O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Textos insones #9


Cozinha

            Procura-se homem-a-dias que arrume a cozinha, lave a loiça e caiba no meu avental, que cada dia está mais largo e já não sei o que lhe hei-de fazer. Cozinho com requinte, sirvo calorosamente gelado de noz à sobremesa, agora limpar e arrumar não é comigo, só quando tudo se acumula em excesso e tenho de tomar medidas drásticas. Gosto de compartilhar o estômago e os sonhos. Adoro que me interrompam os sonhos com um café forte e quente. Não gosto de açúcar no café, prefiro um pouco de leite. Sou lenta a acordar, o meu coração também é lento, tenho a tensão sempre muito baixa, mas o aroma matinal do café faz milagres. Os vespertinos fazem-me confusão, mas consigo adaptar-me a eles com alguns limites, sobretudo se só falarem comigo depois de um bom café. Procura-se homem-a-dias porque há dias em que acordo e não gosto de ver ninguém, excepto a Lua que acompanha todas as minhas variações de humor com serenidade e sabe como me há-de acalmar. Nesses dias escrevo, desenho compulsivamente e detesto ser interrompida nos meus sonhos acordados; ou pesadelos. Oiço música que a média das pessoas não aguenta; por vezes oiço música que não se pode partilhar, que habita no meu interior mais sombrio um espaço inatingível; tenho também dias em que sou um barco à deriva no mar e Mahler é das poucas presenças humanas que tolero. Nos dias em que não suporto ver ninguém, viajo no mesmo sítio em pensamentos circulares imparáveis; também tenho dias em que mergulho num deserto de silêncio, encontrando fantasmas nas dunas de areia; nesses dias tenho miragens quando procuro algum oásis ao fim da tarde que me refresque e qualquer ruído me assusta. Procuro um homem que entenda que é a dias porque os dias não são todos iguais para mim; que seja o guardião da minha solidão, como Rilke me fez acreditar que é possível e que também tenha vida própria, força interior, porque só assim o poderei aceitar e fazer feliz; só assim ele me poderá compreender e aguentar. Um bom encontro só é possível entre duas solidões que se respeitam, como dois lagos que repousam um no outro, alimentando-se e mantendo as suas águas calmas. Procura-se homem-a-dias que saiba que em certos dias é melhor deixar-me em paz e sossego. Um lago sozinho seca mais depressa ou quando dois lagos se encontram correm o perigo de transbordarem as suas águas. Procura-se homem-a-dias que reconheça estes sintomas e que em certos dias me obrigue a sair de casa e a viajar nas suas mãos, porque as minhas estão calejadas, por vezes doem e ficam cansadas de criar mundos. Dois lagos quando repousam um no outro, alimentando-se sem agressões e com espaços próprios, mantêm as suas margens alegremente nesse encontro. Procura-se homem-a-dias que por vezes não me deixe cozinhar e me convença com arte e graça a ir jantar fora, a rir e a dançar durante toda a noite.

Texto postado no Insónia a 1/9/2006 e lido a convite dos Margem d'arte no 1º Grandioso Encontro de Pastelaria Marginal Portuguesa a 19/9/2008 no Bar do Manel em Santa Cruz ( Torres Vedras).

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Diário gráfico #11





Mais páginas de um pequeno diário que fiz em 1992, para ver em promenor clique nas imagens.

No sitemeter #2

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Eco
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Alguém veio parar ao Eco procurando no google. br «eco textos», não sei o que é, mas achei bonito.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Uma casa no tempo #9





























Paredes 
 
A minha casa de paredes altas, a escrita invadiu as paredes, já foram brancas, agora a patine do tempo percorre-as. Em cada parede uma camada de memória, perco-me dentro de casa, procuro as chaves que nunca sei onde estão. Já tive vários chaveiros pendurados nas paredes, mas não resultou. A casa, vale de corvos escrito nas paredes, a outra seara está em Amesterdão. Tenho de voltar à cidade das janelas abertas, estou sufocada por muros altos, caiados, por muralhas de pedra, não suporto os pátios fechados do sul. Preciso de água, quero viver junto ao mar. A minha casa é um porto de passagem, um local perdido onde regresso sempre, de onde fujo do amarelo mortífero da planície. Estou rodeada de amarelo, até as paredes da casa são assim. Acumulo papéis, desorganizadamente, os meus livros têm páginas amarelas, são as paredes da casa, cheias de cicatrizes, de golpes a sarar. Os objectos acumulam-se na casa, como os livros, as pessoas vão e voltam, são como as ondas do mar, os livros ficam empilhados em vários sítios como as rochas. O telefone chama-me, a tua voz liberta-me disto tudo e dizes-me que se aprende muito com as saudades. Os açorianos, por via da dúvida, descrevem esse sentimento como um cortinado roxo que nos cobre o coração. Também, vivem rodeados de água, a ausência numa ilha sente-se com outra intensidade. Eu vivo rodeada de papéis amarelecidos pelo tempo. Raios partam a palavra portuguesa, saudade, porque amamos mais quando estamos distantes?
texto postado no Insónia a 21/8/2005, a ilustração foi postada a 14/6/2006

segunda-feira, 18 de maio de 2009

No escara voltaica

O Pedro S. Martins postou novamente um poema com ilustração aqui da casa, desta vez escolheu uma página do meu diário de 1992. Obrigada.

Diário gráfico #10





Mais páginas de um pequeno diário que fiz em 1992, para ver em promenor clique nas imagens.

domingo, 17 de maio de 2009

Textos insones #8

A casa escreve descrevendo-me

A casa escreve descrevendo-me em cada parede amarelecida pelo tempo em cada camada de memória em cada paixão em cada parede de ilusão. A minha casa foi uma conquista ao tempo, a conquistada no tempo e o tempo consome as suas paredes e vai-me consumindo como Cronos devorou seus próprios filhos. Já dormi em todos os quartos da casa, tudo começou assim, apoderei-me dela e ela a pouco e pouco apoderou-se de mim, com as suas paredes cobertas de rastros, preenchidas com os meus artefactos, o chão de madeira, os frisos geométricos junto ao tecto. A casa é um porto de passagem, um local perdido onde se regressa num tempo passado que vejo ao longe no exterior. Sempre que regresso à casa sinto que chego ao casulo fofo e quente, onde estou bem guardada, nos meus papéis e livros amarelos, onde sou passado a flutuar, numa acumulação de objectos estranhos que me olham e falam. Os objectos palram numa linguagem que nem sempre entendo, estão de volta de mim todos os dias, conhecem-me com a palma da mão, e sabem como gosto de os mudar de sítio quando falam de mais, ou dizem o que não quero ouvir dizer.
Nunca sei onde estão as chaves de casa, antes de sair procuro-as sempre, ou estão na cozinha, ou estão na sala, ou no quarto, ou na marquise. As chaves obrigam-me a percorrer todo o espaço antes de sair. A casa diz: tens de ver onde deixas as coisas, se está tudo bem, não sais daqui enquanto não percorreres todo o meu interior, vê lá se não tens lixo para deitar fora. Vai dar uma volta, mas vê lá como é que vais.
Nunca sei onde estão os óculos, se não os deixo no nariz ou ao lado do computador, repete-se o ritual da ronda à casa, à casa de banho, à cozinha, ao quarto, à sala. Perco-me dentro de casa, fumo cigarros, as paredes amarelecem absorvendo o fumo, sinto-me sufocada por estas paredes. A casa esconde-me as coisas, as canetas, os lápis, os cadernos, os sapatos. A casa apoderou-se de mim há muito tempo, ela diz-me: aqui estás bem, podes dormir podes sonhar podes pensar à vontade, as minhas paredes mostram-te o que fazes, os teus gestos, as tuas cores, as texturas, os amigos, a Lua, as tuas paisagens na parede, os que passaram por cá deixaram rastros também, estão comigo, vivos ou mortos, os que aqui dormiram. Aqui estás tu e perdes-te aqui dentro, por isso se escondem os objectos, é para acordares, saíres de ti, vai dar uma volta, areja a cabeça, vai ver outras coisas fora das minhas paredes.

postado no Insónia a 23/9/2005