O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

sábado, 6 de junho de 2009

As cinco vésperas de Salvador


I - Baptizado

Nas vésperas do seu baptizado, Salvador provou pela primeira vez a sensação de estar dentro de um fato de cerimónia; tratava-se de um vestido de seda branco com mais de um século, já usado pelos seus antepassados. Salvador sentiu-se desconfortável e apertado, por isso chorou, gritou e bolçou sobre as rendas de Bruxelas da touca, que nunca chegou a usar.

II - Comunhão

Nas vésperas da primeira comunhão, Salvador revoltado e de braços cruzados afirmou a pés juntos que não queria falar com o padre, porque não tinha pecados a confessar.

III - Serviço Militar

Nas vésperas de cumprir o serviço militar, ou seja, no dia da inspecção, Salvador foi dado como inapto, devido às medidas do seu corpo ultrapassarem largamente os padrões previstos no fabrico das fardas e botas de tropa.

IV - Casamento

Nas vésperas do casamento, a mãe do Salvador recomendou-lhe que mandasse fazer um bom fato escuro para a cerimónia, dos que duram a vida inteira. Salvador achava que era melhor comprar um fato preto, porque assim também o poderia usar nos funerais. A sua mãe disse-lhe que não queria ninguém vestido de preto no dia do seu funeral.

V - Funeral

Nas vésperas da sua morte, Salvador avisou a família de que o poderiam vestir, finalmente, com o seu melhor fato preto, aquele que teve de usar em todas as cerimónias importantes e oficiais na sua vida adulta.

Hoje lembrei-me destas micros que estão no nº1 da Minguante dedicado ao Banal

Diário gráfico #22




Mais páginas do diário que fiz em 1994 , durante a minha estadia em Halifax (Canadá), para ver em promenor clique nas imagens.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Dia-a-dia #11

Hoje o dia foi do pior: choveu de manhã por isso não foi impossível começar a limpar o quintal, o computador avariou, mas à tarde descobri com o técnico que afinal foi o teclado que foi à vida, do mal o menos, por fim fui comprar material e dei cabo das costas a carregar um saco de areia. Tudo ao contrário, como diz a filha de uns amigos meus, o mundo não é como tu queres. O que vale é que a minha irmã comprou um gelado de chocolate, está ali no congelador, vou desforrar-me.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Diário gráfico #21




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Leituras #16

O primeiro romance do meu amigo foi lançado ontem e é a história de um livro escrito por uma freira portuguesa e dos seus 333 exemplares impressos em Milão, do impacto que esses exemplares tiveram na vida dos seus leitores; o romance é assim composto por um conjunto de microficções em torno do destino de cada um destes 333 exemplares. Escolhi uma destas peculiares microficções para partilhar convosco, alguns leitores da casa no tempo ficarão surpreendidos:

“Maria Fernandez comprara o seu exemplar em Évora e decidira fazer uma escultura com as frases: um edifício de sentido onde por todas as frases das Cartas brilhassem, continuassem e se repetissem com o sol, bem como pelo olhar de quem as contemplasse. «O sentido é uma casa interior», dizia sempre. Os seus contemporâneos admiravam as suas ideias mas consideravam a sua arte muito estranha e perturbadora; Maria continuava, esculpindo o universo todo que existia no que ainda não tinha sido. Mas arruinou-se o livro quando um pouco de tinta dourada caiu sobre ele, e consciente dos processos que o universo usa com o homem, transformou o livro em uma das esculturas.”

In Pedro Sena-Lino, 333, Porto Editora, p-62

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Textos Insones #14

Ruínas

Os quintais da vizinhança, entre os quais está um pequeno pedaço que aparentemente me pertence, vivem o abandono total; a velha do rés-do-chão morreu e aquilo agora é uma verdadeira selva, a trepadeira invade-me a janela do atelier, por vezes tenho de cortá-la para não tapar a luz, para não interferir na luz necessária para pintar; há muito que prometi construir um jardim naquele pedaço, não o fiz, sei agora que nada me pertence e estou de passagem, mesmo quando circulo no mesmo sítio. Cada dia sinto mais que estou de partida, o que me prende é nada e a ideia de construir um jardim não passa de uma boa ideia. Estou triste, nem escrevo, resta-me alguma energia para pintar, procuro outros mundos onde possa habitar, porque o que se passa em meu redor está a perder o sentido. Não entendo quando comecei a sentir-me assim, talvez desde que a pintura me invadiu, ela está a interferir em tudo. Acordo por vezes de madrugada, sem despertador e vou pintar, nunca pensei que a luz da manhã se tornasse tão importante. A Lua segue-me com o seu precioso silêncio. Estive anos enleada e agora preencho espaços com rastros labirínticos, à medida que me liberto apenas me distancio, é como se tudo em meu redor fossem apenas memórias, vidas onde já não estou no momento presente, vidas que não me dizem respeito. Retomei o trabalho e as actividades sociais habituais no início de Setembro, não me preenchem, faço apenas o que pode ser feito para depois poder pintar. Nada me encanta. Sinto que em torno de mim habitam três ruínas que se estão a desmoronar: tentei que duas delas se fortalecessem contra as agressões do meio ambiente, mas não consegui nada, elas agora estão a destruírem-se uma à outra. Quanto à terceira, é muito bela, mas está fechada, queixa-se que eu não faço a mínima ideia do que se passa com o seu corpo e alma. Não me sinto culpada por isso, não sou responsável por uma ruína invisível fechada sobre si própria, não vou arruinar-me por algo que me é exterior, já quase me desmoronei por outras razões, mas depois das obras na casa, sinto que vou ter de habitar outro espaço. Não consegui sequer construir um jardim nos quintais da vizinhança, confesso que me atrai ver aquele pequeno mato no centro da cidade, o jardim era uma boa ideia, mas não o vou construir aqui. Não consigo fazer quase nada onde estou, apenas exorcizar enleios nas telas, vou libertar-me apenas.

Postado no Insónia a 25/9/2008, lembrei-me desta coisa deprimente porque o quintal vai ser limpo a partir de sexta-feira, finalmente, aquela selva vai desaparecer, não sei se consigo criar um jardim por lá, a ver vamos.

Diário gráfico #20







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