O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Textos insones #7

Banco de cozinha

Lisboa, 9 de Março de 1996

            Nas ruas desta cidade ora faz sol, ora cai chuva para variar, já perdi 8kg desde Janeiro e ando com mais energia; estou a maior parte do tempo muito concentrada a ler em casa ou a fazer escultura nas Belas. Ontem tive a má ideia de sair à noite, tudo me fazia lembrar o J, arrepiei-me quando passei em frente da montra do Majong, já fiz parte daquela montra, lembrei-me das horas que perdi lá dentro, a ouvi-lo falar sobre si próprio, passivamente, a dar-lhe toda a atenção do mundo. A compreensão talvez seja a melhor forma de nos vingarmos dos outros. Ontem à noite todos os locais públicos no Bairro estavam cheios de potenciais Js, os homens eram muito semelhantes a ele e as mulheres estavam mergulhadas numa estranha passividade, aparentavam estar ali, mas estavam muito longe; à minha volta só via alienados a abanar a cabeça ao som de ruídos estranhos. Acho que é melhor não sair à rua, aqui em casa oiço música como deve de ser e posso ainda visitar algumas casas de amigos com os quais se pode estar à vontade. Ontem saí à rua porque era o aniversário de C, lá fui beber umas cervejas e nisto deparei-me com um amigo do primo de C, que era mais sensível do que é habitual encontrar por aí; divorciado há pouco tempo, com 31 anos e dois filhos, via-se que estava magoado e decepcionado. Nisto ele começou a mandar bocas generalistas às mulheres, do tipo são todas iguais e citava um escritor espanhol que dizia que se devia melhorar as condições de vida de todas as mulheres fazendo cozinhas maiores e fornos mais úteis. Respondi-lhe que os homens têm uma vírgula existencial muito grande e que qualquer banco de cozinha lhes serve. Os homens da mesa começaram a ficar maldispostos e para os incomodar ainda mais expliquei que os bancos de cozinha costumam ter buracos. Ele virou-se para mim e perguntou-me no que é que eu gostaria de ser homem; respondi-lhe que gostaria de ser homem para poder ter relações intimas como se bebesse um copo de água e o dia seguinte ser apenas um novo dia, como se nada tivesse acontecido. Ele terminou com as suas boquinhas generalistas sobre mulheres e delicadamente disse-me que o meu modo de sentir era muito peculiar. Coitado, estava cheio de sono, só espreguiçava a boca e rapidamente mudou de assunto, começou a falar de comida, o que é mau para a minha dieta, para além de eu já ter bebido umas cervejas. Por fim levantou-se e despediu-se dizendo: foi breve, mas intenso, muito prazer.

Texto baseado numa carta escrita em 1996 e que nunca cheguei a enviar, encontrei-a por acasodentro de um livro, foi  postado no Insónia a 12/10/2006

domingo, 10 de maio de 2009

Portefólio #3


O trabalho que fiz em 1993 aconteceu na sequência do anterior: foi um ano produtivo onde participei em duas exposições colectivas com os meus colegas do Ar.Co. Foi também um ano de grandes mudanças: entrei para a primeira turma do curso avançado de artes plásticas, ganhei uma bolsa de estudos para o frequentar. Anteriormente, apenas alguns professores e amigos se interessavam pelo que fazia, mas neste ano, de repente, à minha volta parecia que toda a gente via o que estava a fazer e se interessava, o que nem sempre era muito agradável. No fim do ano de 1992, houve um pintor alemão que visitou o Ar.Co e por lá deu umas aulas – e entusiasmou-se muito com o estava a produzir, nomeadamente, com os diários gráficos que aqui tenho postado. Ele pintava paisagens abstractas e chamava-se Heribert C. Ottersbach, convenceu-me a concorrer ao curso avançado no ano seguinte e assim fiz, fiquei entre os oito finalistas eleitos desta escola de arte. No início do ano lectivo ele voltou para nos dar aulas como

professor convidado: queria seleccionar quatro de nós para uma exposição em Cólonia e mostrou-nos as suas novas pinturas, que eram grupos de imagens fotográficas impressas sobre pequenas telas, depois pintadas e começou a ter uns estranhos ataques de agressividade comigo, porque achava que eu deveria fazer o mesmo, partindo dos meus diários gráficos. Achei tudo muito estranho e continuei na minha, as pinturas dele também tinham imagens referentes à infância, achei que de algum modo os meus livros o tinham influenciado, mas o que eu fazia era com materiais baratos, eram fotocópias pintadas e colagens, imprimir fotografias em tela era algo impensável e muito dispendioso, para além de não estar com grande vontade de pintar, não fazia sentido ampliar aqueles pequenos livros para pendurar na parede. Nunca me dei muito bem com os pequenos poderes de certos homens, tem sido a história da minha vida e houve de facto situações desagradáveis com este alemão, ele acabou por não me seleccionar para a exposição que estava a organizar, visto que eu não cedi e não conseguiu subjugar-me. Aprendi com tudo isto que não é bom trabalhar sobre pressão e que apenas devemos fazer aquilo que achamos que está correcto, temos a primeira e ultima palavra no que produzimos, as acções são nossas, mesmo em situações adversas. Existem muitos homens que encaram as mulheres como seres com mamas que são estúpidos e inferiores, por isso devem estar apenas em posições subalternas no mundo, não nos têm respeito, nunca tive paciência para isso, muito menos para alemães, salvo raras excepções. Mas de facto, no Ar.Co, foi preciso a visita de um professor estrangeiro para começarem a ver com mais atenção o que fazia, os meios em Portugal são muito fechados e têm os seus vícios. Fora isso, também contactei e conheci pessoas muito interessantes, que foram positivas para o que estava a fazer e o ano acabou bem com a exposição dos bolseiros no Ar.co e a do Curso Avançado no Ministério das Finanças, onde apresentei desenhos com textos em forma de labirintos e Quebra-cabeças a preto e branco.

sábado, 9 de maio de 2009

Labirintos - inauguração






Eurico Lino do Vale

A minha mãe e eu

A Xana e a Filipa  

Rui Almeida e Rute Mota

Eu e o Luís Alves da Costa

Henrique Fialho, Mário Pedro, Ana Marín, eu e a minha irmã Ró

Eu, Rui Almeida, Rute Mota e Henrique Fialho 

  o Diniz Lopes 

Mário Pedro, Henrique Fialho e Jorge Oliveira

Lá fora também se estava bem

Lá dentro a Vanessa, Mariana e Milton

Muito Obrigada a todos os que apareceram por lá, os que não puderam,  a exposição está até ao dia 30 de Maio.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Uma casa no tempo #7
































































Publicado na revista Big Ode #6 Novembro de 2008
 clique na imagem para poder ler o texto.

Diário gráfico #6






Mais páginas de um pequeno diário que fiz em 1992, para ver em promenor clique nas imagens.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Dia-a-dia #8

Hoje durante a montagem da minha exposição, entrou uma prostituta - é comum irem buscar preservativos à galeria - cumprimentou a Mariana - que trabalha lá e perguntou-lhe:
- Estes quadros são a próxima exposição?
-Sim.
- Mas são todos iguais...
- Olha que não são...
- Pois não e parecem que saem para fora!

terça-feira, 5 de maio de 2009

Portefólio #2

No verão de 1992 participei numa colectiva de pintura na Casa das Artes de Tavira: o Ivo que anteriormente tinha sido meu professor no Ar.Co  lançou-me o desafio, também à Ana Luísa Ribeiro, Carla Mendes e ao Carlos Calado. Neste ano estava a fazer um conjunto de quadros com jogos de palavras e optei por realizar uma instalação com eles a que chamei Quebra-cabeças. Cada quadro era composto por um conjunto de módulos rectangulares, onde se encaixavam letras que se podiam ler no positivo e negativo, com cores diferentes, azuis e verdes; em cada conjunto destes módulos era possível encontrar e ler várias palavras, como Timor, amor, morte, mar, ar, ir. Nesta altura, ainda não conhecia bem os experimentalistas, nem estava muito a par do que se tinha feito em termos de poesia visual no passado, mas fui lá parar ao desenvolver um  trabalho em termos práticos, fui lá parar por  me interessar por jogos. Lembro-me que no Ar.Co a primeira pessoa que me falou sobre os experimentalistas portugueses foi o Carlos Augusto Ribeiro, que dava lá aulas de pintura, mas nunca foi meu professor; ele chamou-me a atenção para o trabalho da Ana Hatherly de que também já tinha visto uma exposição retrospectiva de desenho na Gulbenkian em 1991. Mais tarde, quando voltei às Belas-artes investiguei e aprofundei sobre esta área nas cadeiras teóricas. Quanto aos Quebra-cabeças que expus na Casa das Artes de Tavira, fiquei numa pequena sala à entrada do espaço e deparei-me com uma boa surpresa: os focos de iluminação tinham umas lentes que permitiam direccionar a luz e regulá-la, permitiram deixar o espaço onde coloquei os quadros maiores quase às escuras, com uma iluminação a enquadrá-los. Esta colectiva foi também uma boa experiência e vendi o meu primeiro quadro, um pequeno tríptico que estava na entrada.