O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
segunda-feira, 18 de maio de 2009
No escara voltaica
O Pedro S. Martins postou novamente um poema com ilustração aqui da casa, desta vez escolheu uma página do meu diário de 1992. Obrigada.
domingo, 17 de maio de 2009
Textos insones #8
A casa escreve descrevendo-me
A casa escreve descrevendo-me em cada parede amarelecida pelo tempo em cada camada de memória em cada paixão em cada parede de ilusão. A minha casa foi uma conquista ao tempo, a conquistada no tempo e o tempo consome as suas paredes e vai-me consumindo como Cronos devorou seus próprios filhos. Já dormi em todos os quartos da casa, tudo começou assim, apoderei-me dela e ela a pouco e pouco apoderou-se de mim, com as suas paredes cobertas de rastros, preenchidas com os meus artefactos, o chão de madeira, os frisos geométricos junto ao tecto. A casa é um porto de passagem, um local perdido onde se regressa num tempo passado que vejo ao longe no exterior. Sempre que regresso à casa sinto que chego ao casulo fofo e quente, onde estou bem guardada, nos meus papéis e livros amarelos, onde sou passado a flutuar, numa acumulação de objectos estranhos que me olham e falam. Os objectos palram numa linguagem que nem sempre entendo, estão de volta de mim todos os dias, conhecem-me com a palma da mão, e sabem como gosto de os mudar de sítio quando falam de mais, ou dizem o que não quero ouvir dizer.
Nunca sei onde estão as chaves de casa, antes de sair procuro-as sempre, ou estão na cozinha, ou estão na sala, ou no quarto, ou na marquise. As chaves obrigam-me a percorrer todo o espaço antes de sair. A casa diz: tens de ver onde deixas as coisas, se está tudo bem, não sais daqui enquanto não percorreres todo o meu interior, vê lá se não tens lixo para deitar fora. Vai dar uma volta, mas vê lá como é que vais.Nunca sei onde estão os óculos, se não os deixo no nariz ou ao lado do computador, repete-se o ritual da ronda à casa, à casa de banho, à cozinha, ao quarto, à sala. Perco-me dentro de casa, fumo cigarros, as paredes amarelecem absorvendo o fumo, sinto-me sufocada por estas paredes. A casa esconde-me as coisas, as canetas, os lápis, os cadernos, os sapatos. A casa apoderou-se de mim há muito tempo, ela diz-me: aqui estás bem, podes dormir podes sonhar podes pensar à vontade, as minhas paredes mostram-te o que fazes, os teus gestos, as tuas cores, as texturas, os amigos, a Lua, as tuas paisagens na parede, os que passaram por cá deixaram rastros também, estão comigo, vivos ou mortos, os que aqui dormiram. Aqui estás tu e perdes-te aqui dentro, por isso se escondem os objectos, é para acordares, saíres de ti, vai dar uma volta, areja a cabeça, vai ver outras coisas fora das minhas paredes.
postado no Insónia a 23/9/2005
sábado, 16 de maio de 2009
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Artes #1
Fotografias #1
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