O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Diário gráfico #26





Mais páginas do diário que fiz em 1994 durante a minha estadia em Halifax (Canadá), para ver em promenor clique nas imagens.

Poema #4

UMA PROSA SOBRE OS MEUS GATOS

Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidencia
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
Mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam demais à poesia
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa de tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
E mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.

Manuel António Pina

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Dia-a-dia #12

Conheci recentemente a poeta alemã Barbara Köhler, na apresentação do livro VERSschmuggel/ Contrabando de VERSOS no Goethe-Institut em Lisboa. A Barbara entusiasmou-se com o meu trabalho ao visitar a minha exposição, de tal forma, que lhe propus trocar uma escultura por uma fotografia dela. E assim foi, ela levou uma pequena Babilónia para a Alemanha, é mais pequena do que está aqui fotografada, chamou-lhe Babel-baby e escreveu-me a anunciar que habita agora na cozinha da sua casa, ao lado de outros objectos artísticos, junto uma janela bem iluminada – está num sitio caloroso. Hoje estou muito feliz porque recebi a sua fotografia pelo correio, vou colocá-la na parede em frente à minha cama, para ser uma das primeiras coisas que vejo quando me levanto. Deixo-vos aqui também um poema da autora.









fermata

uma paragem uma para

gem por dentro um não

saber como fazer e não

querer no silêncio cai

um som solta-se o destino

do gesto nasce em ondas

a memória do toque

esticadas as cordas os arcos a pele

um som

dado como

perdido


Barbara Köhler (tradução de Ana Paula Tavares) in VERSschmuggel/ Contrabando de VERSOS, Wunderhorn/ Editora 34/Sextante Editora/Literaturwerkstatt Berlin, 2009

Poema #3

Busque o Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís de Camões

domingo, 14 de junho de 2009

Poema #2

DOIS CIPRESTES

O que foi atado
na Terra
continua atado
no Céu
e o que foi desatado
na Terra
continua desatado
no Céu
(no Inferno
é ao contrário)
mas o que não chegou
a ser atado na Terra?
Penso em ti
meu marido
não vivemos
no mesmo século
nem na mesma cidade
nunca nos cruzámos
porque não pudemos
procurámo-nos
um ao outro
lavados em lágrimas
a ver os outros
namorarem-se
às três pancadas
eu li o Yoga para grávidas
e o Vou ter um bebé
eram ficção científica
que eu mais apreciava
não aceitei o bolo
em forma de coração
que os rapazes
dão às raparigas
no Tirol
até porque não mo deram
as nossas mãos
no escuro do cinema
e no escuro da noite
não eram para ser
partilhadas
imagino-te morto
cheio de sex-appeal
e eu viva
sem sex-appeal nenhum
um dia morro
como tu
a vida não era isto
nós sabíamos
no Céu há muitas moradas
(para nós um duplex certamente)

Adília Lopes

sábado, 13 de junho de 2009

Diário gráfico #25




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Poema #1

A FLOR TEM LINGUAGEM DE QUE A SUA SEMENTE NÃO FALA

A flor tem linguagem de que a sua semente não fala
A raiz não parece dar aquele fruto
Não parece que a flor e a semente sejam da mesma linguagem
Retirada a linguagem
A semente é igual a flor
A flor igual a fruto
Fruto igual a semente
Destino igual a devir.
E era o que se pedia: igual.