O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Leituras #10


E assim escreveu Miguel Torga sobre este país de nada:

“ Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-montes e o Alentejo. Trás-os-montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento”.

“Terra da nossa promissão, da exígua promissão de sete sementes, o Alentejo é na verdade o máximo e o mínimo a que podemos aspirar: o descampado dum sonho infinito e a realidade de um solo exausto”.

“ Embriago-me na pura charneca rasa, encontrando encantos particulares nessa pseudo-monotonia rica de segredos. Nada me emociona tanto como um oceano de terra estrema, austero e viril. A palmilhar aqueles montados desmedidos, sinto-me mais perto de Portugal do que no castelo de Guimarães. Tenho a sensação de conquistar a pátria de novo e de a merecer…"
"Mas a terra alentejana pode comtemplar-se ainda no estado virginal, virgem, exposta e aberta. E é nela que encho a alma e afundo os pés, num encontro da raiz com o húmus da origem…”

In Portugal, edição do autor, Coimbra 1957. ( não sei as páginas, não encontro o livro, acho que a minha irmã é que o tem, tinha estas frases copiadas num bloco de apontamentos).

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Leituras #9


Já que coloquei aqui uma coisa sobre Évora, lembrei-me do que Miguel Torga escreveu sobre esta cidade – tenham atenção, o Alentejo, segundo o José Régio é Trás-os-montes passado a ferro, o Torga é um homem da Montanha:

Évora, 14 de Fevereiro de 1942 – Rendo-me. Diante de uma realidade assim, rendo-me, e digo mais: que vale a pena, afinal, haver história, haver arquitectura, e haver respeito por quantos souberam ser antes de nós bichos e poetas no seu casulo. E por isto: porque até hoje, em Portugal, só esta terra me deu justa medida e a justa prova séria e humana pégada que deixaram no seu caminho nossos pais. Para que me surja vivo e sagrado aos olhos o que os meus antepassados fizeram, é preciso que a lição recebida seja ao mesmo tempo testemunho e destino. Ora nenhuma cidade nossa, salvo Évora, foi capaz de me dizer com pureza que eu sou latino, que eu sou árabe, que eu sou cristão, que eu sou peninsular, que eu sou português, - que eu sou a trágica mistura de sangue místico e pagão que faz de mim o homem desgraçado que sabemos.”

In Diário II, Edição do autor, Coimbra 1960, p-27

terça-feira, 21 de abril de 2009

Textos Insones #5

Nas ruas de Évora

Em Évora existiam ruas proibidas e assustadoras na moraria, onde evitei entrar mesmo de dia, como a Rua do Manuel de Olival, centro da prostituição e marginalidade entre muralhas que desagua no jardim das canas, transformado depois num despidinho, mesmo em frente do Teatro Garcia de Resende; aqui existia uma esplanada felliniana relativamente segura e movimentada, animada também por seres decadentes provenientes do Manuel de Olival, onde uma vez apanhei um dos maiores sustos da minha vida: estava sentada num agradável fim de tarde veranil com umas amigas a conversar, os seres estranhos sentavam-se habitualmente num baixo muro lateral junto ao jardim, por baixo da sombra, como sábios alentejanos; então um miúdo com cerca de seis anos aproximou-se da nossa mesa agarrando-se ao suporte do guarda-sol e olhou-nos com os seus estranhos olhos azuis acinzentados; depois esboçou um sorriso malicioso, que nunca mais esqueci, porque os seus dentes estavam todos cariados, tinham buracos negros. Évora tem destas coisas no seu interior, é uma cidade que sorri sem a ingenuidade infantil, uma cidade que ri com os dentes cariados e podres da história.
Não sei que estranho e potente íman tem a cidade branca das muralhas que é uma constante presença na minha memória e ausência na vida diária – sei apenas que o seu magnetismo é maléfico. Reza a lenda que a cidade foi amaldiçoada por uma bruxa, quando os cristãos a conquistaram aos mouros; não sei se é verdade, mas dizem que foi um acto de vingança, uma bruxa enterrou a cabeça de uma mula numa das portas da cidade. Se calhar foi no Arco da rua D. Isabel, por isso me assustei sempre que tive de passar por baixo das suas pedras. Évora, sempre que posso não vou lá, conheço aquelas calçadas de cor e salteado, quando tenho de lá ir apanho a última camioneta disponível, demoro um tempo infinito a sair da minha casa em Lisboa, arranjo todo o tipo de pretextos para me atrasar. Nem sempre foi assim, a relação com a cidade foi sempre conflitual, mas após a morte de um amigo pintor, o José de Carvalho Guinapo, em Setembro de 1991, passei a odiar aquele branco das paredes, aquelas ruas labirínticas que vão sempre dar ao mesmo sítio. Porque o Zé sabia que ia morrer, estava doente e omitiu-me esse facto, ele voltou para Évora para poder terminar – e morreu sozinho na sua casa, na sua cidade, encontram-no morto com a obra em seu redor, já estava assim há alguns dias. Évora é uma cidade que cheira a morte, eu sei que posso também lá ficar emparedada nalguma parede, mas prefiro viver ao pé do Tejo, ao pé do mar, por enquanto ainda tenho muitas ruas e calçadas novas para percorrer, quero gastar muitas solas de sapatos perdendo-me em cidades por este mundo fora, espreitando discretamente janelas e portas com universos desconhecidos; devo isso também ao Zé de Carvalho, não me esqueço das suas palavras, da sua luta até ao fim, da sua força e fé no trabalho artístico, só a morte o venceu. Évora habita a minha memória numa espécie de sepultura em vida, que me chama, constantemente, mas prefiro olhá-la bela e distante na estrada, sobretudo, quando vou a caminho de Espanha, assemelha-se a um encantamento, assim ao longe até parece ficção.
Postado no Insónia a 25/1/2006

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Dia-a-dia #5

Só me faltam terminar de pintar dois quadros para a exposição no dia 8 de Maio. Estou com uma dor de costas terrível, uma mistura de tensão muscular, stress e más posições a trabalhar ao longo dos anos. O São Pedro parece que, entretanto, resolveu enviar bom tempo, que se mantenha para os quadros secarem até à exposição, como são a óleo vão ter uma vernizage a sério. E uma aluna acabou de me dizer que estou com um ar muito feliz, respondi que é do cansaço, pois, deve-me deixar com cara de tontinha.

sábado, 18 de abril de 2009

Dia-a-dia #4

Estive de manhã nas comemorações da Universidade de Lisboa do dia mundial da voz, onde actuei no Coro de Câmara desta Universidade. Quando cheguei a casa deparei-me com a fantástica surpresa que o Henrique Fialho me enviou num comentário:
Não consigo colocar o vídeo de outro modo nesta casa, mas não deixem de ver.
A Rute Mota elegeu Susan Boyle a heroína do seu blog, em boa hora e dia, o dia da voz deveria ser como o natal, todos os dias, porque a voz humana é uma grande heroína.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Textos Insones #4

Do bom e do burro

Ultimamente tenho reparado que muita gente confunde as pessoas boas com pessoas burras, mas bom e burro não são sinónimos. Se formos verificar, no dicionário a palavra bom quer dizer de boa qualidade, que tem bondade e é sinónimo de virtuoso, vantajoso, próprio, agradável, útil, sadio, nobre, seguro e garantido. É claro que burro também começa por b, mas isso não quer dizer que o b de bom seja igual ao b de burro. Burro, segundo o dicionário é um nome vulgar de uns mamíferos perissodáctilos, da família dos Equídeos, menos corpulentos que os cavalos, mas com orelhas mais compridas; é sinónimo de asno, jumento e cavalgadura; também pode ser um jogo de cartas; e, finalmente, significa indivíduo estúpido e teimoso. Assim, no dicionário verificamos que estas duas palavras não são sinónimas, não surgem associadas, dai se deduz que uma pessoa boa não é burra, ou seja, estúpida e teimosa. Eu acho que por vezes o b de bom pode coincidir com o b de burro, mas isso é uma excepção que confirma a regra. O equívoco existe também porque muita gente confunde as pessoas boas com pessoas fracas. Ora fraco significa não ter força e é sinónimo de débil, frouxo, delgado, cobarde, pusilânime, debilitado, medíocre, brando, mau, reles, defeito, tendência, simpatia, paixão (estes últimos quando se tem um fraco por…), vício, predominante, balda. Assim, ser fraco não é coisa boa de certeza, também não sei se os fracos são burros, ou seja estúpidos e teimosos, não tenho a certeza, um indivíduo pode ser fraco apenas porque está doente, a doença nada tem a ver com a inteligência. Mas penso que a origem deste equívoco está no facto da bondade, o altruísmo, a generosidade, a partilha serem vistas com maus olhos no capitalismo selvático onde vivemos, sobretudo no mundo do trabalho que é uma psicose desenfreada, onde o individualismo, o egocentrismo, o egoísmo é sinónimo de forte no salve-se quem puder. Infelizmente, sinto que o sistema de mercado do salve-se quem puder também contamina e abrange não apenas o mundo do trabalho, mas outras áreas dos humanos. Verifico que essa contaminação está sempre presente na gente que confunde o b de bom com o b de burro. Acho, no entanto, que nunca nos devemos de esquecer que burro em italiano significa manteiga.


A bela fotografia de Miguel Martins em terras de Espanha remeteu-me para o texto postado no Insónia a 3/10/2008.

Leituras #8


O post anterior continua, ou seja, o desenvolvimento do ponto de vista de Shere Hite sobre as causas que levam alguns homens a matarem o amor:

A paixão está condenada ao fracasso?
O amor intenso deve acabar obrigatoriamente? O amor apaixonado cria «uma tensão insuportável» que faz com que muitos homens sintam que não pode durar sempre? Esta tensão aparece porque o homem é falso consigo mesmo ou porque realmente não ama a mulher, ou porque sente que a sua vida se desequilibra ao identificar-se demasiado com uma mulher e com as coisas das mulheres, pelo que será finalmente castigado pelo «pai», ou seja, pela sociedade masculina?
Muitas mulheres dizem que os homens seguem um modelo extremamente confuso e irracional. O homem actua com uma paixão inegavelmente real e intensa perante a mulher (tanto sexual como emocional) para logo sair em plena relação amorosa e esconder os seus sentimentos (quase metade de um orgasmo, segundo a opinião de algumas mulheres em As mulheres e o amor). Posteriormente, esse mesmo homem volta, demonstrando paixão mas ao mesmo tempo murmura cinicamente que «depois deverá pagar por isso». Evidentemente, segue-se depois outra ruptura e um adeus definitivo. Muitas mulheres dizem que se sentem «abandonadas» estando ainda seguras de que esses homens as amam, enquanto que os homens dizem «não sentir-se seguros» e não «querer comprometer-se».

Apaixonar-se implica um conflito de lealdades
Quando um rapaz que viveu uma «infância normal» no sistema familiar patriarcal cresce e apaixona-se a sério pela primeira vez, pode sentir que isso é uma bomba opressiva, e com um poder totalmente inesperado; e negativo. Ao contrário da mulher, o homem costuma considerar que estes sentimentos são demasiado intensos para sentir-se cómodo. Dizem que ao princípio o amor parece «natural» e agradável, mas rapidamente algo no seu interior diz-lhes que não pode ser bom, e deixar que uma mulher domine todos os seus actos e os seus sentimentos não é adequado. Quando «se apaixonam», muitos rapazes sentem instintivamente que estão em perigo e que devem sair de alguma maneira dessa situação, por muito prazenteiros que sejam esses sentimentos.
O facto de terem deixado a mãe paralisa-os, traumatiza-os criando neles um sentimento de culpa que faz com que resulte difícil amar e aceitar mais tarde o amor, e causa-lhes conflitos em quase todas as suas relações posteriores com as mulheres (incluindo as laborais) porque sentem culpa e temor ao verem-se «apanhados» no mundo da mulher e da mãe. Tanto os homens como os rapazes tiveram de aprender e aceitar o sistema de descriminação pelo sexo e o lugar que ocupam nele, o seu «direito» a dominar as mulheres e a competir com os homens.
Estes conhecimentos e a recordação dos sentimentos apagam-se à medida que os anos passam, e a sua origem desaparece da mente consciente. No entanto, se se identificam de forma «demasiado próxima» com uma mulher, reaparecem facilmente os antigos sinais de alarme confundindo os sentimentos e a conduta dos homens apaixonados.

In Shere Hite, Informe Hite sobre la familia, Ed. Paidos, Barcelona y Buenos Aires, 1995, p-250 (tradução caseira)