 de março de 2013

Dia-a-dia #165


 

"Rio
e escrevo nas paredes a giz:
FAZ DA TUA DOR UMA ARMA
para sofrer menos.
Covarde."


José Gomes Ferreira

domingo, 3 de março de 2013

Poema #95


Ouve, Poeta Romântico:

Como queres que compreenda a tua dor de incompreendido
Se nunca deitei fogo aos problemas
Para fugir da terra
Num cavalo de asas de fumo?
Nem nunca pairei sobre os homens
De ouvidos tapados
Para ouvir melhor dentro de mim
As lágrimas das sereias
A insinuarem-me ilhas pessoais
Nos berços aéreos das manhãs de sal?

Como queres que entenda o teu desamparo de herói caído
Se nunca andei pelo céu
Com pés de estrelas…
Nem nunca desci à Terra como tu
Para completar a paisagem com os olhos…
Ou dar aos escravos
– A pobre - carne - de - viver dos escravos! –
A glória de comungar de joelhos
A aristocracia da minha dor
– Do tamanho de uma cidade forrada de pele humana
Com ruas calcetadas de olhos tristes?

Não poeta romântico.

Cairia morto de vergonha
Se vagueasse pelo mundo
A enxugar lágrimas de pobres
Com lenços de nuvens.

E desceria à fundura
Da raiz mais oculta dos frios
 e não fosse igual a todos
Menos a mim mesmo.

E cegar-me-ia com unhas
Até ao silêncio das imagens
Se passasse como tu os dias e as noites
A mirar-me ao Espelho
Para ver o meu Esqueleto genial
Dependurado com flores
Entre a Terra e o Céu
Num balouçar de Deus
Que não se resigna às pedras nem às nuvens…

-Enquanto no Inferno da vida
 Os outros esqueletos
Atiram pazadas de carvão
Para as fornalhas das máquinas
Que brincam o fumo
Onde os poetas desenham quimeras de desdém.

Não poeta romântico.

Eu nasci para cumprir outro destino mais novo.
Ser homem apenas sem sangue excepcional
A arder no desejo absurdo
De andar pelas ruas
Vestido de vidro
Para que todos possam ver na minha alma
A dor comum finalmente revelada!
E os sonhos de todos com terra!
E a fome sem estrelas!
E a cólera sem travões!
E a morte sem anjos!
E a revolta sem bandeiras!
E o sol com sol!

Não poeta romântico.

Como queres que compreenda a tua dor de incompreendido
Se só entendo os homens
Quando choram lágrimas de terra?

(E nem me entendo a mim?)

 

José Gomes Ferreira


 

Dia-a-dia #164








E não podia cantar, nem gritar na manif por causa do raio da faringite. Não fui a única que ali estava em silêncio, senti muitos silêncios. Vi brilho a iluminar a dor em olhares na direcção do meu cartaz. Apesar de ser a maior manifestação em que participei, estou triste.


No Público de hoje, em papel claro, a reportagem " A minha dor é uma arma" de Paulo Moura: «De início, Maria João A-minha-dor-é-uma-arma não queria responder a nenhuma pergunta. Nem queria dizer o nome. "Desconfiança", explicava. "Tenho uma laringite, não posso falar", justificava-se. Como se tivesse já esgotado a tolerância para mais algum pedido, mais alguma interpelação. A certa altura voltou-se para o repórter com os olhos a faiscar e perguntou: "O que me quer impor?" Eram apenas algumas perguntas sobre a manifestação, a recolha de um depoimento para a reportagem, mas ela não via as coisas assim, estava com vontade de provocar, e repetia, o olhar fixo e desafiador:" O que me quer impor?"»

sábado, 2 de março de 2013

Dia-a-dia #163



E ontem lá fui a uma consulta de urgência ao Hospital, a minha médica diz que estou com uma faringinte de origem alérgica  - raios parta os plátanos, árvores maravilhosas cujas folhas  me fazem sofrer, mais as penas dos patos e outras aves, devem ir para os filtros do ar condicionado da Biblioteca do petrólio divino, não posso fazer nada contra isso e também sou bicho, é caso para dizer que o belo  pode fazer mal. Fiz ainda um exame às cordas vocais e aquilo é horrivel, se pensam que são cordas de violinos, não, parecem dois bocados de carne de frango. E como  está com refluxo gástrico por todo lado, não posso fazer o concerto este domingo no CCB e agora pareço uma farmácia ambulante. Mas vou para a Manif, não posso gritar, não posso cantar, vou em silêncio e levo um cartaz com um verso de José Gomes Ferreira: " A MINHA DOR É UMA ARMA".

Fotografia de Sara Rocio no dia 21-09-2012.

Natureza-Morta Social #31


sexta-feira, 1 de março de 2013

Dia-a-dia #162

E lá sonhei com as ruas de Évora, novamente, acordei toda suar, acho que tive febre esta noite por estar péssima das alergias – ontem nem fui ao ensaio, doía-me imenso a garganta, mas só estava inflamada. Tudo me surgiu em flashes na cabeça quando acordei, as ruas, encontros com o passado e livros, livros perdidos, que alguém tinha guardado um livro que deixei em Évora em 2004; lembro-me das imagens de um dos livros, estavam relacionadas com os diários que fiz no passado, mas eram diferentes, vi os movimentos das páginas, acordei com elas ainda em movimento. Tentei fazer uma sequência lógica do que tinha sonhado, mas não consigo apanhar o fio da meada, apenas me surgiu um encontro com alguém de quem me recordava da cara, e de me perguntarem por pessoas do meu passado e eu respondia quando conhecia alguma. Daí para as ruas de Évora ainda consigo ir, agora os livros, de onde vieram os livros?