O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Dia-a-dia #159

E passei o fim da manhã, princípio da tarde com o prof. José-Augusto França e foi maravilhoso. Ele recebeu-me em sua casa, porque tinha livros para mostar. Fui entervistá-lo por causa de ele ter apresentado o segundo happening dos poetas experimentais. E  fiquei com bom material gravado para a tese, mas acho que a parte melhor foi quando, já com o gravador desligado ele me contou histórias do Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, da Sophia de Melo Breyner, enfim, venho com imensa informação. Foi muito importante o depoimento que ele me deu sobre os poemas dimensionistas do António Pedro, os primeiros poemas visuais portugueses que foram exposto na galeria U.P. em Lisboa, em 1936. Aquele senhor aos 90 anos tem uma memória incrivel.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ilustração #36



Esta casa tem estado tão desarrumada que só agora reparei que não tenho colocado por cá material recente, como por exemplo, o texto que li no lançamento do livro de estreia do Ricardo Marques, a 27 de Outubro de 2012 na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul em Campolide (Lisboa), livro para o qual tive a honra de contribuir com a imagem da capa. Aqui fica então o texto:
Quando o Ricardo me convidou para estar aqui, pediu-me também para dizer algumas palavras, de preferência de um modo informal e pouco académico. Respondi-lhe que poderia falar um pouco sobre o encontro entre a pintura e a poesia, que está presente neste livro. Se não tivesse com gripe esta semana, trazia-vos algo mais elaborado. Estando assim, e graças ao antibiótico consigo dizer algumas palavras sem tossir a meio e não me vou alargar muito.
Acho que é sempre um desafio interpretar a poesia através da pintura. Prefiro a palavra interpretar a ilustrar, porque quando estou a criar uma imagem a partir de um poema, relaciono-me com ele como um músico se relaciona com a partitura, ou seja, o músico executa a partitura, que é uma espécie de música teórica à qual ele tem de dar corpo. Para tal tem de existir a compreensão ou tradução da partitura, e o resultado será uma sempre uma versão dela. Sinto sim, que executei os poemas do Ricardo, e para tal tive de sair de mim própria, para lhes dar um novo corpo através da imagem; tal como um intérprete dá corpo à música ao executá-la compreendendo e interiorizando uma partitura. Mas a música é da ordem do invisível ao ter como corpo o próprio tempo. A poesia também tem a temporalidade como corpo, por ser ritmo sonoro de palavras. Mas na poesia, as palavras afastam-se do seu uso corrente ou vulgar. Na poesia a linguagem é despragmatizada, as palavras entram num processo alquímico, falando-nos através de enigmas ou paradoxos. Como os poetas não dizem coisa com coisa (e é por isso que gosto deles), penso que a palavra ilustrar não é adequada quando se trata de criar imagens a partir de poesia.

Recordo-me que no passado fiz ilustrações para artigos científicos de arquitectura, nomeadamente, para artigos sobre técnicas tradicionais de construção, onde utilizei o desenho com a função de explicar o funcionamento dessas técnicas, com a função de esclarecer ou explicar o texto através da imagem. Esta é a ideia que tenho do que é uma ilustração convencional, algo bastante técnico com carácter científico, que permite o leitor ver e entender melhor o texto. Acho que em matéria de relação entre poesia e imagem não é bem isso que se passa. As imagens não explicam um poema, nem o esclarecem na leitura.

Em relação às imagens, elas são a representação de formas no espaço, um fragmento da realidade. Pode também ser uma apresentação de formas no espaço-tempo, ou seja, uma articulação de fragmentos da realidade. Em todo o caso é sempre a suspensão do tempo num espaço que a aprisiona, em paralelo ao tempo que está a decorrer. Neste sentido é uma pausa no tempo, a imagem é da ordem do silêncio. Mas ela fala através do silêncio, sendo assim um instrumento diferente da poesia, onde o ritmo sonoro das palavras está sempre presente. Mas na poesia também existem imagens.

As imagens nos poemas surgem de forma sucessiva e o problema é que só faço uma imagem por poema, conseguindo, no entanto, associar por vezes várias imagens que vejo num poema, numa mesma imagem que interpreto a partir dele. Logo perde-se muito neste processo de interpretação, devido à construção da imagem limitada. Aquilo que vejo acaba sempre por ser um ponto de vista, é uma leitura que tem limites. Não sei se por vezes consigo fazer alguma síntese do poema através da imagem, mas pelo menos tento que exista um diálogo entre ambas a expressões, pontos de contacto. Certamente que este diálogo se passa num plano metafórico.

Agora, para finalizar, quero agradecer ao Ricardo o desafio que foi interpretar os seus poemas, estou feliz com o modo como este encontro se realizou, que resultou neste seu primeiro livro de poesia. Espero que venhas a publicar muitos e bons livros. E quanto ao encontro entre a poesia e a pintura tenho apenas a acrescentar as palavras de Vinícius de Moraes “ A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. E estamos aqui vivos para isto.

WEATHER FORECAST

Acreditar na vida como
acreditamos no boletim
metereológico de todos os dias.
Apesar de todas as previsões,
fundamentadamente científicas,
há sempre uma variável que não
controlamos. E por isso temos
esperança e desconfiamos. E tal
como toda a gente, aprendemos
que há que saber sair de casa
esquecendo deliberadamente o
guarda-chuva.

Ricardo Marques – “Eudaimonia”. Lisboa: Edição de Autor, 2012.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Dia-a-dia #158




O que é isto? Sabem onde fica? Como se chama?

É a nova cara de um edíficio histórico. Fica em Évora, na grande puta da História de Portugal. Chama-se Palácio da Inquisição, ou ainda hoje é conhecido como tal. Fica ao lado do templo romano, também conhecido por Templo Diana. A história tem destas coisas, o templo romano foi no passado um matadouro, ou seja, um local onde se abatiam animais, mas na minha infância já não era assim, claro. Há muito tempo que passou a ser ruína de templo. Agora é visitável no seu exterior, mas na minha infância brinquei muito naquele templo, subiamos lá acima, inventávamos tesouros para lá esconder e desenterrar nas pedras. Fiz a escola primária numa escola que se situava ao lado da Sé. A minha casa não está longe, os colegas que viviam na mouraria batiam-me à porta e iamos em grupos a pé para as aulas e voltávamos para casa também passando por aqui. E nas idas e vindas brincávamos nestes espaços da cidade. Mais tarde fiz o ciclo preparatório num colégio ao lado do Palácio da Inquisição, que pretence à Fundação Eugénio de Almeida, criada por estatudos testamentários de Vasco Maria Eugénio de Almeida que com estas obras estará a dar voltas na sua tumba. Foi neste edificio que funcionou o Instituto de Estudos Superiores, orientados pela Companhia de Jesus, onde em 1963 abriu por exemplo, o primeiro curso de sociologia em Portugal, algo impensável nos tempos da ditadura. Sim, no antigo Palácio da Inquisição, eu na altura ainda não era nascida, mas o meu pai fez parte da primeira turma do curso de economia. Os jesuítas já não andam por ali de certeza, até porque para ser jesuíta é necessário estudar muito e o que aqui está é um atentado ao património, revela ignorância e falta de respeito. O edifício era assim:
 
 
Estão a ver este jardim? Brinquei muito debaixo das árvores quando ia ou vinha da escola primária, também nos intervalos e furos do colégio no ciclo preparatório. Sabem quanto doi cortar uma árvore da infância e substituí-la por granito? Quando se corta uma árvore ela não volta a crescer. Não se destroi um  jardim num centro histórico classificado de património mundial pela UNESCO. Nem se pode fazer um atentado destes num edíficio histórico. E porquê granito?
 
 Que presente é este?  Que interpretação  do  passado foi esta que inventaram janelas neo-medievais com portas de vidros espelhados? É este o futuro que me querem impor?  Edificios históricos com vidros espelhados? Já que se tratava do Palácio da Inquisição, porque não lhe puxaram fogo de uma vez por todas, tipo política da terra queimada? Se calhar assim não doía tanto. E como dizem no norte, neste caso está tudo fodido.
 
 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Dia-a-dia#157

E gostei tanto de voltar à mística granítica onde não colocava os pés há quatro anos, acordar cedo e deambular pelas ruas escuras e húmidas, ouvir o modo caloroso como falam os seus habitantes, almoçar na praça Carlos Alberto onde fui operada em 2006 e novamente deambular. Em todas as ruas me lembrei do Rui Costa, das nossas conversas a pé, sei que vão estar sempre presentes. E voltei ao Piolho, e depois a Serralves, reencontrei os bons amigos, conheci novos autóquenes e não só, que andam a trabalhar muito na Universidade Fernando Pessoa. E sentei-me no Jardim da praça 9 de Abril, junto ao lago para apanhar o sol de Inverno que espreitou numa pequena pausa depois do almoço, não tenho aquele ritmo.

Leituras #30

Eu fui criado à direita, mas o corpo foge-me para a esquerda - e o que vejo por aí é ao contrário.

Ruy Cinatti

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013