Gosto desta vida de investigadora: saio de casa para a biblioteca da Gulbenkian ou Nacional, vou a pé, raramente ando de transportes, só quando tenho de ir às Belas ou à Cidade Universitária. No meu dia-a-dia faço umas belas caminhadas. Estou a investigar cerca de cinco horas por dia. Agora, como tenho de acabar um capítulo, vou ter de fazer mais horas por dia, o que é até perigoso. Porque as asneiras disparam, acontecem coisas como deixar as chaves de casa na porta ou ir pagar uma conta ao Multibanco e perdê-la pelo caminho. A última foi dar literalmente um banho de café ao meu protátil. Entretanto, um amigo limpo-o e vai mudar-lhe o teclado queimado, mas ainda não está pronto, falta uma peça. Agora ando com um portátil dele, que é bastante pesado, ao contrário do meu que é maneirinho. Desconfio que o pequeno quando voltar a funcionar, vai andar um pouquinho nervoso.
O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
sábado, 18 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Dia-a-dia #100
Adormeceu um velhote que estava sentado perto de mim na biblioteca: entre livros começou a ressonar baixinho. Fiz sinal à Ana, que sorriu, mas com um ar preocupado. Tentei ver qual era o livro que estava a ler: o título era em inglês, algo como história social da escravatura negra na América. Enfim, depois lá acordou, recompôs-se e eu não consegui tirar a referência do livro. Daqui a uns anos deve acontecer-me o mesmo.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Dia-a-dia #99
Coisas que só podem acontecer neste sol de inverno: fui comprar cigarros numa tabacaria daquelas de Lisboa em vias de extinção, o dono tem umas fofas barbas brancas, é afável e agradece-me sempre que pago com moedas – as máquinas de cigarros agora também têm umas gravações a agradecer, aliás, as máquinas têm sempre uma voz feminina gravada, porque será? Voltando à tabacaria, pelo caminho, no prédio ao lado, a janela estava fechada e tinha um cortinado branco. Entre o cortinado e o vidro da janela estava uma gata refastelada em posição acrobática – acho que era gata porque tinha três cores, fundo negro com salpicos ferrugem e branco. Parei logo para a observar melhor, estava toda enroscada na sesta, com uma pata sobre os olhos. Nisto, ainda vislumbrei um dos olhos a abrir muito verde na minha direcção, que se fechou de automático e com indiferença. O Sol batia na vidraça, que esperta a bichana, naquele rés-do-chão deveria ser o canto da casa mais quente. E quando entrei na tabacaria, achei que o dono deveria ser parente próximo da gata, talvez o avô felpudo.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Dia-a-dia #98
Telefono para uma amiga que vive na Alemanha e oiço a minha voz constantemente em eco. Aviso-a da situação e ela do outro lado diz que é comum acontecer. Então, lá mexe no telefone ou muda de posição e melhorou. Mas a sensação foi terrível: relatava acontecimentos e as palavras arrastavam-se, se me ria aquilo prolongava-se, incomodou-me. Deve estar relacionado com os satélites que andam lá em cima e permitem a comunicação em grandes distâncias. Estou habituada ao espelho, logo de manhã olho-o antes de lavar a cara e beber café, lá se vai vendo as marcas da passagem do tempo no rosto. Agora o reflexo sonoro tem que se lhe diga, é muito mais violento.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Poema #76
O PÃO
Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.
Rui Costa - " A Nuvem Prateada das Pessoas Graves". Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005.
Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.
Rui Costa - " A Nuvem Prateada das Pessoas Graves". Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Poema #75
LEMBRANÇA DA CASA
não esqueci ainda da casa
os contornos fundamentais
a solenidade da traça
o terraço solarengo
o pé-direito
ouço ainda a voz que lá ecoa
a inflamação do tempo
a reverberar nas portadas
conheço ainda da casa
a memória dos canteiros
e a placa de pedra com o seu nome
a inscrição de origens
que o pai mandou retirar
tremendo a derrocada
João Miguel Henriques - " Isso Passa" . Lisboa: Artefacto, 2011.
não esqueci ainda da casa
os contornos fundamentais
a solenidade da traça
o terraço solarengo
o pé-direito
ouço ainda a voz que lá ecoa
a inflamação do tempo
a reverberar nas portadas
conheço ainda da casa
a memória dos canteiros
e a placa de pedra com o seu nome
a inscrição de origens
que o pai mandou retirar
tremendo a derrocada
João Miguel Henriques - " Isso Passa" . Lisboa: Artefacto, 2011.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
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