O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

quinta-feira, 26 de março de 2009

Retrato #1




Fica aqui a nova página do Eurico Lino do Vale, autor da fotografia que está no meu perfil, ele viu-me assim em 1998.

http://linodovale.com.sapo.pt/

Uma casa no tempo #4





































Sala

Entrei às escuras na porta do teu mundo. O som da água que corre invadia o espaço da sala e deste-me a tua mão, abrindo a janela. Mostraste-me como a natureza entrava em tua casa, descrevendo-me com a língua como a vias e amavas. Pediste-me silêncio senão a água caía dos teus olhos. Na tua janela bebi a água que os teus olhos me deram. O riso a iluminar o mundo e os meus lábios a beijarem os teus olhos a sorrir. Perguntaste-me no meu corpo porque sempre te fiz rir. No meu corpo correu a água que corre na água e invadimos o espaço da sala. A tua mão em casa na minha. Entendi como amavas a natureza ao escreveres no meu corpo com a língua e a minha traduzia a escrita. Pediste-me que te contasse os meus sonhos, antes de adormeceres. Acordaste de um sonho onde estávamos os dois em silêncio na tua sala a escrever, lá fora havia um barulho ensurdecedor, estavam políticos que tu odiavas, a multidão da qual fugíamos. Tremias quando te agarrei e abracei como podia. Eu não temia, a minha mão firme em casa na tua. Querias para sempre, mas respondi-te que isso é um romance já escrito. Contei-te que sonhava com o mar, que ele se tornava cada vez mais revolto, com ondas enormes e que tinha de fugir.


Texto publicado na revista Big Ode #3: Fusão, Nov 07/Fev 08 acompanhado da ilustração a preto e branco. Foi escrito a partir de um post do Insónia de 20/8/2005, intitulado "Casa" e publicado sem a ilustração em "Bicicletas para memórias e Invenções", Ed. criativação, Lisboa, Dezembro 2006.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Eco

São 3h da manhã e não consigo pregar olho, então, resolvi vir aqui para a máquina e brincar com essa coisa ali ao lado que se chama seguidores, tem piada, coloquei-me como seguidora deste blog, ou seja, estou a seguir-me a mim própria, não serve para nada e é uma grande estupidez.

terça-feira, 24 de março de 2009

Textos insones #1

Pinhais

Olho a página em branco da folha e penso: és apenas papel, eu sou tempo e ânimo, as minhas mãos vão moldar-te e tu serás uma página na minha vida. Entro na página de papel, mas ela movimenta-se como o sol de um novo dia, impenetrável, como a própria vida; esta página de papel pertence a um livro que contém fragmentos da minha existência e leva-me a outras páginas em movimento, onde o sol nasceu e se apagou todos os dias. Sinto o cheiro destas páginas, o cheiro dos pinhais, não sei se são os pinhais na estrada de Setúbal, se são na região de Leiria, mas reconheço este cheiro a liberdade, que me alivia os pulmões e me leva ao desconhecido, a uma nova página adiante. O cheiro dos pinheiros é no entanto longínquo, acompanha esquecimento, é como um pedaço de cortiça num vinho de reserva, que surge num aroma intenso no interior da boca, arranhando a língua quando menos se está à espera; este pedaço de cortiça remete-me para o estado da rolha quando se abriu a garrafa de vinho antigo, com o sabor do tempo no seu corpo. Entro nas páginas de um livro onde escrevi sobre os pinhais nas estradas onde viajei, mas os seus aromas fundem-se no movimento da estrada, as texturas do papel contêm mistérios temporais, não foram apenas as minhas mãos a modelarem estas páginas, elas também me modelaram a mim, com o seu tempo e ânimo. Percorro as páginas de livros que me contam vidas inteiras onde o sol nasceu e se apagou todos os dias, as páginas fundem-se com as da minha própria vida, com o meu esquecimento; estas páginas por vezes voltam a estar presentes através de um aroma que reconheço, não sei bem de onde, ou uma palavra que cai das minhas mãos, ou cai da boca de alguém como um beijo, mas é muito raro acontecer; porque falar nunca é como beijar, mas escrever deveria ser como beijar de forma que a língua se possa fundir com o papel, no seu aroma a pinhais, transformando a matéria em tempo e ânimo, como uma brisa ou um sopro penetrando a própria vida.

Postado no Insónia a 21/2/2006

textos insones

No Insónia foram postados textos em registos muito diversos, de tal modo que estou com dificuldades em arrumá-los, não sei bem como hei-de de o fazer, mas alguns estarão nesta etiqueta que intitulei textos insones.

domingo, 22 de março de 2009

Uma casa no tempo #3




































Janela

Nunca sei como se abre uma janela ao pé de ti. Fico desorientada, procuro um cigarro para fumar, não sei o que fazer às mãos, não te quero incomodar com o fumo, preciso de abrir a janela. Tu sorris e abres, dizendo: é aqui. No escuro procuro abrir a janela, resmungando, nunca me lembro onde fica o fecho, não o encontro, não vejo nada. Estamos em andamento, nunca sei onde estou, a tua calma perturba-me, é a calma de quem sabe conduzir e eu não consigo fazer isso. Já tentei, mas perco-me sempre, ou tenho medo de me perder. Hoje surpreendeste-me, mais uma vez. Porque em vez de abrires a janela, acendeste a luz, resmunguei que não era a luz, é a janela. Respondeste-me calmamente: em vez de ser sempre eu a abrir a janela, vais ser tu a procurar o fecho, assim não te esqueces onde está. Ainda fiquei mais desorientada, não encontrava nada com luz, perguntei-te onde é que estava. Estavas a rir e disseste: em frente, por baixo. Lá vislumbrei aquilo e consegui ser eu a abrir . E agora, vou ser sempre eu a abrir a janela?


Texto publicado na revista Big Ode #3: Fusão, Nov 07/Fev 08 acompanhado da ilustração a preto e branco. O texto isolado foi postado no Insónia a 20/8/2005

Uma casa no tempo #2





























Porta
Estava escuro. Havia uma porta, entrei quando me deste a mão. A porta situava-se perto do ar de Sintra que conheço tão bem, é húmido, dúbio, sempre misterioso. Agarraste a minha mão em casa na tua porta aberta, finalmente. Porque a porta esteve sempre entreaberta e tinha medo de entrar. A tua mão era suave e firme, por isso entrei na porta onde esperava que terminasse aquele frio húmido de rachar do ar de Sintra, que tão bem conheço. Entrei, seguindo-te no corredor escuro em direcção à tua sala, onde estava a janela aberta para a natureza, que sempre amámos tanto. Da tua janela entrava o som da água que corre na água e continuámos às escuras na chuva da noite, mas na tua mão estava em casa e já não tinha frio.

Texto publicado em "Bicicletas para memórias e Invenções", Ed. criativação, Lisboa, Dezembro 2006 e postado no Insónia a 20/8/2005, a ilustração foi postada a 15/9/2006