O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Poema #90

POEMA DE NATAL



Para todos os leitores do Insónia


Naquele tempo as luzes duravam toda a
noite. Mas faltava-lhes a eléctrica eficácia de
quem chama, vinde todos comprar um souvenir,
reis magros, corretores da bolsa, funcionários
e teleguiadas tias por estrela que conduz aos
mares do sul, cristãos e bronzeados, a minha vida
dava um filme. Nem sabe o que me aconteceu, o
vestido da Senhora não traz instruções de lavagem
e a vaquinha de polietileno engorda sozinha, eu próprio
já não sinto os olhos de tanto ver as luzes acender e
apagar. Mas uma coisa é certa: Jesus se fosse vivo
havia de ter um partido, ler os tops da Fnac e saber
de cor o nome de todos os ministros. Havia de
sair de casa pela porta da frente, cumprimentar
os jornalistas e conceder duas medidas correctivas dos
excessos do capitalismo; depois, no último degrau
levantaria a palma de sua mão direita e os passantes,
subitamente inundados de um fulgor renascido,
estugariam o passo e entrariam no metro, sorrindo,
acreditando um pouco mais no reino
que tarda a ter um fim.


Rui Costa

In Insónia, 18/12/2007 (aqui)
 
Obrigada Henrique

Dia-a-dia #143

O pessoal da edp é tão simpático, acabaram-me agora de ligar a dizer que tinham sido devolvidas várias cartas com facturas que me tinham enviado. Pois, respondi que era tarde, que ontem me tinham cortado a electricidade sem aviso, já tinha tratado de tudo, já tinha electricidade. A moça ao telefone pediu muita desculpa, disse que houve problemas de comunicação dentro da empresa. Ainda tive para co...mentar que isso se devia a problema linguisticos, de tradução português-chinês, mas não quis ser politicamente incorrecta. Expliquei-lhe que apesar de me encontrar num pós-operatório já tinha tratado de tudo, mas assim que estivesse melhor me dirigia à empresa para fazer a reclamação por escrito que a situação merece. E que já sabia do actual mau funcionamento dos ctt na regiãode Lisboa, e que o meu caso não tinha sido o único, que os ctt também vão levar com a devida reclamação. Despedi-me desejando-lhe boas festas. Acho que de futuro vamos receber estes telefonemas da edp em chinês para ninguém entender (antes ou depois de cortarem a electricidade com multas).

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Dia-a-dia #142

Hoje de manhã fui acordada por dois funcionários da edp que me cortaram a electricidade, devido à falta de pagamentos. Maravilhosos, tudo isto porque não recebi as facturas pelo correio, aliás, tenho tido problemas vários com entregas de cartas de há um ano para cá. Já fiz uma reclamação o ano que passou nos correios por causa disso, mas a maluquise continua. Entretanto, apanhei um taxi e fui à sede da edp, expliquei-lhes que estou num pós-operatório, que não posso estar em casa sem electricidade, que a minha irmã está a trabalhar não pode estar ali. Enfim, mudei os processos de pagamento, vou passar a fazer tudo pela internet, paguei a dívida que não era nada de outro mundo e fiz pressão para que viessem hoje ligar-me a electricidade. Estou à espera, porque se calhar só vêm amanhã. Este país está bonito está, quando estiver melhor vou reclamar na edp e nos correios. Se calhar não adianta nada, mas calada não fico. Hoje tratei tudo diplomáticamente e evitei irritar-me, que ainda se abria aqui algum ponto da cicatriz e era perigoso.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Poema #89

E porque hoje é o aniversário de Fernando Lopes -Graça, aqui vos deixo um ciclo de peças "velhacas" deste compositor, apelidadas assim pelo próprio devido a serem dificeis. São as " Três Líricas Castelhanas" de Luís de Camões, ao clicarem nos títulos de cada uma poderão escutá-las interpretadas pelo meu coro, o Coro de Câmara da Universidade de Lisboa, dirigido por José Robert em 2006

OJOS, HERIDO ME HABÉIS...
 
mote:

Ojos, herido me habéis,
acabad ya de matarme;
mas, muerto, volvé a mirarme,
porque me resuscitéis.

 voltas:

Pues me disteis tal herida
con gana de darme muerte,
el morir me es dulce suerte,
pues con morir me dais vida.
Ojos ¿qué os detenéis?
Acabad ya de matarme;
mas, muerto, volvé a mirarme,
porque me resuscitéis.

La llaga, cierto, ya es mía,
aunque, ojos, vos no querráis;
mas si la muerte me dais,
el morir me es alegría.
Y así digo que acabéis,
oh ojos, ya de matarme;
mas, muerto, volvé a mirarme,
porque me resuscitéis.

DE VUESTROS OJOS CENTELLAS

mote:

De vuestros ojos centellas,
que encienden pechos de hielo
suben por el aire al cielo,y en llegando son estrellas.

voltas:

Falsos loores os dan,
que essas centellas tan raras
no son nel cielo más claras
que en los ojos donde están.
Porque cuando miro en ellas
de como alumbran el suelo
no sé que serán nel cielo;
mas sé que acá son estrellas.

Ni se puede presumir
que al cielo suban, Senora,
que la lumbre que en vos mora
no tiene más que subir;
mas pienso que dán querellas
a Dios nel octavo cielo,
porque son acá en el suelo,
dos tan hermosas estrelas.

DO LA MI VENTURA

mote:

Do la mi ventura,
que non veo alguna.

voltas:

Sepa quién padece
que en la sepultura
se esconde ventura
de quién la merece.
Allá me parece
que quiere fortuna
que yo halle alguna.

Naciendo mezquino,
dolor fué mi cama;
tristeza fué el ama,
cuidado el padrino.
Vestióse el destino
negra vestidura:
huyó la ventura.

No se halló tormento
que alli no se hallasse;
ni bien que pasase,
sino como viento.
Oh, que nacimiento,
que luego en la cuna
me seguió fortuna!

Esta dicha mía
que siempre busqué,
buscandola, hallé
que no la hallaría;
que, quién nace en día
d'estrella tan dura,
nunca halla ventura.

No puso mi estrella
más ventura en mi;
así vive en fin
quién nace sin ella.
No me quejo della;
quéjome que atura
vida tan escura.


Luís de Camões

Dia-a-dia #141

Quando acordei da cirurgia na enfermaria onde estive internada recentemente, havia um enorme movimento e as camas estavam todas ocupadas, ao contrário da véspera da operação, onde apenas eramos três por lá. Isso acontece porque hospital onde estive tem urgências que funcionam bem, mal era detetado um problema em alguém, automaticamente era realizado o internamento e a intervenção. Foi o caso da minha companheira do lado, a Luísa, uma simpática enfermeira de Gouveia, da Marta, que estava na cama ao lado da Luísa, e também da D. Beatriz, que ficou na cama entre a Fernanda e a D. Vitória. Só eu, a Fernanda e a D. Vitória tivemos cirurgias marcadas com antecedência. A fragilidade física e psicológica em que todas nos encontrávamos fez com que partilhássemos vivências, sobretudo quando tomávamos as nossas refeições em conjunto, sentadas nas mesas entre as camas da enfermaria. Eramos muito diferentes, com problemas vários e em faixas etárias diversas, mas estávamos ali numa experiência a que apelidei de combate. Numa altura onde se fala em reduzir o número de camas nos hospitais públicos e que o estado social se encontra ameaçado eu pergunto-me: o que de futuro poderia acontecer àqueles três casos que foram internados de urgência, se não existissem camas vagas para elas? É revoltante, uma cama num hospital público não é apenas um número, corresponde sim a uma vida humana, que é tratada e salva.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Dia-a-dia #140


 

Como hoje é domingo, vou falar-vos de um dos anjos com que me cruzei no hospital, onde fiquei recentemente internada em Coimbra. Era uma auxiliar de idade indefinida, andava entre os trinta e os quarenta, mas havia algo de infantil nela, no seu sorriso doce e nos olhos verdes muito brilhantes. Tinha também um modo especial de lidar com as anciãs que estavam internadas naquelas enfermarias, sobretudo com os casos difíceis. Chamava-se Clara. Ela começou por se meter comigo por causa das minhas pantufas, que são uns croques vermelhos felpudos. Ora, nos hospitais toda a gente trabalha de croques e ela achou imensa piada à versão confortável que eu tinha nos pés. Eu lá lhe contei que os tinha arranjado numa loja em Lisboa, que tem uma vaca enorme à porta. Encontrava-a sempre no corredor das enfermarias, normalmente, a transportar alguma anciã em cadeira de rodas na direção da casa de banho, sempre na brincadeira com elas e a animá-las, uma maravilha. Como no hospital tudo estava bem aquecido, andava por lá de pijama, não era necessário colocar o robe. Mas quando comecei a dar umas escapadelas lá fora para fumar cigarrinhos, colocava o meu robe vermelho com capuz, que é bastante quente. A primeira vez que a Clara me apanhou nessa figura, meteu-se logo comigo, perguntou-me onde é que eu ia tão chique, com um robe a condizer com os croques. Respondi-lhe que ia lá fora fumar um daqueles cigarros que sabem a ar e que tem 0.1 de nicotina. Ela riu-se e comentou que não percebia nada de cigarros, mas se eram daquele muitos fininhos me ficavam bem, porque eram parecidos aos que as senhoras fumavam nos filmes antigos. Voltando ainda ao facto de este anjo animar as difíceis anciãs, na véspera da operação, à noite fizeram-me uma preparação para limpar o intestino e andava eu no corredor às voltas há espera de efeitos, quando passou a Clara com uma anciã de cadeira de rodas. A anciã com uns olhos muito vivos começou logo a meter-se comigo, a mandar bocas do estilo: então, anda aqui a fazer ginástica a essas pernas? Ao que respondi, que andava às voltas a ver se funcionava. A Clara abanou a cabeça e comentou que ela não ouvia e depois gritou-lhe: ELA ESTÁ A VER SE CONSEGUE FAZER COCÓ e foram as duas embora a rir à gargalhada.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Dia-a-dia #139


A principal diferença de uma operação num hospital privado ou num público é que no segundo ficamos numa enfermaria. De resto, como podem verificar nos meus anteriores relatos, estão de volta de nós pessoas competentes e infelizmente também podemos ter o azar de nos cruzarmos com algum ser daqueles que agora não vou classificar. Na véspera de ser operada na semana passada, entrei de manhã pela primeira vez na enfermaria onde fiquei. Tinha apenas duas das seis camas ocupadas, onde dormiam duas mulheres. Fui com a minha mãe e fomos guiadas por uma enfermeira amorosa, que indicou qual era o meu armário, me deu a escolher a cama. Preferi ficar junto da janela. Arrumei as coisas, despedi-me da minha mãe que foi almoçar e só voltou à tarde. Passado um bocado, a Fernanda que estava na cama em frente à minha, acordou e também a Teresa, que estava na cama ao lado. A Fernanda estava quietinha pois tinha sido operada na véspera, aparentava ser da minha idade. A Teresa levantou-se logo e contou-me que em princípio ia ter alta nesse dia. Depois chegou a D. Vitória, acabada de ser operada. E também o nosso almoço que foi colocado nas mesas entre as camas. A Fernanda, então, começou a movimentar-se com alguma dificuldade e eu e a Teresa ajudámo-la a sair da cama. Era rija e dizia que só se sentia bem sentada na cadeira, direita, preferia essa posição a estar deitada. O meu almoço e o da Fernanda era um caldo de galinha deslavado, um sumo e um iogurte. A Teresa já tinha direito a uma refeição completa, com esparguete e tudo. Começamos assim a conversar ao som dos cómicos roncos da D. Vitória, que até a ressonar tinha uma personalidade peculiar. Depois do almoço a Teresa teve alta e foi-se embora com o marido. Foi então que fiquei só com a Fernanda, que depois da sesta e da minha mãe me visitar outra vez, a pouco e pouco foi falando dela. Acho que ganhou confiança comigo, porque eu a ajudava sempre a sair da cama, mal notava que era necessário e ela não queria tocar à campainha para chamar a enfermeira, não tinha feitio para pedir ajuda. A Fernanda tinha sete filhos e trabalhava numa fazenda perto de Tomar com o marido. Eu estranhei o termo fazenda, por ser brasileiro, pensei que seria uma quinta, mas não comentei nada. Contou-me que dos cinco filhos mais velhos, que eram do primeiro marido, três já não viviam com ela, trabalhavam e já tinham as suas vidas. Em casa tinham ficado duas raparigas mais velhas a tomar conta dos dois rapazes mais novos, um com onze anos e o outro, que era muito rabino, com seis. Tinha ficado também o pai dos rapazes que era o seu segundo marido. E nisto pediu-me um favor: foi buscar um papel e pediu-me para eu lhe ler o que lá estava. Contou-me que não sabia ler, só sabia escrever o nome dela. O papel era um folheto informativo do hospital, onde descrevia a operação à qual ela tinha sido submetida. Estávamos as duas sozinhas na enfermaria e a D. Victória roncava. Li-lhe o texto mas sempre que tropeçava num termo técnico que não entendia comentava: sabe, eu sei ler mas não entendo tudo o que aqui está, já viu este palavrão? Ela ria um pouco aflita por causa da cicatriz na barriga que lhe dava dores. Continuamos uma boa vizinhança nesses dias de combate e ajudámos-mos mutuamente, com confiança uma na outra. Só contei à minha mãe que ela não sabia ler quando saímos do hospital, a minha mãe ficou em estado de choque, achava que ela já poderia ter aprendido, por causa dos filhos. Mas não, a Fernanda era pouco mais velha que eu, tinha 48 anos e não sabia ler nem escrever.