O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
quarta-feira, 28 de julho de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Leituras #25
GRIFOS
Os grifos de agora têm ódios anões, disparam contra o musgo por temerem o ricochete do ferro, da pedra, do aço. Os grifos de agora piam e rastejam um voo videirinho, querem mais do que podem, não sabem que o lugar do voo é o ninho de onde nunca saltaram por temerem a queda. Os grifos de agora sofrem a vertigem da honestidade, da liberdade, do assombro, palavras cujo sentido não compreendem por terem sido desde cedo educados nas gravatas apertadas de um falacioso sucesso.
Colam-se aos mestres que antes deles, como eles, foram a Gizeh fotografar a esfinge, aguardando o reconhecimento da confraria que ambicionam. Colam-se com cuspo e ranho, o sangue que lhes corre na veia de poetas miraculosamente integrados, prodigiosamente recebidos, magnificamente emparelhados no futuro de quem não tem passado. E com dentes de leite arreganham o sorriso encomendado dos salões, dos rituais iniciáticos, dos baptismos solenes que um dia farão deles o esquecimento de todos nós.
Os grifos de agora têm um nó na garganta, um nó que aperta a respiração a ponto de lhes sofrear o talento. Por isso imitam com camisas cheias de esperança a flanela dos desgraçados, e pousam bem vestidos falsas dores, e dizem-se admiradores dum céu que não reconheceriam nem com lentes de ver por perto, tão cegos que estão de si próprios na melancolia comezinha, literária e falsária das universidades.
Ninguém duvide de que são cinzentos. Mais pardacento que isto é difícil de imaginar, mesmo a quem por imaginação um dia se perdeu nos labirintos da poesia.
De lágrimas, resta-lhes apenas e tão-só urina, produto resultante da excreção raivosa com que foram criados, da segunda pessoa do plural em que foram educados, ainda usavam fraldas e bebiam das tetas maternas o suco desta moleza com que afrontam o mundo.
Henrique Manuel Bento Fialho – Estranhas Criaturas. Porto: Deriva, 2010
domingo, 11 de julho de 2010
domingo, 4 de julho de 2010
sábado, 26 de junho de 2010
Dia-a-dia #82
Sonhei que estava na praia da Nazaré, local onde não vou na realidade desde os meus 7-8 anos de idade. Nisto, a minha irmã arquitecta comenta que toda a região tinha sido alvo de construções desordenadas e aponta para umas rochas, onde vejo edifícios rebatidos sobre elas, como se as rochas se tratassem de superfícies topográficas: a proliferação de construções era de facto impressionante. Depois, saí da praia para ir ter com uma prima que estava a tomar conta da Lua e lá a encontro, no meio de muita gente: quando chego ao pé delas, a Lua salta-lhe dos braços e em vez de vir ter comigo, fica agrofóbica, começa em pânico a caminhar em posição de ataque, com a barriga junto ao chão, e esconde-se debaixo dos carros estacionados junto ao passeio. Acordei a chamar pela Lua, que estava a fixar-me de lado ao meus pés e fiquei descansada. Mas não paro de me lembrar da imagem das construções nas rochas, era impressionante.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Poema #62
sábado, 19 de junho de 2010
Poema #61
O ECO
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "onde? onde?"
O menino também lhe pede:
"eco, vem passear comigo!"
Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.
Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"
Cecília Meireles
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