O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Poema #6

CARTA DA INFÂNCIA

Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 17 de junho de 2009

No fio de Ariadne #5


Postado no Insónia a 12/2/2008, para ver em promenor clique na imagem.

Jardim #2

Porra! Porque é que existem vizinhos? Porque é que a estupidez na espécie humana é infinita? Só quero construir um jardim, ainda agora comecei e já estou farta das desconfianças, dos olhinhos, de perguntinhas com segundas intenções, de cravansos e empata fodas. Costumo ser diplomata, mas se já dormi mal hoje depois de ouvir coisas tão absurdas ontem, estou com sapos no estômago por fazer de conta que nada tem importância para levar a minha avante, sinto que isto vai descambar, vai- me saltar a tampa. A propósito de tampa, existe uma fossa no meu prédio que não é limpa à três anos, porque está no quintal do rés-do-chão, onde vivia uma velha que morreu (antes ela do que eu). A senhora não tinha descendentes, dizem que deixou a casa à Igreja da terra dela, mas um afilhado tem um processo em tribunal a reivindicá-la, resumindo, aquela casa agora não é de ninguém. Entretanto, depois de telefonemas, de falar com diversas pessoas em que cada um tem uma história diferente para contar, consegui falar com alguém que tem a chave daquele antro fechado desde a morte da velha, para haver acesso à fossa por parte do pessoal que lá for limpar. Telefono para a câmara, dizem que alguém tem de levantar a tampa da fossa. A casa de banho da velha junto ao quintal está a deitar água para fora, vê-se através do gradeamento da porta e é um pivete insuportável. Quando levantarem a tampa, vai haver uma inundação de merda nos quintais.

Poema #5

IMPOSSÍVEL

Nós podemos viver alegremente,
Sem que venham com fórmulas legais,
Unir as nossas mãos, eternamente,
As mãos sacerdotais.

Eu posso ver os ombros teus desnudos,
Palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
E até beijar teus olhos tão ramudos,
Cor de azeitona escura.

Eu posso, se quiser, cheio de manha,
Sondar, quando vestida, pra dar fé,
A tua camisinha de bretanha,
Ornada de crochet.

Posso sentir-te em fogo, escandescida,
De faces cor-de-rosa e vermelhão,
Junto a mim, com langor, entredormida,
Nas noites de verão.

Eu posso, com valor que nada teme,
Contigo preparar lautos festins,
E ajudar-te a fazer o leite-creme,
E os mélicos pudins.

Eu tudo posso dar-te, tudo, tudo,
Dar-te a vida, o calor, dar-te cognac,
Hinos de amor, vestidos de veludo,
E botas de duraque

E até posso com ar de rei, que o sou!
Dar-te cautelas brancas, minha rola,
Da grande loteria que passou,
Da boa, da espanhola,

Já vês, pois, que podemos viver juntos,
Nos mesmos aposentos confortáveis,
Comer dos mesmos bolos e presuntos,
E rir dos miseráveis.

Nós podemos, nós dois, por nossa sina,
Quando o Sol é mais rúbido e escarlate,
Beber na mesma chávena da China,
O nosso chocolate.

E podemos até, noites amadas!
Dormir juntos dum modo galhofeiro,
Com as nossas cabeças repousadas,
No mesmo travesseiro.

Posso ser teu amigo até à morte,
Sumamente amigo! Mas por lei,
Ligar a minha sorte à tua sorte,
Eu nunca poderei!

Eu posso amar-te como o Dante amou,
Seguir-te sempre como a luz ao raio,
Mas ir, contigo, à igreja, isso não vou,
Lá essa é que eu não caio!

Cesário Verde

terça-feira, 16 de junho de 2009

Diário gráfico #26





Mais páginas do diário que fiz em 1994 durante a minha estadia em Halifax (Canadá), para ver em promenor clique nas imagens.

Poema #4

UMA PROSA SOBRE OS MEUS GATOS

Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidencia
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
Mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam demais à poesia
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa de tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
E mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.

Manuel António Pina

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Dia-a-dia #12

Conheci recentemente a poeta alemã Barbara Köhler, na apresentação do livro VERSschmuggel/ Contrabando de VERSOS no Goethe-Institut em Lisboa. A Barbara entusiasmou-se com o meu trabalho ao visitar a minha exposição, de tal forma, que lhe propus trocar uma escultura por uma fotografia dela. E assim foi, ela levou uma pequena Babilónia para a Alemanha, é mais pequena do que está aqui fotografada, chamou-lhe Babel-baby e escreveu-me a anunciar que habita agora na cozinha da sua casa, ao lado de outros objectos artísticos, junto uma janela bem iluminada – está num sitio caloroso. Hoje estou muito feliz porque recebi a sua fotografia pelo correio, vou colocá-la na parede em frente à minha cama, para ser uma das primeiras coisas que vejo quando me levanto. Deixo-vos aqui também um poema da autora.









fermata

uma paragem uma para

gem por dentro um não

saber como fazer e não

querer no silêncio cai

um som solta-se o destino

do gesto nasce em ondas

a memória do toque

esticadas as cordas os arcos a pele

um som

dado como

perdido


Barbara Köhler (tradução de Ana Paula Tavares) in VERSschmuggel/ Contrabando de VERSOS, Wunderhorn/ Editora 34/Sextante Editora/Literaturwerkstatt Berlin, 2009