O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Diário gráfico #2




Mais páginas de um pequeno diário que fiz em 1992, para ver em promenor clique nas imagens.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Diário gráfico #1





As primeiras páginas de um pequeno diário que fiz em 1992, para ver em promenor clique nas imagens.

Leituras #11


Continuo com as palavras do homem da montanha no seu Portugal, sobre Évora:

“ Aproveitando os incentivos do meio e os recursos do seu génio, o alentejano faz milagres. A própria paisagem sem relevo o estimula. Faltava ali o desenho e a arquitectura, que nas outras províncias existem na própria natureza. Pois bem: concebeu ele o desenho e a arquitectura. E, na mais rasa das planícies, ergueu essa flor de pedra e de luz que é Évora!
Beja tem a sua torre de mármore para ver meio Portugal; Portalegre os seus palácios barrocos, para encher de solidão; Elvas o seu aqueduto de sede arqueada e a sua feiura para meter medo aos Espanhóis; Estremoz a sua praça do tamanho de uma herdade. Mas Évora olha do alto do seu zimbório espelhado, povoa as casas de lembranças vivas e gloriosas, e, sequiosa apenas do eterno, risonha e aconchegada, enfrenta as agressões do transitório com a força da beleza e a amplidão do espírito.
Será talvez alucinação do poeta. Mas porque nela se documenta inteiramente a génese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos, e se encontra registado dentro dos seus muros o caminho saibroso da nossa cultura, – se estivesse nas minhas mãos, obrigava todo o português a fazer uma quarentena ali. Uma lei pública devia forçá-lo a entrar na cidade a desoras, numa noite de luar. E, sem guia, mandá-lo deambular ao acaso. Seria um filme maravilhoso da história pátria que se lhe faria ver, com grandes planos, ângulos imprevistos, sombras e sobreposições. Uma retrospectiva do que fizemos de melhor e mais puro no intelectual, no politico e no artístico. Só de manhã seria dado ao peregrino confirmar com a luz do sol a luz do écran. E se ao cabo da prova não tivesse sentido que num templo de colunas coríntias se pode acreditar em Diana, numa Sé românica se pode acreditar em Cristo, e num varandim de mármore se pode acreditar no amor, seria desterrado.”

In Miguel Torga, Portugal, Edição do autor, Coimbra 1957, p-124-126.

A sugestão da quarentena parece-me bem, para mim não porque nasci e vivi cerca de 16 anos dentro daquelas muralhas, estou como o Obélix em relação à poção mágica, mas experimentem, como diria o Almada “ Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades”.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

No Escara Voltaica

O Pedro S. Martins postou um poema com ilustração aqui da casa. Obrigada.

Dia-a-dia #6

Os quadros para a exposição no dia 8 de Maio já estão prontos desde sexta-feira, agora só resta secarem. Entretanto, estou sem internet em casa, um problema na linha, só devo regressar aqui lá para quarta-feira, a não ser que haja um milagre PT.

domingo, 26 de abril de 2009

No fio de Ariadne #3






Da cidade, aguarela s/papel, 21x30cm, 2008

Postado no Insónia a 24/1/2008 e publicado na Revista Big Ode#4 - Urbe, Março-Junho de 2008, clique na imagem para ler.

sábado, 25 de abril de 2009

Textos Insones #6

25 de Abril

Não tenho nenhuma recordação do dia 25 de Abril de 1974, na altura tinha 4 anos; tenho apenas algumas imagens soltas anteriores a essa data e também posteriores. Sei que estava em Évora com os meus pais e irmãos e a partir do Verão de 1975 não foi fácil, as propriedades dos meus pais foram ocupadas, passamos por dificuldades várias e o que sempre ouvi em minha casa e aprendi com a clivagem que vivemos a partir desse período é que o oportunismo não tem cor, não se pode confiar nos políticos, são poucos os que são decentes e honestos neste país, não se pode ter ilusões – e não é só os políticos, mas os exemplos vêm de cima. Lembro-me de ter partido para Espanha com a minha mãe e cinco dos meus irmãos. O meu pai e irmão mais velho ficaram em Portugal. Lembro-me do inicial apartamento onde vivi em Badajoz, num primeiro andar, eu dormia com a minha irmã Ró num colchão no hall de entrada – uma aventura – os rapazes ficavam na sala numas cadeiras de praia, a minha irmã Ana num pequeno quarto junto à sala e a minha mãe no outro. A minha irmã Xum estava em Mérida e depois juntou-se a nós; via os desenhos animados da Heidi num café ao pé desta casa, onde jogava flipers com os meus irmãos. Depois mudamo-nos para um rés-do-chão maior, uma casa velha, dormia num quarto com a minha irmã Ró, ao lado do quarto da minha mãe. Lembro-me de ouvir a rádio portuguesa, o som da guitarra do Carlos Paredes remete-me sempre para os espaços desta casa; ia à escola, aprendi a escrever e a ler o castelhano, tinha uma cartilha com desenhos e de frases do tipo “ mi mama me mima” ou “mi padre fuma pipa”. Na escola estava sempre a fazer traquinices, tinha uma colega de carteira portuguesa, a Filipa e mais duas espanholas. Estava muitas vezes de castigo – porque seria? – Ia para o fundo da sala virada para a parede. Em casa, depois do jantar ia brincar com uma pandilha na rua, jogar ao elástico, aprendi a cantar e a dançar sevilhanas – a minha irmã Ró diz que fui eu que meti conversa com as miúdas na rua. No primeiro andar dessa casa viviam vários estudantes, era uma diversão. Quando se aproximou o Natal, fiquei cheia de medo de não ter prendas, a casa não tinha chaminé. Depois recebi uma cama de plástico cor-de-rosa para a minha boneca e a minha irmã Xum convenceu-me que ela entrou pelo buraco do vidro da janela da sala. Depois mudamo-nos para um apartamento num prédio moderno, onde também brincava na rua à noite, com outra pandilha. Uma vez cantei as sevilhanas que tenho na memória a uma catalana que se fartou de rir e dizia que só poderia ter aprendido isso na rua. Quando voltei para Évora não havia nada disto, não brincava na rua e compartilhávamos a casa com mais duas famílias de retornados. O meu pai dava aulas de matemática e a minha mãe trabalhava na escola onde eu ia com a Ró. A minha mãe diz que o único ministro da agricultura que houve como deve de ser neste pais foi o António Barreto e que se o encontrasse na rua, ia dar-lhe um aperto de mão e cumprimentá-lo. Apesar de tudo, o sentido de humor foi sempre mantido na minha casa em relação à política: lembro-me de num Carnaval os meus pais mascararem-se de pessoal da reforma agrária para pregarem uma partida a uns amigos; noutro, a minha mãe mascarou-se de Manuela Eanes, estava enlacada, pirosa e extraordinariamente pintada; estas talvez sejam exemplos de boas expressões para ultrapassar o sofrimento, a mágoa que eles sentiam em relação ao que foi destruído, as árvores cortadas que nunca mais se puderam recuperar. O que é para mim o 25 de Abril? O dia em que se comemora a liberdade no meu pais e de imediato associo a data às noites em que brincava na rua em Espanha com as pandilhas, onde cantava e dançava sevilhanas. Esta memória para mim ficou como sinónimo de liberdade.
Postado no Insónia a 25/4/2007