O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Dia-a-dia #99


Coisas que só podem acontecer neste sol de inverno: fui comprar cigarros numa tabacaria daquelas de Lisboa em vias de extinção, o dono tem umas fofas barbas brancas, é afável e agradece-me sempre que pago com moedas – as máquinas de cigarros agora também têm umas gravações a agradecer, aliás, as máquinas têm sempre uma voz feminina gravada, porque será? Voltando à tabacaria, pelo caminho, no prédio ao lado, a janela estava fechada e tinha um cortinado branco. Entre o cortinado e o vidro da janela estava uma gata refastelada em posição acrobática – acho que era gata porque tinha três cores, fundo negro com salpicos ferrugem e branco. Parei logo para a observar melhor, estava toda enroscada na sesta, com uma pata sobre os olhos. Nisto, ainda vislumbrei um dos olhos a abrir muito verde na minha direcção, que se fechou de automático e com indiferença. O Sol batia na vidraça, que esperta a bichana, naquele rés-do-chão deveria ser o canto da casa mais quente. E quando entrei na tabacaria, achei que o dono deveria ser parente próximo da gata, talvez o avô felpudo.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Dia-a-dia #98


Telefono para uma amiga que vive na Alemanha e oiço a minha voz constantemente em eco. Aviso-a da situação e ela do outro lado diz que é comum acontecer. Então, lá mexe no telefone ou muda de posição e melhorou. Mas a sensação foi terrível: relatava acontecimentos e as palavras arrastavam-se, se me ria aquilo prolongava-se, incomodou-me. Deve estar relacionado com os satélites que andam lá em cima e permitem a comunicação em grandes distâncias. Estou habituada ao espelho, logo de manhã olho-o antes de lavar a cara e beber café, lá se vai vendo as marcas da passagem do tempo no rosto. Agora o reflexo sonoro tem que se lhe diga, é muito mais violento.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Poema #76

O PÃO
Há pessoas que amam
com os dedos todos sobre a mesa.
Aquecem o pão com o suor do rosto
e quando as perdemos estão sempre
ao nosso lado.
Por enquanto não nos tocam:
a lua encontra o pão caiado que comemos
enquanto o riso das promessas destila
na solidão da erva.
Estas pessoas são o chão
onde erguemos o sol que nos falhou os dedos
e pôs um fruto negro no lugar do coração.
Estas pessoas são o chão
que não precisa de voar.

Rui Costa - " A Nuvem Prateada das Pessoas Graves". Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Poema #75

LEMBRANÇA DA CASA

não esqueci ainda da casa
os contornos fundamentais

a solenidade da traça
o terraço solarengo
o pé-direito

ouço ainda a voz que lá ecoa
a inflamação do tempo
a reverberar nas portadas

conheço ainda da casa
a memória dos canteiros
e a placa de pedra com o seu nome
a inscrição de origens
que o pai mandou retirar
tremendo a derrocada

João Miguel Henriques - " Isso Passa" . Lisboa: Artefacto, 2011.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Dia-a-dia #97

Existem coisas que não entendo: em Lisboa faz um calor de morte, o verão quente de Outubro, como ficará conhecido no futuro e, no entanto, estou sempre a encontrar bandos de pinguins. Estou sempre a ver grupos de estudantes fardados a rigor, a seguirem sabe se lá que tradição, de capa e batina, é um horror. Encontro-os no Metro, na Av. de Berna, na Cidade Universitária, em todo o lado. Andam sempre em bandos e fazem questão de dar nas vistas. Não entendo o gosto que esta mocidade tem em andar fardada. Outro dia, ali para os lados da Gulbenkian vinha com o meu colega Nuno e deparámo-nos com um bando a praxar futuros pinguins, que vinham com umas camisolas azuis e pintados na cara. Um pinguim-mor ordenou que os caloiros se deitassem no passeio onde nós caminhávamos. Gritei logo: ESTÚPIDOS! Então, o Nuno que é muito calmo passou-se: O QUE É ISTO? ANDAM A BRINCAR AO FASCISMO?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Dia-a-dia #96

Sonhei que o mundo estava em guerra e nós de volta de esculturas. Aliás, tu falavas imenso, coisa rara porque sempre foste de poucas falas; eu estava sobretudo a ouvir-te, coisa rara, porque só oiço até certo ponto. Mas era um sonho. Estava preocupada com uma escultura que tinha modelado em barro, tinha receio de a levar ao forno, achava que não ia sobreviver. Então, contaste-me que fizeste uma enorme almofada quadrada e vermelha por dentro; ela rebentou por causa das bolhas no interior. Ao acordar, tentei dar uma sequência ao que tinha sonhado, mas não apontei logo. Lembro-me de ver o relato do sonho aparecer em forma de texto, mas isso não era o fio da meada. Entretanto, cruzamo-nos hoje de tarde, achei que íamos apenas cumprimentarmo-nos como pessoas civilizadas, mas não, resolveste fazer perguntas, socializar de forma harmoniosa. Não nos cruzávamos já há algum tempo, não te ouvia a voz há uns anos. Tens-te lembrado de mim por causa do fado? Deixei-me disso, não tenho paciência para bater no ceguinho. Foi aos trinta. Trabalhar aqui? Estou a investigar. Pinto pouco, sou corista capista, escrevo pouco, agora só teoria. Livros de poesia gourmet. Se tenho móveis? Não, nunca tive. Lindo? Sim, sei que és poeta – pateta? Vais apontar? Pode-se escrever. O que é bela? Era estranho no fado, mas agora poesia já não é? Não tens Facebook? Também não há pachorra. Morada, o meu nome é enorme, mas é mesmo o meu nome, no caso de não saberes. Não leva til. O til é o infinito? Não, é só metade, é finito. Morada, escrevo o teu nome em alemão. É com dois Ps? Gosto de fado. Não quero ouvir. Pensas em mim por causa por fado? Lembro-me de ti, poesia. Não te contei, hoje sonhei que o mundo estava em guerra e nós de volta de esculturas.