Banco de cozinha
Lisboa, 9 de Março de 1996
Nas ruas desta cidade ora faz sol, ora cai chuva para variar, já perdi 8kg desde Janeiro e ando com mais energia; estou a maior parte do tempo muito concentrada a ler em casa ou a fazer escultura nas Belas. Ontem tive a má ideia de sair à noite, tudo me fazia lembrar o J, arrepiei-me quando passei em frente da montra do Majong, já fiz parte daquela montra, lembrei-me das horas que perdi lá dentro, a ouvi-lo falar sobre si próprio, passivamente, a dar-lhe toda a atenção do mundo. A compreensão talvez seja a melhor forma de nos vingarmos dos outros. Ontem à noite todos os locais públicos no Bairro estavam cheios de potenciais Js, os homens eram muito semelhantes a ele e as mulheres estavam mergulhadas numa estranha passividade, aparentavam estar ali, mas estavam muito longe; à minha volta só via alienados a abanar a cabeça ao som de ruídos estranhos. Acho que é melhor não sair à rua, aqui em casa oiço música como deve de ser e posso ainda visitar algumas casas de amigos com os quais se pode estar à vontade. Ontem saí à rua porque era o aniversário de C, lá fui beber umas cervejas e nisto deparei-me com um amigo do primo de C, que era mais sensível do que é habitual encontrar por aí; divorciado há pouco tempo, com 31 anos e dois filhos, via-se que estava magoado e decepcionado. Nisto ele começou a mandar bocas generalistas às mulheres, do tipo são todas iguais e citava um escritor espanhol que dizia que se devia melhorar as condições de vida de todas as mulheres fazendo cozinhas maiores e fornos mais úteis. Respondi-lhe que os homens têm uma vírgula existencial muito grande e que qualquer banco de cozinha lhes serve. Os homens da mesa começaram a ficar maldispostos e para os incomodar ainda mais expliquei que os bancos de cozinha costumam ter buracos. Ele virou-se para mim e perguntou-me no que é que eu gostaria de ser homem; respondi-lhe que gostaria de ser homem para poder ter relações intimas como se bebesse um copo de água e o dia seguinte ser apenas um novo dia, como se nada tivesse acontecido. Ele terminou com as suas boquinhas generalistas sobre mulheres e delicadamente disse-me que o meu modo de sentir era muito peculiar. Coitado, estava cheio de sono, só espreguiçava a boca e rapidamente mudou de assunto, começou a falar de comida, o que é mau para a minha dieta, para além de eu já ter bebido umas cervejas. Por fim levantou-se e despediu-se dizendo: foi breve, mas intenso, muito prazer.
Texto baseado numa carta escrita em 1996 e que nunca cheguei a enviar, encontrei-a por acasodentro de um livro, foi postado no Insónia a 12/10/2006











