O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eco #9


Dúvida:
Mas porque é que o mundo me está a imitar?

Hipótese:
É o céu que me está a roubar a voz.

Beatriz, 3 anos


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Leituras #26


“Precipitavam-se pela rua fora, topando tudo no modo peculiar que tinham de início e que, muito tempo depois, se tornou mais triste, perceptivo e inexpressivo. Mas nessa altura dançavam pelas ruas fora, quais fantoches febris, e eu trotava atrás deles, como toda a vida fiz no encalço das pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas de viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se um clarão azul a estourar e toda a gente exclama: «Aaaah!».
In Jack Kerouac, Pela Estrada Fora. ( Trad. Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato). Lisboa: Relógio d’Água, 1998. P- 13.

Dia-a-dia #85

As férias terminaram, estou de volta e é difícil aterrar.


quarta-feira, 28 de julho de 2010

Dia-a-dia #84

Só já penso nas férias.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Leituras #25

A gata Lua já leu e quer mais:

GRIFOS

Os grifos de agora têm ódios anões, disparam contra o musgo por temerem o ricochete do ferro, da pedra, do aço. Os grifos de agora piam e rastejam um voo videirinho, querem mais do que podem, não sabem que o lugar do voo é o ninho de onde nunca saltaram por temerem a queda. Os grifos de agora sofrem a vertigem da honestidade, da liberdade, do assombro, palavras cujo sentido não compreendem por terem sido desde cedo educados nas gravatas apertadas de um falacioso sucesso.
Colam-se aos mestres que antes deles, como eles, foram a Gizeh fotografar a esfinge, aguardando o reconhecimento da confraria que ambicionam. Colam-se com cuspo e ranho, o sangue que lhes corre na veia de poetas miraculosamente integrados, prodigiosamente recebidos, magnificamente emparelhados no futuro de quem não tem passado. E com dentes de leite arreganham o sorriso encomendado dos salões, dos rituais iniciáticos, dos baptismos solenes que um dia farão deles o esquecimento de todos nós.
Os grifos de agora têm um nó na garganta, um nó que aperta a respiração a ponto de lhes sofrear o talento. Por isso imitam com camisas cheias de esperança a flanela dos desgraçados, e pousam bem vestidos falsas dores, e dizem-se admiradores dum céu que não reconheceriam nem com lentes de ver por perto, tão cegos que estão de si próprios na melancolia comezinha, literária e falsária das universidades.
Ninguém duvide de que são cinzentos. Mais pardacento que isto é difícil de imaginar, mesmo a quem por imaginação um dia se perdeu nos labirintos da poesia.
De lágrimas, resta-lhes apenas e tão-só urina, produto resultante da excreção raivosa com que foram criados, da segunda pessoa do plural em que foram educados, ainda usavam fraldas e bebiam das tetas maternas o suco desta moleza com que afrontam o mundo.

Henrique Manuel Bento Fialho – Estranhas Criaturas. Porto: Deriva, 2010

domingo, 4 de julho de 2010